Colunista InfoMoney: O maravilhoso mundo dos fundos de investimento

Por Marcelo Guterman

Cerca de 18,6% do total de ativos do mundo estava sendo administrado via fundos no final do 1º semestre

Por  Marcelo Guterman

Se tem uma coisa que procuro evitar a qualquer custo é dar uma aula ou fazer uma apresentação depois do almoço. A fisiologia humana é implacável, e o estômago cheio reclama todo o sangue disponível, deixando o cérebro a ver navios.
A sonolência vence então até os mais bravos. Quando enfim não tenho saída, começo dizendo para meus alunos: “meu maior desafio nesta aula é mantê-los acordados”.

Bem, o mesmo posso dizer dessa coluna que hoje estréio. Reconheço que o assunto que me toca desenvolver, “Fundos de Investimento”, perde de longe nos quesitos emoção e charme para outros, como “Economia” ou “Mercado Acionário”. Meu desafio, portanto, será mantê-los acordados até o fim. Para isso, vou usar esse primeiro artigo para convencê-los da importância do tema.

Para começar, vou afirmar que investir através de fundos de investimento é a melhor alternativa para investidores que, como nós, temos o nosso dia-a-dia para tocar, e simplesmente não temos o tempo disponível necessário para aprofundar na análise do cenário econômico ou das perspectivas das empresas da bolsa.

“Investir através de fundos é a melhor alternativa para nós, que temos o dia-a-dia para tocar”

Se você não quiser, não precisa acreditar em mim. Vou chamar meu amigo Michael Bloomberg, inventor daqueles terminais de dados que recebem seu nome, e que povoam 11 em cada 10 mesas de operações ao redor do planeta. Leia o que disse o atual prefeito de Nova York para a revista Veja, em uma entrevista concedida em julho de 2001:

Veja – Que conselhos o senhor daria ao pequeno investidor brasileiro?

Bloomberg – Acho que ele deveria todo mês separar 8% de sua renda e aplicar em ações através do mercado de fundos mútuos, e ponto final. Ele tem simplesmente de se esquecer do resto e voltar a se concentrar em seu trabalho. Não deve nem mesmo ver o sobe-e-desce das ações no jornal, já que nunca poderá ganhar o suficiente no mercado de ações para se aposentar de um dia para o outro. Ele não é esperto o bastante – e tampouco eu – para ganhar dinheiro com o pregão.

Veja – Quer dizer que Michael Bloomberg não é esperto o bastante para ganhar dinheiro na bolsa?

Bloomberg – Não sou mesmo. E acho que quase ninguém sabe ao certo como ganhar dinheiro com isso. Ora, é para isso mesmo que os fundos mútuos existem: diversificar seu investimento e proporcionar-lhe uma gerência profissional. Nunca entendi por que as pessoas perdem o tempo delas conferindo as cotações de seus investimentos todos os dias. Isto é uma perda de tempo enorme! Se fosse elas, eu me limitaria a trabalhar.

Convencido? Ainda não? Então vou ajudá-lo com alguns números:

A indústria de fundos de investimento no mundo totalizava a bagatela de US$ 24,3 trilhões1 no final do 1º semestre de 2007. Para se ter uma idéia do que significa esse número, o total de capitalização das bolsas mundiais somava, nessa data, US$ 57,4 trilhões2, enquanto o total de dívida emitida somava US$ 73,1 trilhões3. Ou seja, cerca de 18,6% do total de ativos do mundo estava sendo administrado via fundos de investimento no final do 1º semestre.

1Fonte: Investment Company Institute
2Fonte: World Federation of Exchanges
3Fonte: Bank for International Settlements

No Brasil, a indústria de fundos somava R$ 1.0744 bilhões em setembro. Na mesma data, a capitalização da bolsa somava R$ 2.267 bilhões5, enquanto o total da dívida doméstica era de R$ 1.543 bilhões3. Ou seja, cerca de 28,2% do total de ativos negociados no mercado local, o eram via fundos de investimento. Vale lembrar que este percentual seria bem maior se considerássemos apenas os fundos de renda fixa, que dominam a indústria brasileira de fundos.

4Fonte: Anbid
5Fonte: Bovespa

Note que, relativamente, o investidor brasileiro usa mais os fundos de investimento do que o investidor médio de outros países. Podemos observar este fenômeno através de outra estatística: a relação entre o total de fundos de investimento e o PIB de cada país.

No final de 2006, a indústria de fundos representava cerca de 40% do PIB no Brasil, número comparável a países como Canadá e Reino Unido, e bem à frente de Japão e Alemanha, respectivamente o 2º e o 3º maior PIB do planeta.

Por hoje, paramos por aqui. Espero ter conseguido alcançar meus dois objetivos: mantê-lo acordado até o fim e convencê-lo da importância da indústria de fundos de investimento. Nos próximos artigos, vamos falar de novos produtos, dicas para selecionar gestores, como identificar e fugir das armadilhas, e outros tópicos relevantes para o investidor em fundos.

Marcelo Guterman é professor do MBA de Finanças do Ibmec-SP e escreve mensalmente na InfoMoney, às sextas-feiras.
marcelo.guterman@infomoney.com.br

Compartilhe