No retrovisor

Como os melhores fundos de ações e multimercados de 2019 se comportaram em 2020?

Entre os dez fundos de ações mais rentáveis de 2019, cinco não bateram o Ibovespa em 2020; três produtos multimercado ficaram no campo negativo

Gráfico de cotações de ações (Crédito: Shutterstock)

SÃO PAULO – Em 2019, com o embalo de um ambiente de maior apetite por risco nos mercados, o Ibovespa subiu 31,5%, enquanto o IMA-B 5+, que acompanha o desempenho de títulos públicos indexados à inflação com vencimentos igual ou acima de cinco anos, avançou 30,4%, o que permitiu aos gestores de fundos de ações e multimercados entregarem retornos bastante consideráveis aos investidores.

Já em 2020, com níveis extremos de volatilidade ao longo do caminho diante da pandemia de coronavírus, a alta do índice da Bolsa foi de apenas 2,9%, e de 5,5% no caso do benchmark da renda fixa, contra uma inflação de 4,5%.

Em razão de cenários tão distintos de um ano para o outro, fundos que tiveram performances destacadas em 2019 não conseguiram repetir o mesmo feito nos 12 meses de 2020.

Entre os dez fundos de ações que mais renderam em 2019, com retornos de cerca de duas vezes acima dos ganhos já expressivos do Ibovespa, cinco perderam para o principal benchmark da Bolsa no ano passado.

Dois deles, Equitas Selection e BNP Paribas Small Caps, que renderam aproximadamente 60% em 2019, fecharam o ano passado no campo negativo, com perdas de 13,5% e 2,6%, respectivamente.

Já entre os dez multimercados destaques positivos de 2019, três entregaram retorno negativo aos investidores em 2020, de 25,9%, no caso do Logos Total Return, que havia registrado ganhos de 116,1% em 2019.

O Safari Multimercado, por sua vez, cuja cota havia apresentado valorização de 43,3% em 2019, teve perda de 9,3% no ano passado, enquanto o Ibiuna Long Biased rendeu 36% em 2019, e teve perda de 6,1%, em 2020.

Por outro lado, há gestores que conseguiram entregar retornos até maiores de um ano para o outro, apesar de todas as incertezas. Este foi o caso do Versa Long Biased, que rendeu 83,8% em 2020, após uma alta já considerável de 51,5% em 2019, e do M Square Global Equity Managers, em que os ganhos foram de 32,7% e de 53,5%, em cada período.

Confira a seguir o desempenho dos fundos de ações e multimercados que mais se destacaram em 2019, em 2020, e a rentabilidade de cada um deles também em 36 meses, para ter uma visão mais abrangente sobre a trajetória das carteiras, positiva em todos os casos.

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Importante lembrar que retorno passado, principalmente de curto prazo, não é garantia de rentabilidade futura, embora seja interessante analisar o desempenho histórico dos fundos para observar sua consistência.

Entre os fundos de ações que se destacaram em 2019, nenhum deles conseguiu bater o próprio desempenho em 2020, embora haja casos como o do Dynamo Cougar, que superou o desempenho do Ibovespa de longe, com um retorno de 26,1%, ou do Guepardo Institucional, com ganho de 15% no ano passado.

Para a análise, que tem como base dados extraídos da Economatica, foram considerados fundos não exclusivos com patrimônio líquido médio superior a R$ 100 milhões em 12 meses e mais de 99 cotistas em dezembro de 2019.

No caso dos fundos de ações, foram excluídos os setoriais, os indexados e os monoações. Entre os multimercados, não foram considerados fundos de crédito privado.

Reação atrasada

Fundador e gestor da Equitas, Luiz Felipe Amaral conta que a característica da carteira do fundo de ações pesou bastante no estouro da crise, com posições em Petrobras, Iguatemi, Renner e Localiza, além de Azul, com a maior queda do portfólio no auge da crise.

Com uma leitura que reconhece como atrasada daquele momento, Amaral conta ter demorado a agir, sem a dimensão de que o problema iria se estender.

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“Quando nos demos conta do cenário, tomamos uma posição um pouco mais defensiva na carteira e o mercado recuperou muito forte”, diz, ressaltando não ter se blindado no início da pandemia, em março, e não ter conseguido aproveitar o embalo da retomada como gostaria.

O gestor vê um equilíbrio de risco mais complicado hoje, com um noticiário externo favorável, principalmente com os juros baixos e os estímulos em curso, além da recuperação da atividade econômica, e um cenário doméstico preocupante.

“Acho que tem muito pouca expectativa embutida no cenário doméstico. O mercado hoje está sendo dominado pela agenda de fora, com excesso de liquidez, recuperação de ativos e um ambiente de bastante tomada de risco”, pontua.

A carteira atual do fundo Equitas Selection tem posições preponderantes nas ações da Petrobras, da Vale e da Notredame.

A competitividade e o impulso do câmbio são aliados à tese das exportadoras, grupo que conta ainda com os papéis da Suzano. “A empresa é a produtora de celulose com o custo caixa mais baixo do mundo, é a companhia mais competitiva e ficou ainda mais com o câmbio”, diz Amaral.

Também foram incluídas depois do início da crise ações de empresas de energia, como da Equatorial, e houve um aumento da exposição à Cesp, diante da previsibilidade de receita das companhias.

No caso da Notredame, na carteira do fundo desde o IPO, em abril de 2018, Amaral a considera uma das empresas vencedoras da crise, ao reverter a situação em uma oportunidade de crescimento maior, além da fusão vista como promissora com a Hapvida.

