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Pela primeira vez em dois anos, o dólar fechou abaixo de R$ 5 na última segunda-feira (14). Na sessão seguinte, a moeda se manteve abaixo do suporte psicológico. O investidor que acompanha o mercado fica na dúvida: é hora de comprar ativos lá fora ou o movimento pode se reverter antes de qualquer decisão?
Especialistas ouvidos pelo InfoMoney dizem que a resposta depende menos do nível do câmbio e mais da estratégia de cada um. Mas há um ponto em que todos concordam: ignorar esse momento também é uma escolha que pode custar caro no longo prazo.
Movimento conjuntural ou estrutural?
O ponto de partida do debate é entender o que está por trás da queda do dólar. Marcus Novais, sócio-fundador da Private Investimentos, é direto: “predominantemente é conjuntural.” Para ele, o movimento ganhou força com o possível cessar-fogo no Oriente Médio, mas já vinha se consolidando antes, sustentado por três pilares: o diferencial de juros ainda elevado – Selic acima de 14%, mesmo depois de cortes, contra um Fed pressionado –, a rotação de fluxos globais saindo dos Estados Unidos, e a percepção do Brasil como porto seguro entre os emergentes.
Paulo Monteiro, head da Gravus Capital, vai além na interpretação e muda o enquadramento: “o nome do que está acontecendo é enfraquecimento do dólar, e não fortalecimento do real.” Ele aponta componentes estruturais ligados ao desequilíbrio fiscal americano e ao desgaste das relações dos EUA com Europa e Ásia, mas pondera que o cenário interno brasileiro — do caso Master às eleições — pode tanto acelerar a valorização do real quanto afastar investidores estrangeiros.
Régis Chinchila, analista de research da Terra Investimentos, explica que o dólar mais fraco reflete principalmente o forte fluxo para mercados emergentes, com o Brasil se destacando pelo diferencial de juros e pelo valuation ainda atrativo. Para ele, porém, isso está “muito mais ligado a fluxo e posicionamento do que a uma tendência estrutural” – o que significa que há risco real de reversão caso o ambiente global se deteriore
Já Cristiano Luersen, especialista em investimentos e sócio da Wiser Investimentos, usa uma metáfora para resumir a dinâmica: “câmbio é como maré: pode baixar por um tempo, mas não costuma ficar parado.” Na sua leitura, o fortalecimento do real é conjuntural, sustentado por apetite a risco, diferencial de juros e algum alívio externo, mas sem uma nova âncora de longo prazo instalada. O risco de reversão existe especialmente se o mercado voltar a precificar inflação mais dura nos EUA ou uma piora na percepção fiscal doméstica
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Há uma voz mais otimista. Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, acredita que o movimento é estrutural e não vê reversão no curto prazo — pelo contrário, projeta continuidade até R$ 4,80.
Uma janela, não uma garantia
Independentemente de como se classifica o movimento, há um consenso entre os analistas: o câmbio nesse patamar representa uma oportunidade de entrada para quem ainda tem baixa exposição internacional.
“O câmbio mais barato é um convite, não uma garantia”, resume Novais. A lógica é simples: comprar ativos em dólar quando a moeda está nas mínimas de um ciclo tende a ser uma boa decisão no médio e longo prazo, especialmente para investidores que ainda não fizeram essa diversificação.
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Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital e especialista em câmbio, reforça o raciocínio e sugere uma abordagem gradual: “não necessariamente (a dolarização) deve ser feita de uma vez só; manda um pouco hoje e, subindo ou caindo, manda mais um pouco depois”. Essa estratégia de preço médio evita a armadilha de tentar acertar o momento exato.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, traduz o momento como uma questão de assimetria: “momentos de apreciação do real tendem historicamente a ser janelas para dolarização gradual, pois reduzem o custo de entrada em ativos globais sem alterar a lógica estrutural de diversificação cambial.”
O que comprar lá fora?
Novais destaca três frentes: renda fixa americana de curto prazo, que ainda oferece yield real positivo e pode se beneficiar com eventual retomada de cortes de juros pelo Fed; ações americanas, com seletividade maior dado o risco de recessão nos EUA; e ouro, que vem renovando máximas históricas — segundo ele, 60% da alta está ligada à perda de confiança na institucionalidade do dólar. Ações europeias também entram no radar, beneficiadas pela rotação de fluxos saindo dos EUA.
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Para Saadia, o destaque vai para tecnologia americana: “empresas como Microsoft e Alphabet que caíram e agora são oportunidade para aqueles que perderam a alta passada.” Ele prefere, no entanto, que o investidor mantenha foco nos ativos locais como prioridade.
Izac, por sua vez, ressalta os fundos com gestão ativa como alternativa para o investidor pessoa física que não tem tempo de acompanhar o mercado externo. Lima aponta ações americanas e ETFs globais diversificados, além de renda fixa curta em dólar para capturar juros sem assumir duration excessiva.
Chinchila propõe uma estratégia mista: combinar exposição internacional com ativos domésticos que ainda capturam o momento positivo do Brasil. Na sua visão, BDRs e ETFs internacionais permitem acesso a mercados globais com praticidade, enquanto a B3 segue oferecendo boas oportunidades para quem não quer abrir mão do fluxo estrangeiro que ainda favorece os ativos locais
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O que fazer se já tenho posição?
Para quem já tem ativos internacionais e vê a rentabilidade em reais encolher com a queda do dólar, a dica dos especialistas é confundir uma ilusão contábil com perda real.
“Se o ativo em si performou bem em dólar, o investidor está ganhando em moeda forte. A queda em reais é apenas uma fotografia do câmbio naquele momento”, explica Novais. O conselho de Izac segue a mesma linha: “caso o investidor realmente tenha a visão de investimento de longo prazo, é só um momento – não é hora de ter pânico”.
Rafael Marques, CEO da Philos Invest, reforça que oscilações cambiais de curto prazo, mesmo em momentos de maior volatilidade, não deveriam, sozinhas, motivar ajustes na carteira. O rebalanceamento só se justifica quando há “desvio relevante da alocação-alvo” ou mudanças estruturais no cenário internacional.
Mais categórico, Bruno Perri, economista e sócio-fundador da Forum Investimentos, diz que “carteiras no exterior devem ser medidas em dólares; medir seus resultados em reais é um contrassenso.” Luersen endossa a visão, mas adiciona uma camada de pragmatismo: o rebalanceamento faz sentido quando a parcela internacional cresceu demais em ciclos anteriores ou encolheu demais por efeito cambial, mas nunca como reação emocional ao sobe e desce do dólar
Quanto alocar em dólar?
As recomendações sobre percentual de alocação internacional variam, mas estão entre 15% e 25% da carteira para o investidor de perfil moderado. Saadia e Marques sugerem ao menos 20%. Lima indica entre 15% e 25%, podendo ser ajustado marginalmente para cima em momentos como o atual. Novais cita uma faixa entre 10% e 15%, com atenção para o impacto da oscilação cambial no curto prazo.
O ponto comum é que a alocação deve ser pensada com horizonte longo, e não como aposta na direção do câmbio.
