Colunista InfoMoney: O crescimento projetado para 2010 está correto?

Ceteris paribus, expansão do PIB em 2010 poderá ser próximo de 6,5%; contudo, incrementos de crescimento vêm com muito custo

Por  Tomás Fonseca Goulart
Estamos vendo nos últimos dias uma enxurrada de estimativas de crescimento para o ano de 2010 da economia brasileira acima de 6,0%. O colunista que vos fala, em Outubro desse mesmo ano “Qual a trajetória de crescimento para 2011-2020?”, já havia explicitado que esperava esse patamar de crescimento expressivo.

Na verdade, o ritmo de crescimento da economia doméstica surpreendeu até os mais otimistas analistas. Meu modelo de crescimento hoje me diz que em 2009 deveremos observar crescimento de 0,5% e dada a mesma trajetória de crescimento de 1,2% (com base trimestral), em 2010 teríamos 6,5% de PIB em 2010, o que é igual a mais otimista das projeções apresentadas atualmente.

Dado o ritmo de crescimento da economia nos últimos dois trimestres e a tendência do trimestre atual, não há razões para esperarmos uma desaceleração mais expressiva nos próximos períodos. Não há sinais de inflexão na política fiscal e a taxa de juros atual é claramente expansionista.

As projeções de inflação, segundo o boletim Focus do Banco Central, ainda indicam patamar abaixo da meta de 4,5% para o IPCA. Há razões nesse cenário para o Banco Central apertar a política monetária?

Claramente o juro real no patamar atual leva a uma taxa de crescimento acima do que se convencionou chamar de potencial. Mesmo que a inflação IPCA de 2010 fique na meta, o grau de aquecimento da economia deve levar à perspectiva inflacionária muito mais desfavorável em 2011 ou 2012.

“Incrementos de crescimento no País vêm com muito custo

Como os banqueiros centrais devem reagir antecipadamente a uma possível pressão inflacionária, o BaCen já deve começar a apertar a política monetária no início de 2010 a fim de conter o aquecimento econômico que leve a um ambiente de alta inflação. A economia brasileira com certeza não tem condição de conviver com taxas de crescimento acima de 5%, mesmo que observemos a taxa de investimento da economia aumentando para cerca de 20%.

Muitos se perguntaram por que a China convive com taxas maiores e o Brasil não pode. A resposta nesse caso é simples: Há uma transição de mão-de-obra na China que impulsiona fortemente o crescimento à medida que um contingente maior de trabalhadores é incorporado a empregos de maior produtividade. O Brasil viveu esse processo de 1950 a 1980 e, hoje, é um dos países com maior grau de urbanização do mundo. Agora, incrementos de crescimento no país vêm com muito custo. Para isso, teremos que aumentar a taxa de poupança da economia (aumento de poupança = menor consumo presente) ou aumentar a produtividade do trabalhador (nesse caso temos que elevar a escolaridade da economia, o que também é custoso).

Minha projeção cada vez mais caminha para uma subida do juros no primeiro trimestre e um movimento total acima de 3,0%, o que levará a taxa Selic novamente para dois dígitos de forma nominal.

O mercado já está levando isso em consideração e agora só esperamos a comunicação formal do BC para referendar essa expectativa. Infelizmente, teremos que esperar mais algum tempo para observarmos o Brasil convivendo consistentemente com taxa de juros mais baixas.

Tomás Goulart é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney.
tomas.goulart@infomoney.com.br

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