As estratégias e os desafios da Valia, fundo de pensão dos funcionários da Vale

Mauricio Wanderley, diretor de investimentos e finanças da Valia, deu entrevista ao Podcast da Rio Bravo
(Divulgação)
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SÃO PAULO – Os gestores de fundos de pensão estão enfrentando grandes desafios para conseguirem manter a rentabilidade da carteira em um cenário de juros mais baixo. Mas isso não pode tirar o sono desses grandes investidores, na opinião de Mauricio Wanderley, diretor de investimentos e finanças da Valia, fundo de pensão dos funcionários da Vale.

“O gestor de fundo de pensão deve dormir mais tarde em uma situação dessas. Mas deve conseguir dormir porque o que ele tem que buscar é uma alocação que atenda os objetivos, que é o pagamento dos benefícios no longo prazo com menor risco possível”, afirmou Wanderley em entrevista ao Podcast da Rio Bravo Investimentos.

Ele e sua equipe administram cerca de R$ 17 bilhões que pertencem a mais de 110.000 participantes do fundo de pensão, considerado o 5º maior do país.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

 Podcast: Os fundos de pensão passaram os últimos anos se adequando a essa queda estrutural de juros que o País experimentou. No momento em que você tem uma interrupção e uma reversão (ainda que temporária) desse processo, você acaba gerando déficits nos fundos?

Eu acho que o fundo de pensão acaba tendo que ter a visão de longo prazo. Nós temos, obviamente, a obrigação de pagar benefícios daqui a 20, 30 anos e obviamente os resultados de curto prazo acabam sendo um direcionador importante para as nossas decisões. Também oportunidades de você estar investindo. Mas o que nós temos que ver é o atingimento desses resultados em um prazo muito mais longo. O que está acontecendo hoje, na verdade, com o aumento da taxa de juros, na visão de um fundo de pensão, é algo conjuntural que, obviamente, traz uma necessidade de adequação das políticas de investimento para esse novo cenário. Eu acho que no passado conseguiu-se atingir as metas dos fundos de pensão com a renda fixa. Renda fixa acabou suportando boa parte das alocações dos fundos de pensão e conseguiu superar as metas atuariais. O que daqui para a frente vai ser diferente. Vários fundos já estão nesse movimento de diversificar a carteira, com a inclusão de ativos de risco, como renda variável, imóveis, alternativos como private equity, aumentando o próprio duration da carteira de renda fixa, a compra de títulos indexados à inflação, também cada vez maior, maior participação dentro das carteiras dos fundos de pensão… É um cenário que vai fazer com que as alocações dos fundos de pensão mudem para o futuro. Eventualmente, o que você pode ter no curto prazo, nesse movimento de redução da taxa atuarial, que a lei nos impõe também pelo lado do passivo, você pode ter eventualmente déficits, mas que no longo prazo vão ser revertidos por uma política de investimento diversificada. Não necessariamente a foto que é mostrada de um déficit de um fundo de pensão significa um déficit estrutural. Ele pode caracterizar um déficit conjuntural que, uma vez que o mercado mude, isso desaparece. Me parece que é o cenário atual. Nós estamos diante de um cenário onde a recuperação da economia americana está trazendo uma certa volatilidade para a renda fixa. Um momento de Bolsa no Brasil também um pouco mais desafiador, o que faz com que as carteiras mais diversificadas sofram no curto prazo.

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 Podcast: Então essa “fotografia do momento” não tira o sono de um diretor de investimentos porque seu trabalho é sempre olhar o longo prazo?

Isso. Não deveria [tirar o sono]. O gestor de fundo de pensão deveria, digamos, dormir mais tarde em uma situação dessas. Mas deve conseguir dormir porque com certeza o que ele tem que buscar é uma alocação para o atendimento de seus objetivos, que é o pagamento desses benefícios no longo prazo da forma de menor risco possível.

Podcast: Como é que você tem se adequado à possibilidade cada vez mais palpável de uma normalização de política monetária nos EUA? Que tipo de ajustes você tem feito na carteira?

