Bolsas caem, Fed reafirma crescimento e C-Bonds valorizam

Apesar da última semana ter sido sombria para o mercado acionário mundial, foi o melhor período para os C-bonds

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PARIS – Depois de uma segunda-feira ruim, um meio de semana melhor e uma sexta-feira péssima, com as Bolsas dos EUA e da Europa perdendo tudo o que haviam recuperado nos dois dias anteriores e fechando com quedas da ordem média de 5%. O suspiro de alívio dos mercados acionários americano e europeu durou apenas dois dias, quarta e quinta-feira. A Bolsa de Londres, por exemplo, que chegara a registrar uma alta de 4,2% na quarta-feira, fechou na sexta com uma queda de 4,6%. O índice Bloomberg encerrou a semana com menos 4,7% e, outro índice, mais amplo, o pan-European FTSE Eurtopo 100, com menos 5,4%.

Embora mais diluída entre os vários índices, o mesmo ocorreu no mercado americano. O índice Down Jones caiu 4,64% sexta e chegou ao nível mais baixo desde outubro de 1998, e na semana perdeu 7,7%. Está tendo agora a maior queda desde a reabertura da bolsa americana, no dia 17 de setembro, após os ataques terroristas. O mesmo aconteceu com o Standard&Poor’s-500, que recuou 3,84% e o Nasdaq; 2,79%.

Mais Denúncias

Novas denúncias de irregularidades na contabilidade de grandes empresas e a confirmação de lucros menores, em outras, foram suficientes para explicar essa nova corrida de vendas. A Microsoft, por exemplo, anunciou um queda nas vendas e ganhos e suas ações recuaram US$ 0,50 em um só dia. “Mais e mais o investidor está ficando cauteloso, e saindo do mercado de ações e indo para o mercados de títulos”, diz Peter Cooke, que participa da administração de uma carteira de US$ 15 bilhões, no Glenmede Trust. “Querem proteger o que ainda conseguiram. Não há nenhum grande otimismo quanto à capacidade de as empresas (reverterem isso) e obterem os ganhos que precisariam.”

“As ações estão baratas, mas isso não quer dizer que irão subir daqui para diante. Vai demorar. O mercado está sem orientação e precisa, acima de tudo, de confiança”, pondera o estrategista Roland Lescure. Os lucros que poucas empresas registraram não chegaram ainda ao consumidor, acrescenta o estrategista para a Europa da E Trade Securities, Martin Brooker. Para ele, se isso demorar muito, “acabará afetando a economia real”.

E Greenspan?

Mas e as previsões de Greenspan, feitas no Congresso, que a economia americana iria continuar crescendo, apesar da turbulência?
– O presidente do Conselho de Economistas da Casa Branca, Glenn Hubbard, confirma a previsão de Greenspan. Não há contradição entre a crise no mercado acionário, a explosão da bolha e a previsão de crescimento do PIB.
– “Embora a queda do preço das ações seja o principal risco da economia americana, isso poderá no máximo reduzir o ritmo (de crescimento) do que conter a recuperação”, afirmou. “O que está acontecendo no mercado de ações poderia reduzir o crescimento americano, neste ano, em 0,4 ou 0,7 ponto”, acrescenta. Só que a estimativa de Hubbard é um pouco mais conservadora que a do Fed. Para o chefe do Conselho Econômico de Bush, o PIB americano deve crescer 2,6% neste ano. Greenspan aumentou a previsão de 3,5% para 3,75% afirmando que, embora a fraqueza do mercado de ações possa reduzir o consumo, “isso seria compensado pelos ganhos robustos obtidos no mercado imobiliário, que ainda continua.
– “Essas bolhas (do mercado acionário) muito dificilmente iriam ocorrer no mercado de imóveis. A procura por casas e apartamentos se mantém forte, principalmenre por parte de imigrantes, e isso estimulará os dispêndios (em material de construção, móveis, etc.).” Greenspan havia afirmado que o mercado de ações ainda iria levar tempo para encontrar o seu nível.
– E, quanto aos índices de menor confiança do consumidor no futuro, ele teve uma frase de rara clareza: “Estamos interessados no que o povo faz, não no que ele diz.”
– Ninguém pode acusar o presidente do Fed de otimismo. Muito ao contrário. O que ele está dizendo é que quem abusou vai ter de pagar e que os fundamentos da economia americana, no momento, afirma categórico, são suficientes para suportar o peso dessa punição.
– Será? Bem, pelo menos é isso o que Alan Greenspan está afirmando: os responsáveis serão punidos, mas vamos agüentar o tranco. Mas dá para acreditar? Até agora, ele não tem errado e o Fed possui ainda instrumentos para agir, como a baixa inflação americana, crescendo só 0,1% em junho, 1,1% nos ultimos 12 meses, o nível de desemprego se estabilizando e a renda pessoal dos trabalhadores aumentando. Além do déficit comercial em maio, de US$ 37,4 bilhões, assim mesmo dentro do previsto, os dados fundamentais da economia dos EUA são, no mínimo, satisfatórios, mais estáveis que os índices da bolsa, e não apontam para recessão. A questão é saber se Greenspan vai acertar de novo – e ele está apostando alto – e até onde a crise da bolsa não contaminará a economia real.

Brasil observa

Paradoxalmente, a semana sombria do mercado acionário mundial, com bruscos movimentos de alta e baixa, não afetou os papéis brasileiros. Nem um pouco. “Acabo de ver os gráficos e posso dizer que esta foi a melhor semana para os C-bonds da dívida externa brasileira nos últimos 30 dias”, diz um administrador de fundos de títulos do País. Ele recorda que há um mês esses títulos haviam despencado para a média de 53% e 55% do valor de face – pior que na primeira crise argentina -, fecharam a semana retrasada (sexta-feira) a 63%, nesta segunda-feira de crise nos EUA, caíram para 62%, mas ‘agora’, diz ele, estamos fechando esta semana com esses papéis cotados perto de 64%.” “Estamos estáveis na baixa, não caímos nem sofremos, aqui fora, com esse furor que dominou o mercado internacional.” Mas ele lembra também que só há movimento de compra e venda de papéis já emitidos, no mercado secundário, principalmente por parte de profissionais. “Não haverá crédito novo nem renovações dos que estão vencendo.” Esta situação, que não é nova, vai perdurar ainda por algum tempo, com o índice de risco Brasil alto e os mercados parados.