A força do dragão

Com mercado americano bem precificado, gestores se voltam para oportunidades na Ásia

Setor de tecnologia mais barato e melhor resposta ao vírus têm atraído número crescente de interessados à região, como gestoras Kinea e do JP Morgan

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SÃO PAULO – Após o desempenho recente das bolsas americanas suscitar questionamentos sobre a sustentabilidade do atual nível de preços, alguns gestores do mercado começam a enxergar potencial de ganhos mais expressivos em outras praças.

Nesse cenário, o continente asiático vem se consolidando como a nova bola da vez na visão de grandes casas do mercado, como Kinea e JP Morgan Asset Management.

A Bradesco Asset Management (Bram) também vê o mercado asiático como a melhor opção entre os emergentes, considerando, contudo, os Estados Unidos como a principal oportunidade do mercado global, diante da bazuca de liquidez da qual o governo Trump se valeu.

Na gestora Citrino, o investimento em Ásia para capturar as novas tendências tecnológicas está no radar, sem prejuízo, no entanto, à visão positiva para o mercado americano.

Já na Itaú Asset, o olhar é mais cauteloso para a região asiática, frente ao processo de protecionismo e simplificação das cadeias de suprimentos que deve ganhar força após a pandemia.

No grupo dos otimistas com os ventos vindos do Oriente, Marco Freire, gestor dos multimercados da Kinea, afirma que a Ásia, de forma geral, soube lidar melhor com a pandemia na comparação com os Estados Unidos, seja pela experiência prévia com vírus respiratórios, ou pela maior disciplina do povo asiático.

Além de permitir uma saída mais rápida e inteligente do isolamento, o melhor enfrentamento ao coronavírus no continente asiático vai impedir um aumento muito expressivo do endividamento dos governos como em outras regiões, sem comprometer o crescimento de longo prazo, diz Freire.

“A recuperação em ‘V’ que está acontecendo na Ásia será mais difícil de acontecer nos Estados Unidos ou no Brasil”, defende o gestor da Kinea, lembrando ainda que há importantes empresas asiáticas que, assim como as americanas do setor de tecnologia, se beneficiam das mudanças de hábito despertadas ou aceleradas pela pandemia.

A gestora tem em carteira, por exemplo, ações das gigantes chinesas de e-commerce Ali Baba e JD.com, além de ETFs dedicados a mercados emergentes, em que a região asiática representa cerca de 70% do total.

Na avaliação do gestor, as empresas de tecnologia na Ásia estão com preços mais atrativos do que as americanas. “No nível atual, o S&P 500 não oferece um bom risco retorno, tem pouca margem de erro”, diz.

Estado da arte

Quanto a uma preferência pelas empresas de tecnologia americanas ou asiáticas após a alta recente do índice Nasdaq, Artur Wichmann, que em março se juntou à Citrino no cargo de CIO, após quase cinco anos à frente da gestão dos mercados globais na Verde Asset, diz que o ideal é ter no portfólio uma diversificação que inclua ambas as estratégias.

“Os Estados Unidos não têm exclusividade em bons modelos de negócios, da mesma forma que a Ásia não tem exclusividade em empresas baratas”, diz o especialista.

Wichmann entende que o investimento em partes da Ásia, como Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, e na própria China é uma das grandes teses de investimento do mercado no momento, para capturar as novas tendências de tecnologia .

“Entre os emergentes, esses países da Ásia conseguiram algo que a maior parte não foi capaz de fazer, que é criar um algoritmo de crescimento sustentável, com líderes globais no setor de tecnologia”, diz o gestor, que prefere não abrir posições da carteira, mas aponta como exemplos ilustrativos a coreana Samsung e a Taiwan Semiconductors. “São ideias de investimento muito poderosas.”

Wichmann cita também, apenas a título de explicação do raciocínio, as gigantes chinesas da internet como Ali Baba e Tencent, que, em sua avaliação, não ficam atrás das americanas do setor. “São empresas que alcançaram o estado da arte, e são tão boas quanto Google ou Facebook.”

“Australasia” emergente

O bom momento para a Ásia não se refletirá apenas no desempenho esperado das bolsas acima da média, mas também das moedas, prevê Freire, da Kinea, que tem uma posição comprada (com aposta na alta) na moeda japonesa e no dólar da Austrália, outro país a lidar bem com o coronavírus.

Pela proximidade, e pela falta de pujança do mercado de capitais no continente oceânico, a Austrália frequentemente é considerada dentro das estratégias de Ásia.

A Bradesco Asset Management, por exemplo, tem na prateleira o fundo “Australasia”, que segue o índice referencial da MSCI Ásia Pacífico ex-Japão, que considera o gigante oceânico mais os asiáticos emergentes, como China, Cingapura, Taiwan, Coreia do Sul, Tailândia, Malásia e Indonésia.