Nós estamos enxergando como uma oportunidade. Não estamos fazendo nada diferente do que nós vimos fazendo nos últimos anos. Na verdade, nós temos uma política de longo prazo. Esse processo de diversificação da carteira da Valia já tem mais de 10 anos e nós continuamos executando ele. Continuamos, na renda variável, procurando empresas com boas perspectivas para o longo prazo e bons fundamentos, onde nós teremos muito menos aquela visão do resultado de curto prazo, mas com possibilidades de altos retornos mais adiante. Na renda fixa, nós vemos essa abertura das taxas das NTNBs como também oportunidade. Para dar uma ideia, o nosso plano BD hoje ele tem uma meta atuarial de 5%…

Podcast: BD é Benefício Definido?

Isso. E eu consigo comprar títulos hoje no mercado com uma, por exemplo, 2050, uma NTNB 2050, pagando 5,70.

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Podcast: E você disse que a meta é quanto?

5%. Então temos reais. Parece que é um bom momento para comprar esses títulos e continuar nesse processo de alongamento. Na verdade, nós não mudamos a nossa política. Nós continuamos fazendo o que nós vínhamos fazendo e olhando para o curto prazo muito como em busca de oportunidades. Se tem ativos que nós julgamos que estão depreciados e que estavam no nosso radar, então nós vamos comprar esses ativos, aproveitando esse momento.

Podcast: A Valia tem hoje cerca de 24% do patrimônio investido em ações. Quanto disso é administrado dentro de casa e quanto está na mão de gestores independentes?

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Nós temos hoje no total de R$ 3,400 bilhões de renda variável investidos. Nós devemos ter em torno de 600 milhões terceirizados. O restante é gestão interna.

Podcast: Existe uma tendência de terceirização da gestão no Brasil?

Creio que sim. Acho que, no caso da Valia particularmente, tanto na carteira própria, gerida internamente, como na carteira terceirizada, nós buscamos uma gestão voltada para fundos de valor. O horizonte está meio longo, onde o gestor consiga direcionar os recursos para as suas melhores teses, que não necessariamente performam no curto prazo, mas que tem um espaço para que maturem essas teses. Isso faz mais sentido para a gente porque, como eu já disse anteriormente, as nossas obrigações se pagam no longo prazo. Eventualmente, se você consegue escolher boas empresas com bons fundamentos, sustentáveis, que você entenda que é apenas um momento que a empresa está passando e que o preço está fora do lugar, então esses fundos conseguem se aproveitar disso e criar valor.

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Podcast: Quais são as maiores posições da carteira de ações da Valia hoje?

Hoje, nós temos em carteira a BRF, a BR Malls, a Vale, JHSF, Petrobras e Abril Educação. São as maiores produções.

Podcast: Como é que os fundos de pensão no resto do mundo lidam com a questão da terceirização da gestão?

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Depende. Plano corporativo acaba sendo totalmente terceirizado. Praticamente o nível de terceirização lá fora é maior do que aqui no mercado doméstico. É um pouco diferente.

Podcast: Até porque a indústria de asset management já existe lá há mais tempo.

Isso. E até pelo histórico da nossa indústria. Por exemplo, na renda fixa até há pouco tempo boa parte dos recursos estavam alocados em estratégias de cada CDI. O que fazia obviamente boa parte dos recursos ficar dentro de casa. Eu acho que isso é uma tendência que na renda variável é muito mais clara… se você for olhar o histórico de má gestão de fundos de valor aqui no Brasil, os retornos são bem mais altos nos últimos anos do que os de retorno de estratégias passivas e isso também internamente é um fato. Nosso retorno nos últimos dez anos está na casa de 26% ao ano, em média. E esse processo de terceirização nosso está melhor ainda do que a nossa gestão interna.

Podcast: Esse 26% é a média…

Dos últimos 10 anos. Média anual dos últimos 10 anos.

Podcast: Da sua carteira de ações.

Isso, exatamente.

Podcast: É só a parte terceirizada.

Interna.

Podcast: Muito bom, hein?

Muito bom. Foi muito bom. Então a gente acredita nesse tipo de gestão, acredita nesse tipo de estratégia e devemos aumentar futuramente essa parte terceirizada porque nós fizemos um processo até no final do último ano, que tem ido muito bem, tem dado um resultado muito satisfatório.

