Colapso da confiança nos EUA dispara corrida global por ativos alternativos

O movimento, que especialistas já classificam como “debasement” do dólar, está provocando uma reorientação de fluxos financeiros

Osni Alves

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A perda de confiança internacional nos Estados Unidos – alimentada por um governo cada vez mais agressivo e imprevisível – tornou-se hoje o principal vetor de transformação dos mercados globais. O movimento, que especialistas já classificam como “debasement” do dólar, está provocando uma reorientação de fluxos financeiros que há décadas orbitavam quase exclusivamente a economia americana.

Trata-se de uma tendência estrutural, não de um soluço conjuntural, e tem se refletido em uma migração crescente de recursos para emergentes, metais e ativos reais. Segundo gestores, o fenômeno se intensificou à medida que o uso político de instrumentos econômicos pelos Estados Unidos passou a ser percebido por outros países como ameaça direta à sua segurança financeira.

O tema dominou a pauta da nova edição do Stock Pickers, comandado por Lucas Collazo, que estreou uma fase renovada do programa com cenário novo, mas o mesmo foco no debate de mercado.

Os convidados foram Artur Carvalho, sócio e economista-chefe da Truxt Investimentos, e Bruno Garcia, sócio e gestor da casa.

A rotação global e a erosão da hegemonia americana

Collazo iniciou a discussão destacando que o chamado Rotation Trade — a saída marginal de capitais dos ativos americanos para outras regiões — tem sido um dos motores centrais dos mercados. Perguntado sobre o que estaria “rompendo a confiança nos EUA”, Artur Carvalho foi direto:

“Não acho que é só uma questão financeira. Há uma falha crescente nas instituições americanas, no sistema de checks and balances que sempre deu estabilidade ao país”

— Artur Carvalho, sócio e economista-chefe da Truxt Investimentos

Carvalho ressaltou que, nos últimos meses, o poder Executivo tem atuado de forma “muito mais agressiva e errática”, despertando receio entre nações que dependem do sistema financeiro americano. Segundo ele, o discurso recente do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em Davos, sintetiza essa preocupação: quando os EUA utilizam instrumentos que antes fomentavam integração para “oprimir outros países”, o mundo reage — buscando alternativas.

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Esse ambiente incentiva governos a reduzir exposição ao dólar e a buscar reservas em ouro, commodities ou outras moedas. Carvalho citou que mesmo países historicamente alinhados aos EUA demonstram receio “de ter reservas congeladas a qualquer momento”.

Populismo, desigualdade e o voto de revolta

Para Bruno Garcia, as raízes da crise de confiança são ainda mais profundas e remontam ao pós-2008. “Vivemos uma economia cada vez mais desigual. O pobre nunca foi tão pobre, o rico nunca foi tão rico,” avaliou o gestor.

Ele argumenta que a sensação de injustiça — alimentada por governos incapazes de arbitrar conflitos sociais — abriu espaço global para líderes antipolítica e soluções simplistas. “O mundo está indo para o antipolítico, para a terceira via. A eleição do Trump, especialmente agora, é o voto de revolta da classe média contra um sistema que não os representa mais,” disse.

Garcia destacou que o atual governo americano opera “sem freio”, com apoio das casas legislativas, e aprendeu que precisa agir antes dos midterms, período no qual tende a perder poder. Somado a isso, decisões controversas ligadas à Suprema Corte ampliam tensões.

O gestor reforça que esse contexto não é exclusividade dos EUA: Europa, Brasil e outras regiões vivem fenômenos semelhantes — e isso tem consequências diretas para geopolítica, economia e alocação de ativos.