O índice de referência voltado aos asiáticos emergentes caía 13,2% em 2020, até maio, enquanto os emergentes como um todo recuam 16%.

Apesar da desvalorização do benchmark, o fundo “Australasia” sobe 22% no ano, já que seu retorno considera, além da variação das ações, a das moedas asiáticas frente ao real, de acordo com a origem do ativo – a posição na Samsung está atrelada à divisa coreana, enquanto, no caso da chinesa de tecnologia Tencent, o dólar de Hong Kong é a moeda de referência.

Confira a seguir o desempenho dos mercados globais com base na trajetória de índices da MSCI. O “MSCI All Country World Index (ACWI)” é o referencial mais amplo do mercado, ao reunir desenvolvidos e emergentes.

Crise sob controle?

Assim como Freire da Kinea, Roberto Shinkai, gestor do fundo global da Bram, tem uma visão positiva para o mercado asiático, dada a forma como a crise tem sido administrada por lá.

O uso da tecnologia no rastreamento dos contaminados pelo coronavírus dá maior segurança quanto à expectativa de retomada acelerada que já começa a se desenhar na região, diz o gestor.

Para a Bram, no entanto, os Estados Unidos ainda representam a melhor região dos mercados globais. “O tamanho da resposta à crise vai ser importante na recuperação”, diz Shinkai. No universo dos emergentes, diz o gestor da Bram, o asiático é o maior destaque.

E não são apenas as gestoras locais que veem com uma visão mais positiva para a Ásia. Durante live da XP, a estrategista de mercados globais do JP Morgan Asset Management, Gabriela Santos, afirmou que, embora o mercado americano seja o principal foco de atuação da casa, nas últimas semanas tem sido realizado um aumento da exposição ao mercado asiático emergente e europeu.

O movimento, explicou Gabriela, visa capturar o momento positivo para empresas mais cíclicas, que são aquelas com uma dependência maior do ritmo da atividade econômica.

“Cerca de 34% do mercado americano é composto por setores cíclicos, enquanto, na Ásia emergente e na Europa, é aproximadamente 50%”, afirmou a especialista, lembrando que a exposição à Europa também captura o consumo chinês, com a classe média do país asiático cada vez mais presente nas lojas de grife da região.

Desglobalização

Não é unanimidade, entretanto, o olhar construtivo para os mercados asiáticos. Na Itaú Asset, o gestor Oliver Casiuch lembra que um dos reflexos da crise deve ser o de simplificação das cadeias de suprimentos, com economias mais protecionistas e fechadas.

“Essa tendência deve prejudicar as empresas que mais ganharam com o processo de globalização da última década, sendo boa parte delas na Ásia”, afirma Casiuch, que vem com uma posição vendida no dólar de Taiwan.

Além do enfraquecimento da economia asiática por conta da desglobalização, Casiuch afirma que as tensões políticas com a China contribuem para o posicionamento na divisa taiwanesa.

Wichmann, da Citrino, acredita que grandes corporações serão instadas a reduzir sua dependência da cadeia de produção chinesa, como uma forma de gestão de risco do negócio.

“Essas empresas perceberam, com a pandemia, que não podem ser tão dependentes da produção chinesa, e precisam diversificar”, diz Wichmann, que prevê outros asiáticos emergentes, como o Vietnã, se beneficiando da nova dinâmica na região.

Embora o objetivo de Trump seja levar a produção de volta aos Estados Unidos, uma parte vai acabar ficando em outros países da Ásia, em que o custo de mão de obra é muito barato, explica o gestor da Citrino.

Freire, da Kinea, acredita que as perdas provocadas pelo protecionismo ao mercado asiático serão muito menores se comparadas com os ganhos oriundos do combate bem feito à pandemia.

“Além disso, há uma chance relevante de o candidato democrata ganhar as eleições nos Estados Unidos”, diz o gestor da Kinea, acrescentando que a postura de um eventual governo democrata tende a ser menos protecionista do que da administração atual.

Apesar de fazerem parte do mesmo grupo, Kinea e Itaú Asset têm gestões segregadas, cada uma com sua tese de investimento.

“Ásias”

Para Ana Salles, gestora de renda variável da Itaú Asset, é difícil dizer se o mercado asiático está atraente no patamar atual, seja porque há “várias Ásias” no continente, ou porque seu foco está na estratégia “long short”, de arbitragem entre ações, que não depende de um ciclo positivo do mercado para ir bem.

“Gosto da infraestrutura na China pelos estímulos que foram dados, mas não de bancos, que podem ser afetados se houver um problema de crédito na região”, afirma Ana.

Na Tailândia, a gestora tem uma posição vendida no aeroporto local, devido à queda no turismo, enquanto a política eficaz de combate ao coronavírus na Austrália a leva a ter o banco de investimento Macquarie no portfólio. “Existem muitos investimentos de private equity na Austrália, então os estímulos são muito positivos para o banco.”

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