Podcast: Processo de que?

De terceirização da carteira de renda variável, onde nós contratamos 7 gestores. Esse processo deve continuar para a frente. Deve, nos próximos anos, ir aumentando a participação dos gestores que vão nessa carteira.

Podcast: Os fundos de pensão têm sido chamados para investir em grandes obras de infraestrutura que o governo considera essenciais para o País. Em quais a Valia está envolvida?

A Valia, na verdade, tem uma atuação em infraestrutura via private equity. Até porque, obviamente, obras de infraestrutura são muito grandes, apesar de a Valia ser a 6ª maior fundação no Brasil, mas obviamente não tem o porte de participar de grandes projetos. Uma forma de conseguir participar e ganhar escala é através de investimentos de fundo de private equity.

Podcast: Se não é tão grande quando uma Previ para o governo “Vai para Belo Monte, vai para Girau, vai para…”

Na verdade é questão de recursos. Recursos disponíveis para estar alocando em infraestrutura. Eu tenho muito menos recursos disponíveis para estar investindo. Isso faz com que eu tenha que procurar essa escala que projetos de infraestrutura demandam. Por exemplo, nós temos um investimento na Sete Brasil, que é uma empresa que tem como objetivo a construção de 28 sondas para a Petrobras para a exploração do pré-sal. Então são vários fundos de pensão que se juntaram, vários bancos se juntaram no fundo de private equity, para dar o funding para esse projeto. É dessa forma que nós atuamos, buscando essa sinergia, essa escala junto a outros investidores também de porte.

Podcast: A indústria de private equity (PE) cresceu bastante no Brasil na última década. De uma forma geral, qual tem sido a experiência da Valia com private equity?

Positiva. Na verdade, a gente vê hoje uma indústria muito mais madura, muito mais gestores já trabalhando nessa indústria. Nós achamos que ainda há muitas oportunidades em diversos setores da economia brasileira, onde o private equity faz diferença. Onde você pode fazer diferença. Obviamente, Brasil é um país que tem baixa poupança, tem custos altos de financiamento e você tem necessidade de recursos em algum setor ou possibilidade de consolidação ou também a capacidade de aumento da governança, impacto de governança que um fundo de private equity pode fazer, criando valor. Nós vemos isso como muito positivo. Além disso, nós usamos o private equity como uma diversificação da nossa carteira de ações. Existe diversos setores que não estão representados no mercado de empresas listadas, então nós buscamos no private equity um complemento à nossa gestão de equity.

Podcast: O que você tem em private equity está no consolidado, está em ações ou está em estruturados?

Está em estruturados, mas quando eu olho gerencialmente a minha carteira eu tenho uma visão setorial que consolida os dois a tanto mercado listado, como o private equity.

Podcast: Então quando a gente falou naqueles 24% do patrimônio em ações são empresas listadas?

Só ações, empresas listadas.

Podcast: E os FIPs?

4%.

Podcast: Sete Brasil, por exemplo, são os chamados produtos estruturados.

Exatamente. Na verdade, hoje nós devemos fechar o ano com 10% de capital comprometido em private equity. Investido está em torno de 4%.

Podcast: Esse 10% é um recorde ou não?

É, a maior alocação nossa de private hoje. Sim. Podemos atingir isso no final do ano, que é o nosso limite.

Podcast: Você vê algum problema na indústria de private equity? Por exemplo, todo mundo correndo atrás dos mesmos ativos?

Ainda não. A questão de preço está dentro de um item de monitoramento nosso da carteira. Pelo menos nos gestores que nós temos investido, todas as propostas que têm sido trazidas estão em preços que nós achamos bem razoáveis e com potencial de ganho na saída. Não ainda. Pelo menos no nosso portfólio nós não vemos uma inflação de preços que poderia estar acontecendo em algum setor específico.

 Podcast: Você é membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). Os EUA têm uma tradição muito forte de investir no estágio imediatamente anterior ao private equity, que é o venture capital. Por que não ouvimos falar, aqui no Brasil, de grandes fundos de pensão fazendo investimentos substanciais em venture capital?

