Ataque ao Irã não derruba bolsas e gestores apontam erro fatal do regime

O S&P 500 mal oscilou, os Treasuries americanos não serviram de porto seguro como em crises passadas

Osni Alves

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O ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, deflagrado no final de semana de 1º de março, deixou mercados globais em compasso de espera — mas, surpreendentemente, sem o pânico que conflitos anteriores costumavam provocar.

O S&P 500 mal oscilou, os Treasuries americanos não serviram de porto seguro como em crises passadas e a Bolsa de Israel subiu 8% em um único pregão. Para gestores que acompanham de perto o fluxo de capitais, o recado do mercado foi claro: o mundo está mudando de regras, e rápido.

Ao mesmo tempo em que o Oriente Médio vivia seus dias mais tensos em meses, uma segunda disrupção ocupava as mesas de operação: a inteligência artificial avançando sobre empregos de colarinho branco em velocidade que poucos anteciparam.

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A combinação dos dois temas — reordenamento geopolítico e automação de trabalho intelectual — formou o núcleo de um debate que reuniu três dos mais experientes nomes do mercado financeiro brasileiro e internacional.

O encontro aconteceu no programa Stock Pickers Aftermarket, apresentado por Lucas Collazo. Os convidados foram Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased; Christian Keleti, CEO da Alpha Key; e Paulo Passoni, managing partner da Valor Capital Group, participando diretamente de Nova York.

“Acho que é difícil saber as implicações para o mercado”, avaliou Reider. “Você vê que no final das contas fez pouco preço no S&P.”

Para o gestor, o sinal mais relevante veio não do que subiu, mas do que não se moveu: “Uma das coisas mais interessantes hoje foi que o Treasury não defendeu” — comportamento oposto ao observado, por exemplo, quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, ocasião em que os títulos americanos de longo prazo fecharam imediatamente.

Irã isolado e a reconfiguração do Oriente Médio

Para Passoni, o conflito representa o coroamento de uma série de erros estratégicos cometidos pelo regime iraniano nos últimos dois anos. “Todos os movimentos estratégicos do Irã, começando lá no Hamas ou em Israel, foram todos errados”, afirmou.

“Eles achavam que tinham algum tipo de alavanca para se manter no poder, e no fundo causaram o que aconteceu na eleição da semana — que foi o fim do seu regime.” O executivo foi além: “Todo mundo que financiou o ataque do Hamas em Israel hoje não existe mais. Estão mortos.”

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A escolha dos alvos iranianos também foi lida como um erro estratégico fatal. Ao atacar Emirados Árabes Unidos, Qatar e Arábia Saudita — países árabes que até então guardavam distância do conflito —, o Irã conseguiu o oposto do que pretendia: unificou contra si os vizinhos que precisaria, no mínimo, manter neutros.

“A resposta foi terrível, porque agora unificou os árabes contra o Irã”, afirmou Passoni. O diagnóstico do próprio Passoni foi ainda mais duro: o regime iraniano cometeu, na prática, um suicídio geopolítico.

O fechamento do Estreito de Ormuz, pelo qual passa 20% da produção mundial de petróleo e gás liquefeito por dia, foi o dado concreto que manteve investidores atentos. “Uma coisa é o petróleo nos US$ 80, mas se o preço do petróleo sobe e vai para US$ 100, aí você cria uma dinâmica diferente, com perspectivas diferentes que mudam em relação à inflação e os impactos na economia a médio e longo prazo”, pontuou Keleti.

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Ainda assim, os três gestores convergiram para uma leitura de que o episódio, ao menos no curto prazo, não deve precipitar uma catástrofe econômica global. “Não parece que vai ter uma Terceira Guerra Mundial”, disse Reider. “Se Israel está se beneficiando da Bolsa nesse sentido, não parece.”

A avaliação veio acompanhada de um alerta sobre o posicionamento dos investidores: com a maioria rodando carteiras enxutas e defensivas, uma eventual alta forçaria recompras em pânico. “Não ficaria surpreso se o movimento que vai machucar mais gente for para cima, na verdade”, disse Reider.