Após susto com Master e Will Bank, CDBs devem voltar ao cardápio, veem analistas

Quebras de bancos devem levar investidores a ser mais cuidadosos com aplicações

Angelo Pavini

O modelo Open Banking parte do pressuposto de que os dados financeiros são dos clientes e não dos bancos.
O modelo Open Banking parte do pressuposto de que os dados financeiros são dos clientes e não dos bancos.

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A liquidação de três instituições financeiras em pouco mais de dois meses – Master, Reag e Will Bank – causou desconforto em muitos investidores que vinham ampliando suas aplicações em papéis de bancos de menor porte. A demora do Fundo Garantidor de Crédito, o FGC, em começar o processo de pagamento do Master e os problemas com a análise dos documentos de muitos investidores acrescentam uma camada a mais de inquietação. Apesar da reação inicial, de retração dos investidores em relação a esses papéis e eventuais pressões em taxas, porém, analistas observam que são casos isolados e esperam que o interesse volte ao normal nos próximos meses.  

Pode haver um maior escrutínio dos investidores com relação a CDBs de bancos menores a partir de agora, diz Camilla Dolle, head de renda fixa do Research da XP Investimentos. “Quando há acontecimentos desse tipo, o investidor fica mais atento ao risco de quebra dos bancos, e pode haver uma mudança comportamental, mas é cedo para cravar que isso vai levar a uma mudança estrutural na captação de bancos”, diz. Ela lembra de outras situações em que o mercado passou por um choque de aversão ao risco, como foi o caso do escândalo da Americanas, e algum tempo depois voltou à normalidade. “Podemos ter mecanismos mais robustos de regulação, ajustes do mercado e um entendimento maior dos investidores que podem limitar uma mudança estrutural”, diz. Mesmo assim, a reação imediata de alguns investidores que estão recebendo os recursos do Master pelo FGC pode ser de maior cautela.

Opção de diversificação

Camilla diz que os CDBs de bancos de menor porte continuam sendo uma opção de diversificação para os investidores em renda fixa e alerta para não se generalizar o que aconteceu com Master. “Temos muitos bancos menores sólidos, com bons balanços, por isso é importante conversar com seu assessor de investimentos ou procurar se informar, verificar seu perfil de risco e entender que taxas maiores tem embutidos riscos maiores também”, diz. “O que fica de lição de todo esse processo é que qualquer título de crédito, bancário ou privado tem algum risco e diversificar para estar protegido se ocorrer um problema.”

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Crescimento forte

O assunto mexe com o bolso de muita gente. De 2024 para cá, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, a Anbima, as contas de investidores de varejo em CDB saltaram de 45,4 milhões para 58,3 milhões até novembro do ano passado. No varejo de alta renda, o número de contas quase dobrou, de 4,7 milhões em janeiro de 2024 para 8,8 milhões, segundo a Anbima. O total investido em CDBs no varejo tradicional subiu de R$ 430 bilhões em janeiro de 2024 para R$ 610,4 bilhões em novembro do ano passado e no varejo de alta renda, de R$ 354,7 bilhões para R$ 521,7 bilhões, números expressivos para o mercado.

Crise pontual 

O que houve foi uma crise pontual de um conglomerado financeiro, o Master, e agora do Will Bank, que faz parte desse conglomerado, afirma Leandro Vilain, presidente da Associação Brasileira de Bancos, a ABBC, que reúne as instituições de menor porte. “Não teve grande surpresa na liquidação do Will Bank, nem de longe está acontecendo qualquer tipo de crise de confiança, o sistema funciona normalmente”, diz.

Vilain diz que mesmo o esperado aumento de custos de captação para os bancos menores em CDBs, prevista depois da quebra de uma instituição, não vem ocorrendo. “A surpresa foi que, de novembro para cá, desde a liquidação do Master, o custo médio dos bancos vem caindo, o que faz sentido, pois o Master puxava as taxas ao pagar 130%, 140% do CDI e agora, sem ele, as taxas voltaram ao normal”, diz. Mesmo o elevado gasto do FGC com os pagamentos do Master, de R$ 40,6 bilhões, e do Will Bank, de R$ 6,3 bilhões, não chega a preocupar. “O FGC vai chamar uma recomposição do fundo e pode antecipar as contribuições dos bancos em até 60 parcelas, e isso deve acontecer rápido”, diz.