Uma boa pergunta. Eu acho que vem da própria diferença estrutural do caso brasileiro em relação ao patamar de juros. Se você olhar ainda hoje para a alocação dos fundos de pensão, você ainda tem pouca alocação em ativos de risco de venda variável. Como um todo. Qualquer coisa se tem uma alocação pequena. E o venture capture em termos de risco, comparado ao private equity, é muito maior. E como o mercado de private também é novo, tão novo quanto o de venture, eventualmente é natural que os fundos de pensão canalizem em um primeiro momento o dinheiro para, uma vez tomada a decisão de assumir o risco do investimento de private equity, para o que eles julga ser de menor risco. Então talvez essa seja uma explicação que deve mudar com o tempo. Pelo menos da nossa ótica, que é uma ótica de gestão do risco que nós nos estamos expondo ao investir na classe de private equity.

Podcast: Existe alguma classe de ativos que não esteja ainda suficientemente explorada por gestores independentes, na qual você queira ter exposição, mas onde falta expertise?

Não. Acho que para a estratégia da Valia nós temos encontrado o que nós precisamos. Acho que, como eu coloquei, nós temos gestores no setor de óleo e gás, conseguimos, no caso da Sete Brasil, um projeto também em um setor que é extremamente interessante do nosso ponto de vista, e sem exposição em Bolsa. Se você olhar essa cadeia de fornecedores de Petrobras, não tem essa exposição. Também na parte de infraestrutura tem bons gestores com projetos, temos um fundo de portos, temos fundos multi setoriais. É uma coisa interessante também que para o fundo de pensão, e a Valia tenta explorar, as oportunidades com investimento. A Valia em um de nossos fundos nós co-investimos junto com o fundo para adquirir uma participação na Tok&Stok, por exemplo, que é uma empresa…

Podcast: O Carlyle.

Isso, que foi adquirida pelo Carlyle, e nós co-investimos junto com o fundo. Que também é uma outra forma de você atuar, dentro também desse espaço de private equity e tentar melhorar o retorno naqueles investimentos que você julga ser interessantes para a nossa carteira.

Podcast: Esse tipo de co-investimento se aplica ou pode se aplicar, por exemplo, a concessões? Por exemplo, estradas que vão ser privatizadas, aeroportos…?

Sim. Creio que sim. Acaba que as concessões podem ser estruturadas de diversas formas. Nós já compramos debêntures da Rota das Bandeiras, que foi uma emissão estruturada de uma concessão, que vem na forma de uma renda fixa, com garantias bastante interessantes, uma estruturação interessante. A atuação de infraestrutura se dá desde a possibilidade de uma estruturação de dívida ou de uma busca de um ganho em um equity. Mas obviamente a infraestrutura por fundo de pensão acaba tendo alguns componentes positivos pela previsibilidade de fluxos, pela indexação à inflação… Isso acaba como que funcionando a longo prazo como um título indexado.

Podcast: Eu entendo que há vários instrumentos pelos quais você pode investir, não necessariamente como equity na SPC, mas como você falou na debênture estruturado. Mas especificamente no caso dos aeroportos que estão vindo aí, as privatizações, das estradas federais, vocês planejam investir em equities nessas concessões?

Não. Como eu disse, os nossos mandatos estão hoje junto com os gestores de private equity. Se eles forem olhar, aí nós vamos estar olhando. Mas depende do foco que eles estão olhando. Porque, na verdade, um fundo de infraestrutura acaba sendo bem amplo o foco dele e certos tipos de investimento acaba que demandam muito dinheiro. Também têm fundos nossos que não têm capacidade de estar investindo em determinados projetos. Isso também pode acontecer.

Podcast: O que a Valia tem feito nos últimos anos em relação à exposição em imóveis? Qual sua visão sobre preços de imóveis comerciais em Rio e São Paulo?

Nós temos uma visão muito boa da classe de ativos de imóveis. Desde 2008, nós aproveitamos a crise, na verdade, quando os preços tiveram uma queda substancial para fazer várias aquisições de imóveis e que trouxe um retorno nos últimos anos bastante interessante, acima da casa de 20%. Ano passado acho que foi 30%

Podcast: Vocês foram oportunistas na crise.

