Fuga para o risco

Com saída de R$ 95,2 bilhões da renda fixa, indústria de fundos fecha o semestre com resgate de R$ 16,2 bilhões

Com entradas de R$ 49,4 bilhões e R$ 30,9 bilhões, fundos de ações e multimercados não conseguiram reverter tendência negativa do ano

SÃO PAULO – A indústria de fundos de investimento teve resgate líquido de R$ 16,2 bilhões no primeiro semestre de 2020, segundo dados divulgados nesta quarta-feira pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O resultado se deve às saídas de R$ 95,2 bilhões dos fundos de renda fixa e de R$ 17,4 bilhões, dos de Direito Creditório (FIDC).

Os resgates foram apenas parcialmente compensados pela entrada de R$ 49,5 bilhões em fundos de ações e de R$ 30,9 bilhões, nos multimercados.

Devido ao montante expressivo sacado da renda fixa nos últimos seis meses, o resultado consolidado da indústria no primeiro semestre ficou bem abaixo do observado em igual período do ano passado, quando houve captação líquida de R$ 144,1 bilhões.

Entre as classes de maior risco, contudo, a despeito da crise, o aumento de interesse foi notório, em um contexto de Selic em nível extraordinariamente baixo. A captação dos fundos de renda variável foi 89,2% maior do que no primeiro semestre de 2019, enquanto, nos multimercados, o aumento foi de 22,6%.

Além da redução da taxa básica de juros, que já vinha tirando a atratividade da renda fixa, a crise acentuou ainda mais os resgates na classe, já que em muitos casos o investimentos são dirigidos a fundos utilizados como reserva de liquidez, afirmou Carlos André, vice-presidente da Anbima, durante teleconferência com a imprensa.

No caso dos FIDCs, ele explicou que o resgate decorre em grande medida de um caso pontual, de um grande fundo da indústria, o que gera distorções na fotografia da classe.

Reversão de tendência

Segundo Carlos André, após os resultados atípicos acumulados no primeiro semestre por conta da pandemia, os dados de junho começam a apontar para uma recuperação.

No mês passado, a indústria voltou a apresentar captação liquida, após três meses seguidos de resgate, com as entradas superando as saídas em R$ 50,1 bilhões.

A principal contribuição para o resultado de junho veio dos fundos de renda fixa, que captaram R$ 33,9 bilhões no período. Os de ações tiveram entrada de R$ 822,9 milhões, enquanto os multimercados amealharam R$ 13,2 bilhões.

Na outra ponta, tiveram resgates, de R$ 1,9 bilhão e de R$ 545 milhões, os FIDCs e os ETFs, respectivamente.

O vice-presidente da Anbima creditou a captação observada entre os fundos de renda fixa no mês de junho ao aumento dos prêmios nos títulos públicos e privados, como reflexo da volatilidade elevada.

Porém, à medida que a situação se normalizar, com os “spreads” retornando aos patamares mais condizentes com a qualidade e a duration dos ativos, os fundos de maior risco, como ações e multimercados, devem voltar a atrair a atenção de maneira mais importante, prevê Carlos André, que também é presidente da BB DTVM, gestora de recursos do Banco do Brasil.

O suporte prestado pelos governos para impedir uma queda ainda mais acentuada das economias como reflexo da pandemia foi citado pelo executivo para justificar a expectativa otimista para os ativos de risco nos próximos meses.

“As leituras muito drásticas em relação ao impacto da crise têm sido revistas, prevendo um impacto menor”, afirmou o vice-presidente da Anbima. A associação projeta retração de 6,5% do PIB do Brasil em 2020, com alta de 3,9% em 2021.

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