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Já no médio prazo, será preciso analisar formas de evitar o que aconteceu com o Master, o que deve passar por uma análise mais cuidadosa sobre o que o banco faz com o dinheiro captado. “Uma coisa é estar captando a 130% do CDI e emprestar em linhas mais caras, outra é aplicando em precatórios”, diz. Para o investidor, o mais importante será que ele precisa receber mais informações sobre o banco antes de comprar um CDB e não confiar apenas na garantia do FGC. “Temos de mudar a percepção do investidor de que ele compra um CDB do FGC, não é assim”, diz.

Por que os bancos quebram?

Os bancos quebram normalmente quando há uma alta muito forte da taxa de juros que leva a um aumento da inadimplência ou porque houve falta de capital ou por fraudes e gestão temerária, que é tomar risco além do que deveria, explica Ricardo Rocha, coordenador de pós-graduação em Finanças do Insper. No caso do Master, parece ser uma combinação de risco além do permitido e fraude, mas isso não significa um problema generalizado, diz. “Nessa hora todos os gatos são pardos e as pessoas começam a se perguntar se todos os bancos são parecidos, mas não é bem assim”, diz. Segundo ele, o sistema financeiro hoje é muito mais sólido e seguro para o investidor graças às experiências do passado. Em 1985, durante a onda de quebras de grandes bancos, não havia FGC e houve uma corrida bancária que levou a uma concentração grande de depósitos nas instituições públicas, vistas como mais seguras. “Hoje, o FGC reduziu essa preocupação, mas mesmo assim talvez o investidor de CDBs em bancos menores quando receber os recursos de volta queira um banco maior, até porque ninguém olhava o nome da instituição, olhava só a rentabilidade”, diz.

Assim, os casos do Master e Will Bank devem reduzir um pouco essa falta de cuidado. Rocha não acredita em um movimento de concentração bancária, pois o mercado já está muito concentrado. O maior efeito, diz, será educativo. “Muita gente que aplicou no Master e está na fila para receber, vai pagar imposto a mais porque teve a liquidação antes da hora e tem a encheção de saco vai pensar antes de investir em um banco desconhecido, vai pedir mais informações, entrar no site, entender quem é aquela instituição, que atividade ela faz e não só olhar se tem garantia do FGC ou as taxas”, diz.  

Setor de crédito segue forte

Não deveria haver uma redução nos investimentos em CDBs por conta do Will Bank, afirma Patrícia Palomo, planejadora financeira CFP pela Planejar. Segundo ela, essa nova liquidação foi uma questão pontual, mais ligada ao controlador, o Banco Master. Para ela, a situação do Will Bank é muito atípica e não representa necessariamente que outras instituições do mesmo porte estejam expostas ao mesmo problema. “Pelo contrário a gente vê no Brasil uma expansão do crédito com políticas públicas, então não há porque pensar que é existe algo um aumento de risco generalizado”. Ele lembra que as instituições financeiras são muito fiscalizadas pelo banco central, têm um nível de controle muito alto e contam ainda com um mecanismo de garantias como o FGC.

Esses elementos trazem tranquilidade para o investidor continuar olhando instituições bancárias e financeiras de menor porte da forma como elas precisam olhadas, com parcimônia e olhando a estratégia da instituição, entendendo quem são os acionistas, como é que é o grau de alavancagem dessa instituição. É importante que o investidor peça as informações para quem o orienta no mercado financeiro para entender a qualidade e a capacidade de pagamento das instituições.

Ela acredita que até possa haver algum impacto nas taxas dos CDBs no curto prazo, pelo receio dos grandes investidores. “Mas é importante que o investidor entenda que a taxa reflete o risco da aplicação, ela é um dos principais indicadores do risco e não existe taxa alta num papel sem risco alto também”, diz.