Exatamente. Comprando edifícios tanto no Rio e em São Paulo no momento pós-crise. E os imóveis se apresentam como um substituto da renda fixa. Tem um caráter de uma classe de ativos que te dá um head de inflação e você ainda tem uma realidade que está começando agora a mudar de um subinvestimento por anos nas grandes metrópoles. A economia cresceu e você tem… tinha, quer dizer, começou agora a se equilibrar, um mercado com escassez de prédios triple A, com certificados e, agora, é óbvio que muito dinheiro foi investido nos últimos anos nesse tipo de imóvel e o que nós esperamos de fato é que tanto os aluguéis como os preços estabilizem em algum momento, até o mercado se equilibrar. Mas continua sendo relativamente a renda fixa extremamente atrativo. Nossa carteira hoje gera uma renda de inflação mais 10%. Muito acima de títulos indexados à inflação. A gente continua achando extremamente atrativo o segmento. Já estamos no nosso limite hoje…

Podcast: Qual o limite estatutário?

8%.

Podcast: É estatutário ou legal?

Legal.

Podcast: 8% da carteira em imóveis.

Isso. E você tem a possibilidade de investir através de fundos imobiliários, que também é outra forma que estamos estudando de…

Podcast: Mas aí o fundo imobiliário entra no mesmo limite?

Não. Entra na estruturados.

Podcast: Separado.

Separado.

Podcast: Você mencionou que investiram em imóveis no “pós-crise.” O difícil na crise é saber quando o pior já passou. Estamos gravando hoje com o dólar a R$2,40. Qual é sua sensação sobre essa reprecificação de ativos no Brasil? Estamos no final, já passamos da metade do caminho?

Eu diria que boa parte do caminho já foi feita. Na renda fixa, especificamente. Obviamente, o título americano vai reverter para a sua média histórica. A gente crê nisso. E eventualmente pode até passar dessa média em algum momento, mas no Brasil boa parte do caminho também foi feita. De forma muito mais rápida e até mais intensa do que aconteceu lá fora.

Podcast: Como sempre, né?

Isso. Mas um outro ponto em relação a esses títulos, que às vezes eu tenho a impressão que alguns subestimam, é que quando a gente olha para os títulos indexados à inflação tanto na Europa como nos Estados Unidos, esses títulos por trazer esse head de inflação têm um preço que é cobrado para você comprar esses títulos. E no Brasil nós temos uma vantagem, e para o fundo de pensão não tem preço, é de ter uma disponibilidade grande de vencimento desses títulos e, no caso da Valia, com taxas acima da nossa meta atuarial. O que significa que para eu fazer um seguro, eu estou recebendo para fazer o seguro.

Podcast: Quando você diz disponibilidade de vencimento é a curva estar completa ou porque o governo está sempre fazendo leilão?

As duas coisas. Além de poder comprar, adequar o meu passivo… quer dizer, eu tenho mais facilidade para adequar o meu ativo ao perfil do meu passivo por essa disponibilidade de vencimentos de até 2050, além disso o Tesouro tem emitido. Então essa taxa também continua sendo muito atrativa. Acho que isso é uma vantagem muito grande. E o que isso permite para o futuro? Permite uma melhor gestão de risco dos fundos de pensão. Quando a gente fala de fundo de pensão, nós estamos falando de gestão de ativos. Estamos falando de gestão de ativo e compassivo. Eu tenho obrigações a serem pagas e eu tenho que achar a melhor combinação de ativos que eu consiga atingir esse objetivo na data específica. E esses títulos são maravilhosos para isso. Porque eu tiro o risco de inflação. Eu elimino o risco de inflação, posso casar com as minhas obrigações e, com isso, eu tenho muito maior eficiência na minha gestão de risco de ativos e passivos. E nos resultados que eu vou gerar no longo prazo. Acho que o Brasil é um mercado único onde isso acontece com essa disponibilidade e o que até facilita no nosso caso é que nós tomemos riscos em outras classes. Nós temos 100% da reserva matemática hoje coberta com ativos indexados à inflação. Esses títulos indexados, imóveis, empréstimos, que têm também esse head de inflação, o que significa que não importa o que aconteça com a inflação eu tenho a garantia de pagamento das minhas obrigações de forma tranquila e muito clara. Isso eu acho que dá tranquilidade para a gente estar investindo 24% em renda variável e private equity e outras classes.

