Gestora global

Com três ações do Brasil em carteira de emergentes, Janus Henderson cobra reformas para aumentar posição no país

Para Daniel Graña, dúvidas sobre o cenário fiscal e político brasileiro têm afastado o investidor estrangeiro e impedido maior exposição ao país

Daniel Graña, gestor na Janus Henderson (Divulgação)
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SÃO PAULO – Com incertezas que têm ditado o rumo dos mercados em 2020, como o coronavírus, a disputa nas eleições presidenciais americanas e novas tensões geopolíticas, especialmente entre Estados Unidos e China, o investidor não deve se expor a riscos adicionais para ter retorno. E essa percepção diz respeito ao Brasil, diante das turbulências no cenário fiscal e político.

Para Daniel Graña, gestor do fundo de mercados emergentes da Janus Henderson, enquanto o governo brasileiro não endereçar a agenda de reformas estruturais, não haverá espaço para assumir maiores posições no país.

“Não estou dizendo que o Brasil não consegue executar, mas estamos acompanhando com cautela”, disse, em entrevista feita por telefone ao InfoMoney.

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Com o surto do coronavírus, a avaliação de que o Brasil não estava bem posicionado para lidar com a pandemia levou a Janus a reduzir as alocações no país. Sob a mesma percepção, Índia e Indonésia também tiveram suas posições encolhidas.

Por outro lado, países que já haviam enfrentado pandemias previamente, caso de China, Coreia e Taiwan, ganharam espaço na carteira da gestora britânica.

Criado no fim de 2010, o fundo de mercados emergentes da Janus Henderson tem patrimônio próximo de US$ 75 milhões, uma pequena fração dos quase US$ 360 bilhões sob gestão da casa.

De acordo com dados de outubro, a região da Ásia e do Pacífico, com exceção do Japão, representa 83% do portfólio de emergentes. Na sequência, a América Latina detém apenas 4,6% da carteira. A gestora não abre os percentuais individuais alocados em cada país.

No Brasil, as posições recaem sobre três empresas: Notredame Intermédica, Boa Vista e Copel.

Acompanhando mercados emergentes há 25 anos, Graña afirma que a chegada de uma vacina contra a Covid-19 elimina o pior cenário para os países do bloco, mas assinala que 2021 continuará a ser um ano difícil para as economias, com uma “ressaca” que deve levar mais tempo para passar do que o mercado gostaria.

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Confira a seguir os principais trechos da entrevista feita com o gestor.

InfoMoney: Como o Brasil está situado no portfólio em relação aos demais emergentes?

Daniel Graña: No início do ano, quando surgiu a pandemia, fiquei muito preocupado, já que o Brasil não estava bem posicionado para lidar com ela. E o país ainda está entre os mais endividados entre os mercados emergentes. Se olharmos para a inclinação da curva de juros de dez anos ante a de dois anos, a do Brasil é a mais acentuada dos emergentes, em linha com a da África do Sul – o que está claramente indicando que o mercado de renda fixa está estressado, que há preocupações sobre a estabilização das dívidas públicas.

Por isso que as reformas estruturais são tão importantes. No Brasil, temos monitorado se o governo vai continuar a agenda de reformas estruturais, se vai reduzir as pressões sobre o teto de gastos, aumentar a independência do Banco Central, melhorar a arrecadação de impostos e criar um ambiente de investimento favorável. Se isso acontecer, o Brasil ficará, então, atrativo.

IM: Seriam essas as condições para a Janus Henderson aumentar as posições em Brasil?

Graña: As notícias em relação a uma vacina excluíram o pior cenário para o Brasil [de uma segunda onda da Covid-19]. Com isso, alteramos nossa visão sobre o país, mas ainda não estamos dispostos a considerar a região entre nossos principais ativos, porque precisamos ver progresso nas reformas.

Algumas perguntas criam um ambiente de incerteza. Rodrigo Maia vai continuar como presidente da Câmara dos Deputados depois de janeiro? Não sabemos. Paulo Guedes ainda vai estar no cargo daqui a um ano? Não sabemos. Jair Bolsonaro vai continuar a pressionar a agenda de reformas? Também não sabemos. Essas são algumas perguntas que têm sido feitas. E não estou dizendo que o Brasil não consegue executar, mas estamos acompanhando com cautela.

