Como as empresas de capital aberto que operam na indústria aeroespacial tem se saído

Estreia da SpaceX na bolsa empurra ações de um setor que já era beneficiado por postura agressiva na Nasa; riscos, no entanto, são elevados

Iuri Santos

22 de maio de 2026 - Lançamento do foguete Starship, da SpaceX em 12o teste na Starbase, Texas, Estados Unidos. Foto:  REUTERS/Steve Nesius
22 de maio de 2026 - Lançamento do foguete Starship, da SpaceX em 12o teste na Starbase, Texas, Estados Unidos. Foto: REUTERS/Steve Nesius

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A estreia iminente da SpaceX na bolsa de valores deu um empurrão no desempenho de outras companhias aeroespaciais listadas nos Estados Unidos. Mais: o casamento entre um ciclo de investimentos agressivo do governo americano com entregas operacionais reais também apoia os movimentos mais recentes nas ações. O ciclo pode esconder, no entanto, os desafios de um setor bastante segmentado e composto por um grupo de empresas altamente voláteis.

Para se ter ideia, o ETF temático do setor espacial chamado UFO ganhou cerca de 29% de valor neste ano, chegando a um pico de valorização de 68% no fim de maio. O NASA, outro fundo de índices exposto a empresas do setor, anota ganhos de 14% ao ano.

No ramo de lançamentos de foguetes, a Rocket Lab é a principal referência, amplamente considerada como a “número 2” do segmento, atrás da SpaceX. No primeiro trimestre de 2026, reportou receita de R$ 200 milhões, alta anual de 64%, com um backlog recorde de US$ 2,2 bilhões.

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“Um detalhe relevante: sua divisão de sistemas espaciais (componentes, software, satélites) já fatura mais do que o negócio de lançamento”, conta o CEO da Gravus Capital, Ricardo Trevisan.

A companhia opera hoje com lançamentos do foguete Electron e parte do mercado precifica suas ações olhando para o desenvolvimento da próxima aeronave, o Neutron, previsto para 2026 após atrasos. E esse cenário explica um dos principais riscos relacionados às companhias de lançamento: atrasos no calendário tecnológico tornam os papéis muito voláteis.

Não é incomum que essas companhias enfrentem variações positivas ou negativas de 15% a 20% dentro de um mesmo pregão em função de notícias sobre contratos ou o andamento de novos projetos de desenvolvimento, explica o diretor do family office Eclipseon, Ricardo Simon.

Além do mais, as companhias do setor operam em múltiplos muito elevados, aumentando a margem de volatilidade. A SpaceX, por exemplo, estreia com um preço de mercado equivalente a 92 vezes sua receita, valor próximo ao da Rocket Lab, de 94 vezes a receita. Em termos de comparação, a Palantir, ação mais cara da S&P, negocia a 62 vezes.

Investimentos agressivos da Nasa puxam otimismo

É verdade que o contexto dos últimos anos foi favorável. Desde que o presidente Donald Trump nomeou Jared Isaacman para o principal cargo da administração na Nasa, o ritmo de anúncios de novos projetos relacionados à base lunar e ao programa Artemis acelerou.

“Como várias das empresas têm parcela relevante da receita vinculada à Nasa, elas se beneficiam diretamente desse planejamento mais agressivo”, afirma Simon. A expectativa é que o programa Artemis leve o homem novamente à Lua até 2028.

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Um exemplo emblemático é o da Intuitive Machines. Três contratos com a Nasa para a produção de equipamentos embarcados são as principais linhas de receita da companhia de módulos de pouso lunar pelos próximos anos, somando US$ 377 milhões em lançamentos até 2030.

“O papel oscila de forma intensa a cada notícia de novo contrato ou a cada anúncio relacionado ao programa Artemis. Para essa empresa, notícias da Nasa são o principal driver de preço”, aponta Simon.

Para se ter ideia, a Intuitive Machines deixou 2025 com uma receita de aproximadamente US$ 210 milhões e relatou uma projeção de faturamento de US$ 900 milhões a US$ 1 bilhão em 2026. As ações da companhia valorizaram 50% neste ano, mas chegaram a um pico de 155% em maio.

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“Ganha mais quem cobra o pedágio”

Embora o lançamento de foguetes seja a atividade de maior visibilidade entre o público geral, ele representa só uma parte da economia espacial. A infraestrutura de conectividade por satélites, tecnologia de exploração lunar ou observação terrestre, em muitos casos, reúne negócios mais previsíveis.

“Talvez a melhor forma de resumir o setor seja uma analogia simples: quem ganha dinheiro de forma mais consistente em infraestrutura nem sempre é quem constrói a estrada, mas quem cobra o pedágio sobre ela”, aponta o sócio-fundador da Private Investimentos, Cleiton Souza.

No caso da própria SpaceX, a unidade de satélites orbitais Starlink ajuda a ancorar o valor de mercado da companhia. Há ainda exemplos como a AST SpaceMobile, que anotou uma valorização de mais de 200% em doze meses de 2025 embora ainda seja muito dependente dos lançamentos da Blue Origin, de Jeff Bezos e ainda queime caixa, anotando um prejuízo de US$ 191 milhões no primeiro trimestre deste ano.

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Trevisan cita nomes mais maduros em conectividade como Iridium, Viasat e Globalstar, todas listadas em bolsa. Ele menciona ainda companhias de observação terrestre, como a Planet Labs, dona da maior constelação de imageamento do planeta e receita anual recorde de US$ 307,7 milhões puxada por contratos de defesa e inteligência com NGA, NRO, Nasa, Marinha dos EUA e Otan.

A expectativa é que a SpaceX faça um IPO recorde de US$ 75 bilhões, o que avaliaria a companhia em US$ 1,77 trilhão.

Iuri Santos

Repórter de inovação e negócios no IM Business, do InfoMoney. Graduado em Jornalismo pela Unesp, já passou também pelo E-Investidor, do Estadão.