Podcast: O que é que os fundos de pensão podem ter, por lei e pelo estatuto, em relação a investimentos no exterior?

Atualmente, a lei permite que os fundos de pensão invistam até 10% no exterior. A Valia está construindo uma proposta a ser levada ao Conselho, até o final desse ano, para começar a investir. Nós não temos ainda um mandato para investir no exterior, mas eu acho que cada vez mais esse segmento ou o fato de se poder investir fora do Brasil vai fazer sentido também, no sentido de uma melhor gestão de risco das fundações. Obviamente o mundo é correlacionado, mas nós sabemos que às vezes os países têm ciclos diferentes e você consegue buscar outras oportunidades em outros mercados em uma eventual diferença de ciclos do Brasil com o exterior. Naturalmente, o fato de você ter uma diversificação geográfica faz sentido. Do ponto de vista de risco, tem mercados que também têm retornos tão bons quanto o Brasil.

Podcast: A maioria dos fundos de pensão já está investindo fora?

Acho que a maioria dos fundos de pensão hoje estão estudando. Já tem alguns fundos que têm mandatos para investir, já estão na fase de estruturação.

Podcast: O mandato é dado pelo Conselho…

Pelo Conselho Deliberativo.

Podcast: … reformando o estatuto, é isso? Mexendo no estatuto…

Não. É na política de investimento. Já tem várias grandes fundações com orçamento para estar investindo no exterior e provavelmente vão estar investindo até o final do ano. E provavelmente no ano que vem nós também devemos estar olhando para alguma coisa fora.

Podcast: E como você imagina que vai ser isso? Você vai fazer uma carteira de ações lá fora?

Estamos na fase de estudo ainda. Muito provavelmente o risco é o risco de renda variável. Renda fixa lá fora não faz sentido. Até pelo que eu falei anteriormente em relação a taxa de juros e a disponibilidade de NTNBs, faz da renda fixa brasileira imbatível. Mas provavelmente private equity ou public equity deve ser o caminho natural.

Podcast: Deve ter havido uma época em que ser diretor de investimentos de um fundo de pensão era só uma questão de acompanhar o passivo e buscar ativos que casassem bem, mas hoje o seu trabalho é uma coisa bem mais complexa, não?

De fato, a situação mudou na medida que os fundos de pensão têm diversificado suas carteiras o trabalho aumenta muito em complexidade e a estrutura também acaba ficando mais complexa para aqueles fundos que decidiram fazer a gestão interna ou aqueles que decidiram terceirizar na busca de uma consultoria, na busca de gestores que atendam essa carteira mais diversificada. E, de fato, dá mais trabalho e o processo tem que ser feito com mais cuidado, tem que trazer para dentro dessa gestão de ativos e passivos a gestão do risco, que é de extrema importância para que você… você tem que entender muito bem os riscos que você vai começar assumindo esse processo, porque fica menos óbvio os resultados e, na medida que você diversifica, o efeito natural, dado que a tua meta atuarial é uma meta de renda fixa, é você descolar. Você descorrelaciona o seu ativo cada vez mais do seu passivo e, obviamente, você pode ter resultados indesejáveis no caminho porque a gente sabe que os ativos são voláteis. Como, por exemplo, está acontecendo esse ano. Esses resultados, o entendimento daquilo que pode acontecer dos riscos que as carteiras estão sendo expostas no processo de diversificação, depende de uma boa modelagem, de gestão de ativos e passivos, depende de um bom processo de seleção de gestores, depende de um bom processo de sistema de gestão de sistema de risco… Tudo isso acaba trazendo, de fato, mais trabalho do que somente investir no CDI. Eu acho que naturalmente as fundações têm feito esse movimento, mas é um movimento que deve ser feito de forma muito estruturada, muito embasada, muito calma e para atingir os objetivos esperados e não ter nenhuma surpresa no caminho.

Diego Lazzaris Borges

Coordenador de conteúdo educacional do InfoMoney, ganhou 3 vezes o prêmio de jornalismo da Abecip