IM: O ambiente global contribui para essa maior cautela?

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Graña: Sim. Há muitas incertezas ao redor do mundo, com o coronavírus, a China, as tensões entre Estados Unidos e China. Não precisamos de mais dúvidas, já temos o suficiente. Então, se o governo brasileiro conseguir retirar parte das incertezas, será positivo.

IM: É isso que tem afastado o investidor estrangeiro?

Graña: Vou introduzir a você o conceito que eu chamo de “turistas dos mercados emergentes”. Tem pessoas como eu que passam a carreira inteira estudando os emergentes, e outros que investem nesses mercados quando é oportuno. Esses são os “turistas”.

Para atraí-los, é preciso remover as dúvidas. É preciso mostrar a eles que há uma boa história a ser perseguida, mas, se você começar a falar que vai depender da permanência do Maia no cargo, avançando com as reformas, do Guedes ou da taxa de juro, você os perde. Esses turistas querem falar sobre ações, sobre Magalu, Mercado Livre, sobre coisas interessantes que estão acontecendo no mercado de fintech no Brasil. Eles não querem falar de política, porque é algo fora da zona de conforto.

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IM: Como vocês analisam o impacto do aumento da inflação sobre a economia brasileira?

Graña: Quando um país entra em recessão e tem uma grande dívida pública, como o Brasil, há pressão desinflacionária. Isso porque, com uma economia enfraquecida, a inflação tende a cair.

Ao mesmo tempo em que o Brasil tem essa pressão desinflacionária por conta do baixo crescimento, precisa lidar com a inflação de uma moeda muito depreciada, e é preciso adicionar também o impacto da pandemia, com reflexo sobre as cadeias de produção. Quando isso acontece, principalmente no setor de alimentos, é possível ver rapidamente picos de alta na inflação.

O que está acontecendo é que os dois últimos fatores estão dominando o primeiro. Ou seja, a disrupção da cadeia produtiva e uma depreciação do real estão fazendo com que a inflação fique maior do que o esperado, dada a economia enfraquecida.

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O Banco Central ainda cortou a taxa básica de juros para a mínima histórica, o que também deve ser adicionado ao mix. Se as taxas de juros nominais estivessem mais altas, ajudariam a conter a pressão inflacionária ao custo de um menor crescimento econômico.

Minha visão é de que a inflação vai se normalizar à medida que houver uma retomada das cadeias de produção. Como também não espero que o real se deprecie mais daqui para frente e deve haver uma retomada da economia, vejo uma queda no índice de preços.

Mas, novamente, isso depende do governo. Se o mercado enxergar que não haverá avanço nas reformas estruturais e que precisa se preocupar com o teto de gastos, tende a prejudicar a confiança.

IM: No fundo de mercados emergentes, há três companhias brasileiras, de acordo com o relatório mais recente: Notredame Intermédica, Copel e Boa Vista. Elas são novas no portfólio?

Graña: Assumi a estratégia no começo de setembro do ano passado, então tive que fazer algumas mudanças para não coincidir com outras carteiras já existentes. Boa Vista é uma companhia nova, visto que foi um IPO recente.

IM: A entrada de Notredame Intermédica tem alguma relação com a pandemia?

Graña: Não. A decisão foi tomada por ser uma companhia muito interessante, que combina planos de saúde com hospitais de forma verticalizada, permitindo o controle de custos. No setor de planos de saúde, um dos grandes problemas é o custo, e estar verticalmente integrada permite que a companhia tenha um controle dessa variável e, consequentemente, ofereça um preço mais atrativo.

IM: E Copel, qual é a estratégia por trás?

Graña: Para a Copel, a compra recai sobre a mudança na governança da companhia. A governança é algo muito importante para nós e, na Copel, a mudança permitiu que a companhia agisse mais como uma empresa do setor privado, reduzindo custos quando necessário, focando no pagamento de dívidas e focando em projetos que fazem sentido e, consequentemente, melhorando o perfil da companhia para ampliar o pagamento de dividendos.

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