Compras de Tesouro IPCA+ acompanham juro recorde e disparam mais de 70%

Com o juro real cravando níveis raros na história dos títulos de inflação, a captação do papel quase dobra no primeiro semestre ante mesmo período de 2025

Paulo Barros

Notas de reais (Shutterstock)
Notas de reais (Shutterstock)

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A janela rara nos títulos de inflação que o mercado passou meses anunciando não ficou aberta à toa. O investidor respondeu com o bolso, e as vendas do Tesouro IPCA+ somaram R$ 18,8 bilhões no primeiro semestre de 2026, um salto de 73% ante os R$ 10,9 bilhões do mesmo período de 2025. Foi, de longe, o título público que mais acelerou no ano, em movimento diretamente ligado às taxas históricas.

O ritmo do IPCA+ deixou para trás até o tradicional porto seguro da renda fixa. O Tesouro Selic, campeão absoluto de captação, cresceu 23% na mesma comparação, de R$ 24,9 bilhões para R$ 30,7 bilhões. Com o avanço, o IPCA+ encurtou a distância para Selic e passou a vender o equivalente a 61% do volume do papel pós-fixado, contra 44% um ano antes.

O que move essa migração é a remuneração. Ao longo do semestre, a maioria dos vencimentos do Tesouro IPCA+ passou a pagar juro real acima de 7% ao ano, com o miolo e os papéis mais curtos flertando com os 8%, em alta que ganhou força na reta final do semestre.

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Por trás da abertura estão ingredientes conhecidos: o temor com a sustentabilidade fiscal do Brasil, a volatilidade típica de ano eleitoral, uma inflação rodando acima do teto da meta, a Selic projetada em 14% no fim do ano e a pressão dos juros no exterior, dos Estados Unidos ao Japão.

À Folha de S.Paulo, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, demonstrou preocupação com a taxa real dos títulos públicos indexados à inflação (NTN-Bs), mas afirmou que o Tesouro Nacional está preparado para atuar no mercado caso considere necessário preservar a liquidez. Recentemente, o Tesouro já havia suspendido um leilão de títulos, o que ajudou a aliviar as taxas momentaneamente.

Ceron também criticou o que classificou como uma leitura simplificada das razões para a alta, dizendo que atribuir o comportamento das NTN-Bs exclusivamente às dúvidas em torno da política fiscal é um debate “pobre” e “superficial”.

Pico de taxas (e compras) no fim do semestre

A taxa média dos títulos IPCA+ saiu de 7,27% em janeiro para 7,64% em junho, com os vencimentos longos abrindo entre 48 e 65 pontos-base no período. Nos papéis mais curtos, a taxa real chegou a superar 8,5% em junho, atingido pelo Tesouro IPCA+ 2032.

O mês de junho foi, ao mesmo tempo, o de maior taxa média (7,64%) e o de maior captação do semestre: R$ 5,1 bilhões, cerca de 40% acima do segundo mês mais forte e concentrando 27% de tudo o que o IPCA+ vendeu de janeiro a junho.


O ano já começou aquecido: janeiro puxou R$ 3,4 bilhões, março repetiu a dose com R$ 3,5 bilhões (ambos em meses de alta nas taxas) e, após a acomodação de abril e maio, junho estourou o teto do semestre.

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O Tesouro IPCA+ tradicional, aquele que não paga cupom no meio do caminho e reinveste tudo até o vencimento, concentrou 83% da captação do semestre, R$ 15,6 bilhões. A versão com juros semestrais, que distribui renda periódica ao investidor, respondeu por R$ 3,2 bilhões, ou 17% do total. E, no pico de junho, a preferência pela acumulação ficou ainda mais nítida: a fatia da versão semestral encolheu para cerca de 10% do mês.

“Nunca foi tão atrativo travar juro real, e ao mesmo tempo nunca foi tão fácil tomar um susto pelo caminho”, resumiu Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, ao InfoMoney. Ele recomenda focar na janela de cinco a dez anos e evitar as oscilações mais imprevisíveis dos papéis ultralongos, como 2050 e 2060.

A XP enxerga uma “janela rara” para os títulos de inflação, desde que o objetivo não seja vender antes da hora, e avalia que ventos do exterior e desafios fiscais ainda devem pressionar as taxas nos próximos meses. Na mesma linha, Bruno Corano, da Corano Capital, lembra que o IPCA+ longo só cumpre seu papel de porto seguro para quem tem certeza de que vai carregar o papel até o vencimento, caso contrário, o susto da marcação a mercado pode custar caro.

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O consenso entre os especialistas ouvidos ao longo do semestre recai sobre o “miolo” da curva, com vencimentos intermediários que equilibram remuneração, liquidez e volatilidade. Cleiton Souza, da Private Investimentos, define o IPCA+ como “a ferramenta mais eficiente contra a perda do poder de compra”, mas insiste na necessidade de uma carteira bem calibrada.

Paulo Barros

Jornalista há mais de 15 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos