Após 42 anos sem parar, executivo deixa pausa para assumir JGP Crédito

Conversou com cem pessoas para definir o próximo passo

Osni Alves

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João Emilio Ribeiro Neto não conseguiu ficar longe do mercado financeiro. Depois de mais de quatro décadas de trabalho ininterrupto, o executivo havia se afastado das atividades no fim de 2023, mas aceitou o convite para comandar a área de operações da JGP Crédito, gestora cujo controle foi recentemente adquirido pelos próprios sócios.

A pausa havia sido encarada como um luxo merecido. “Eu trabalho há 42 anos. Acendi um cigarro no outro, uma empresa depois da outra, sem pausa de um dia. A empresa estava estabilizada, com uma equipe maravilhosa, e achei que podia me dar esse luxo”, contou João Emilio sobre a decisão de deixar a STK Capital, gestora que ajudou a fundar do zero.

Em entrevista ao programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, o executivo contou que o afastamento foi tudo, menos convencional. Ele seguiu indo praticamente todos os dias ao escritório, intensificou a prática de esportes — como corrida e a subida da Pedra do Imperador — e viajou bastante.

Oportunidade com segurança!

Seguindo o conselho de um amigo ex-integrante da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), conversou com cem pessoas para definir o próximo passo. Chegou a cogitar uma função como conselheiro e teve discussões avançadas para fundar uma empresa de tecnologia financeira, mas nada o convenceu. “Eu não quero conselho, quero estar na encrenca, quero estar na operação”, afirmou.

O convite que tirou o executivo da pausa

A proposta que mudou os planos veio numa noite, em uma reunião rápida com Alexandre Miller. Os sócios da JGP Crédito tinham comprado o controle da empresa e precisavam montar uma área de operações própria, replicando os serviços antes oferecidos pela JGP, descrita pelo executivo como a “nave-mãe” do grupo.

“Lá pelas tantas eu falei: ou eu vou aí ajudar a encontrar as respostas, ou o trem vai passar”, relatou. Sobre o sócio que fez o convite, definiu: “Ele é um desbravador”. Segundo João Emilio, Miller “é uma pessoa que tem projetos, tem visão e vai precisar de alguém para pavimentar tudo isso”.

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Na nova função, o executivo descreve a área operacional como aquela que “prepara o palco para o show acontecer”. Em tom de brincadeira, define o setor como o “departamento de prevenção ao lucro” — o que aponta restrições, mas tem a obrigação de apresentar saídas.

“As soluções você não encontra na sua mesa. Encontra no mercado, em outras empresas. A gente trabalha em rede, e para essa rede funcionar você tem que contribuir mais do que receber”, afirmou.

Da Icatu à STK Capital, uma trajetória de quatro décadas

A entrada definitiva no universo das gestoras se deu após uma passagem pela área de banco de investimento do Banco Icatu. Quando a instituição decidiu separar a Icatu Investimentos, a aquisição foi feita pelo BBA mais rápido do que se imaginava, segundo o executivo.

A parada seguinte foi a IP Capital Partners, em um projeto previsto para durar um ano — e que acabou se estendendo por dez. “Tem uma fábrica de histórias ali. Muita gente que está hoje no mercado, em outras gestoras, foi contratada nessa época”, lembrou. Foi nesse período, segundo ele, que surgiu no Brasil a figura do diretor de operações, função que reúne tudo o que não é investimento nem área comercial.

De lá, partiu para montar a STK Capital ao lado de um grupo de sócios. Atravessou a pandemia à frente da gestora antes de tomar a difícil decisão de se afastar do dia a dia da empresa.

Sobre a estrutura da JGP Crédito, que tem cerca de 80 funcionários e onze sócios no comitê executivo, João Emilio destaca o que chama de “ditadura do argumento”. “Tem hierarquia, sim. Mas é uma empresa em que todo mundo tem a liberdade de colocar as suas ideias. Quem sobrepõe seus argumentos não é porque fala mais alto nem porque está num nível hierárquico maior”, disse.

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O conselho aos mais jovens

O recado que costuma dar aos profissionais em início de carreira resume o aprendizado de mais de quatro décadas no mercado, incluindo a aposta que fez, no passado, no jovem Esteves. “Não escolha pelo barco. Escolha pelos tripulantes que estão no barco. Porque amanhã eles vão fazer daquele barco uma coisa maior”, concluiu.