“É um setor em que a natureza do negócio é anticíclica”, afirma o gestor. “No curto prazo, se beneficia com as pessoas indo menos a hospitais; no médio prazo, com oportunidades de aquisições, com mais players fragilizados; e, no longo prazo, com a maior importância em ter acesso ao sistema privado de saúde.”

Antecipação

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No caso do BNP Paribas Small Caps, o gestor Marcos Kawakami explica que, em 2019, a visão já estava um pouco mais voltada para as empresas de varejo digital que mais se beneficiavam das mudanças de perfil de consumo da população, além de papéis ligados ao setor de infraestrutura e da construção civil.

Na virada para 2020, contudo, após um desempenho já destacado principalmente das ações de e-commerce, a opção foi por reduzir a exposição a esses ativos, e aumentar em outros que haviam ficado para trás, como de shoppings e companhias aéreas.

Por conta dessas mudanças, em março, quando o Ibovespa caiu 30%, o tombo do fundo de small caps do BNP Paribas foi de 40%. Após a pandemia, a gestora voltou a aumentar a alocação no setor do varejo digital, mas não na mesma proporção do observado em 2019.

Devido ao patamar no qual já estavam as ações desse segmento no início do ano passado, a magnitude da alta, ainda que impulsionada pelo cenário fora do comum, chegou a surpreender, diz o gestor.

Além disso, uma exposição abaixo da média apontada pelo índice de referência no setor de utilidades públicas se mostrou uma aposta errada nos últimos meses, uma vez que foram papéis que tiveram performance melhor que a média no período, reconhece Kawakami.

O que ajudou o resultado do fundo nos últimos meses, diz o gestor, foi a aposta no setor siderúrgico, que se beneficiou do ciclo de retomada dos preços das commodities, bem como o de locação de veículos, além de alguns IPOs de empresas de saúde e de infraestrutura.

Segundo Kawakami, por serem ações de empresas de menor porte, mais relacionadas à atividade doméstica, e em muitos casos em franca expansão, é comum que as estratégias de small caps tenham uma performance melhor que a média do mercado em momentos de alta.

Por outro lado, nos ciclos de baixa, esses fundos geralmente têm quedas mais acentuadas que as dos benchmarks.

Sob intensa volatilidade

Entre os multimercados, após se destacar em 2019 ao concentrar a aposta em ações como Mercado Livre, Via Varejo, Totvs, Sabesp, Sanepar, Light e Eneva, o CIO da Logos Capital, Luiz Henrique Guerra, reconhece que desprezou os efeitos da pandemia, o que foi crucial para o retorno negativo do ano passado. As perdas foram intensificadas por apostas em companhias aéreas, no setor de telecomunicações e na Eletrobras.

“Realmente não esperávamos um impacto tão significativo por conta do coronavírus”, afirma Guerra, acrescentando que uma aposta comprada (que prevê a valorização) do real também pesou negativamente sobre o desempenho do Logos Total Return, que apenas em março chegou a perder 44,7%.

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Por outro lado, prossegue o gestor, na retomada dos mercados, e em especial no fim do ano, o fundo conseguiu se recuperar de parte das perdas, principalmente pelas apostas alavancadas em empresas de commodities como Suzano e Vale.

O resultado do fundo também foi suavizado em 2020 por uma aposta vendida (que espera a queda) nas ações do IRB, que a Logos já carregava mesmo antes do relatório da gestora Squadra, diz Guerra.

De acordo com o CIO da gestora, uma lição aprendida na crise de 2020 foi estar ainda mais atento aos movimentos diários do mercado, para rapidamente desfazer ou remontar posições, e com uma atenção redobrada às proteções da carteira, que hoje se dão por meio de uma aposta no dólar. “O real está muito barato, mas pode ficar barato por muito tempo”, afirma o gestor, em referência ao risco fiscal.

Sem proteção

No caso do multimercado Safari FIC FIM, o sócio gestor da Safari Capital, Marcelo Cavalheiro resume o desempenho em uma resposta: “O que diferenciou 2020 dos outros anos? Conseguimos hedgear os portfólios nas outras vezes”.

A carteira conta atualmente com 30% de exposição em papéis ligados a commodities, outros 30%, em varejo offline e online, e 15%, em bancos.

Com a visão de que a transformação do varejo veio para ficar, ainda que o crescimento de 2021 ocorra em uma base menor que em 2020, a Safari tem ações como da B2W e Mercado Livre no portfólio, assim como da Lojas Renner.

Grandes nomes como Natura também marcam presença na carteira, com a Safari de olho na atuação internacional da companhia.

A parte de commodities é composta hoje pelos papéis da Vale, da Suzano e da CSN, enquanto o grupo financeiro é liderado por BTG Pactual, tido como bem posicionado na disputa com grandes bancos.

Uma segunda fatia do portfólio está vinculada à recuperação de Covid-19, com nomes de saúde como a Rede D’Or, e de turismo como CVC, com a vacinação em curso e o foco no turnaround da empresa.

Embora considere a falta de hedge determinante para o desempenho de 2020, Cavalheiro assinala que, por ora, o fundo segue sem proteções, ainda que haja preocupação com o ritmo das vacinações e com o andamento das reformas após as eleições para a presidência da Câmara e do Senado.

A ideia é ter mais exposição – até cerca de 20% – no mercado internacional em 2021, o que deve ajudar a aliviar efeito negativos vindos do Brasil.

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