As teses do fundo de ações brasileiro que rendeu 11.500% nos últimos 25 anos

A Guepardo, gestora com R$ 5,9 bilhões sob gestão e histórico de 21% ao ano desde 2001, abre o jogo sobre as oito empresas do portfólio em nova carta trimestral

Paulo Barros

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Painel eletrônico mostra cotações de ações na B3, em São Paulo 05/08/2024 REUTERS/Carla Carniel
Painel eletrônico mostra cotações de ações na B3, em São Paulo 05/08/2024 REUTERS/Carla Carniel

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Poucos números no mercado financeiro brasileiro são tão difíceis de replicar quanto este: 21,1% ao ano, já líquido para o cotista, por 25 anos consecutivos. É o que entrega a Guepardo Investimentos, gestora paulistana com R$ 5,96 bilhões sob gestão cujo fundo mais antigo acumula retorno superior a 11.500% desde maio de 2001.

Em nova carta trimestral, a gestora comandada por Octavio Magalhães diz que esse resultado “não é obra do acaso”, mas a prova de que investir em boas empresas com visão de longo prazo “continua sendo a melhor forma de multiplicar patrimônio no Brasil.”

O que diferencia quem sobrevive, segundo a Guepardo, vai além da habilidade técnica: “A experiência acumulada forja um controle emocional que nenhum modelo matemático consegue replicar. Já vimos o pânico de perto, já vimos a euforia desmedida e aprendemos a navegar em ambas as águas sem desviar de nossa tese fundamental.”

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No documento, a casa abre o jogo sobre as empresas que sustentam esse desempenho. A favorita do momento parece ser a Vulcabras (VULC3). A fabricante de calçados superou pela primeira vez R$ 1 bilhão em receita num único trimestre e encadeou seu 22º resultado crescente consecutivo.

O que chama atenção na gestora não é só o número, mas a qualidade por trás dele: a empresa está vendendo produtos mais caros, com maior valor agregado, sem precisar forçar volume. Para a Guepardo, a combinação de crescimento, ganho de participação e evolução operacional coloca a companhia “bem posicionada para sustentar resultados acima da média do setor.”

No Grupo Ultra (UGPA3), a gestora enxerga um momento favorável que pode ficar ainda melhor. A Ipiranga registrou sua melhor margem trimestral em dois anos, impulsionada em parte pelo combate à ilegalidade no setor, com ANP, Receita Federal e Polícia Federal atuando de forma coordenada contra distribuidoras irregulares. E o conflito no Oriente Médio, iniciado em fevereiro, entra na conta como um possível bônus: a Guepardo avalia que a volatilidade nos preços do petróleo pode gerar oportunidades adicionais para as grandes distribuidoras, que têm acesso privilegiado a cotas da Petrobras e capacidade de importação que concorrentes menores simplesmente não têm.

No Fleury (FLRY3), a gestora segue confiante numa tese que já vinha performando bem e ganhou um novo capítulo em novembro, com a aquisição do laboratório FEMME, especializado em saúde da mulher, por R$ 207 milhões. Para a Guepardo, o preço pago reforça a disciplina da gestão na alocação de capital, e a estratégia de comprar empresas complementares com potencial de sinergia deve continuar criando valor.

A Allos (ALOS3) é descrita como uma máquina previsível, e a gestora parece gostar exatamente disso: a operadora de shoppings entregou 2025 dentro dos guidances, com crescimento de 7,5% no EBITDA, e projeta dividendos mensais de R$ 0,29 por ação em 2026, com alavancagem caminhando abaixo de 2 vezes ao fim do ano.

A tese na Rumo (RAIL3) exige um pouco mais de paciência. A ferrovia passou 2025 num ciclo de acomodação tarifária, necessário para ganhar volume e escala depois de dois anos de reajustes expressivos. A Guepardo lê isso não como fraqueza, mas como reposicionamento, e avalia que os dados iniciais de 2026 já indicam uma retomada. O encarecimento dos combustíveis, ao favorecer o modal ferroviário frente ao rodoviário, é visto como vento a favor.

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Na Gerdau (GGBR4), a gestora avalia que a operação norte-americana carrega o resultado, respondendo por cerca de 73% do EBITDA consolidado, enquanto o Brasil ainda enfrenta a pressão do aço importado da China. Mas aposta que avanços recentes nas medidas de defesa comercial podem mudar essa dinâmica, e mantém a visão de que a empresa está “bem posicionada para capturar uma eventual inflexão positiva no setor.”

A Klabin (KLBN11) passou um trimestre difícil por conta de paradas programadas de manutenção, mas a gestora não desistiu, apontando que a desalavancagem avança, o portfólio é diversificado e a disciplina financeira segue como marca da companhia.

O caso mais complexo é o Grupo Mateus (GMAT3). A gestora reconhece um trimestre pressionado, com margens em queda e vendas nas mesmas lojas em terreno negativo, mas defende segurar a posição afirmando que a companhia iniciou uma agenda de eficiência que prevê corte de despesas da ordem de R$ 400 milhões anuais, e esse movimento tende a ser menos dependente do ambiente macro ou da recuperação das vendas nas mesmas lojas no curto prazo.

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“O tempo é o senhor da razão e, na bolsa brasileira, a sobrevivência é o maior de todos os prêmios”, conclui a gestora. Depois de 25 anos e 21% ao ano, é difícil discordar.

Paulo Barros

Jornalista há quase 20 anos, editor de Investimentos no InfoMoney. Escreve principalmente sobre renda fixa e variável, alocação e o universo dos criptoativos