A alta renda quase não investe em ETFs no Brasil: o que afugenta o mais rico?

Fundos de índice foram a categoria que mais cresceu no semestre, mas seguem ínfimos nas carteiras do private; especialistas apontam pontos cegos nos números e defendem uso maior do produto

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Os fundos de índice (ETFs) viraram uma das vitrines da indústria de fundos no Brasil, com forte crescimento em número de produtos e patrimônio investido nos últimos meses. Mas, quando se olha para a carteira dos investidores mais ricos, eles quase desaparecem.

O ETF foi a categoria de fundos que mais cresceu no semestre entre todos os segmentos, segundo dados da Anbima. O volume total subiu 38,8%, com crescimento de mais de 40% nos segmentos de varejo (tradicional e alta renda) e de 31% no private. Dentro dos fundos detidos pelo private, a participação de ETFs também cresceu, mas a base é ínfima: de 0,54% para 0,66%. No geral, quanto maior o patrimônio, menor o peso dos ETFs.

O que explica o número ainda ser tão baixo? E faz sentido, do ponto de vista desse investidor, ampliar alocações usando esse veículo? Segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, parte da resposta da baixa adesão está ligada ao acesso desse público a ativos e consultorias sofisticadas, mas há espaço para o ETF crescer nas carteiras.

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Investidores mais globais

A baixa adesão medida pela Anbima não retrata todo o uso de ETFs pelos mais ricos. O levantamento capta a distribuição no Brasil, enquanto boa parte desses fundos é comprada por meio de contas internacionais. Segundo Rogerio Freitas, head de investimentos do ASA, a alocação offshore em ETFs de renda fixa global e de ações americanas fica fora do recorte ou aparece como produto estruturado, dependendo de como a corretora reporta. “Esse é o ponto cego real da estatística”, diz.

As estimativas das casas usam bases diferentes da Anbima, que considera apenas a carteira de fundos, mas indicam que o investidor de alto patrimônio já conhece o produto. Na Ghia Multi Family Office, cerca de 25% do patrimônio sob gestão está no exterior, com cerca de 90% dessa parcela em ETFs, e o diretor de investimentos, Bruno Nunes, estima que, somados os fundos de índice locais, a participação total fique próxima de 40%.

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Na Blackbird Investimentos, cerca de 30% da exposição a ETFs dos clientes de alta renda passa por conta internacional, sobretudo em ETFs americanos de baixo custo de ações globais e renda fixa em dólar, segundo a sócia e private banker Sharon Halpern. Na Suno Consultoria, os ETFs representam em torno de 15% do patrimônio total, somando Brasil e exterior, conta o diretor de investimentos, João Arthur.

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O que ocupa o lugar do ETF no Brasil

Para Freitas, a diferença entre os segmentos reflete o motivo pelo qual se contrata assessoria. No varejo tradicional, o ETF funciona como substituto de gestão, oferecendo diversificação, custo baixo e liquidez a quem não tem acesso a um mandato individual. No alta renda e no private, o cliente já paga por serviços que o ETF não entrega, como personalização fiscal, proteção sucessória, benchmark sob medida e hedge específico. Freitas cita ainda a compra direta de ações e títulos, que elimina a taxa de administração e permite compensar prejuízos papel a papel.

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Halpern observa que, quanto maior o patrimônio, maior a demanda por fundos exclusivos, carteiras administradas e planejamento fiscal e sucessório integrado, incluindo holdings patrimoniais e negociação individual de taxas. Nesse perfil, segundo ela, o custo baixo do ETF pesa menos que a eficiência fiscal e sucessória de uma estrutura sob medida.

Nunes lembra que essas carteiras foram construídas ao longo de anos com fundos exclusivos e fundos de fundos, e há um custo de mudança que nem sempre estimula grandes alterações. Para João Arthur, a questão é mais comercial do que técnica, já que o cliente private tende a associar sofisticação a produtos mais complexos, e ele usa como exemplo o BOVA11, ETF que replica o Ibovespa. “O cara do private não quer comprar o BOVA11. Ele quer ter um fundo de Bolsa específico, com aplicação a partir de R$ 500 mil e uma capacidade que só existe em determinado momento”, diz.

Onde está o espaço para crescer

Os especialistas concordam que o cliente de alta renda e private deveria ter mais ETFs, e Freitas defende um avanço seletivo. Para ele, o produto é subutilizado como ferramenta de execução tática (caixa, hedge de índice, exposição rápida a um tema ou geografia), ficando com a parte “beta” e a liquidez de carteiras cujo núcleo segue na gestão ativa ou exclusiva.

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A renda fixa aparece como a principal frente. Nunes destaca a gestão da duration (prazo médio de recebimento), em que um único ETF com a exposição desejada substitui a administração de vencimentos de vários títulos. João Arthur aponta as classes de ativos mais amplas, como NTN-Bs, pós-fixados e Bolsa, e Freitas avalia que, na renda fixa indexada, a gestão ativa historicamente agrega pouco depois dos custos. Freitas e Halpern citam ainda a exposição internacional rápida e barata e os ajustes táticos.

O espaço tem limites. Segundo Freitas e Halpern, o ETF perde na otimização fiscal e sucessória individual e na busca por ganhos acima do mercado em segmentos menos eficientes, como small caps locais e crédito privado. João Arthur cita estratégias nichadas, como special situations e crédito imobiliário, para as quais não há ETF disponível hoje, e Nunes vê vantagem em gestores ativos quando o objetivo é incluir posições pouco correlacionadas com o resto da carteira.

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Crescimento já aparece

Nunes, Halpern e João Arthur relatam que o uso de ETFs nas carteiras que montam aumentou nos últimos 12 meses. Nunes e Halpern atribuem o movimento à ampliação da oferta local, sobretudo em renda fixa, e ao avanço do modelo de remuneração por taxa fixa (fee based), no qual, segundo Nunes, reduzir o custo final dos produtos passa a ser um objetivo comum de investidor e intermediário.

Nunes acrescenta que a mudança na tributação dos fundos exclusivos, que reduziu parte do atrativo fiscal desses fundos, favoreceu o uso de carteiras administradas e, inicialmente, a expansão da oferta de fundos passivos. “Seguimos otimistas com o crescimento do mercado local de ETFs”, afirma.

Na Suno, o aumento veio sobretudo por custo e tributação, e João Arthur considera essa alocação mais eficiente do que a da maioria dos fundos ativos. Para ele, ter muitos produtos exclusivos não torna uma carteira boa, e às vezes uma carteira de ETFs é até melhor. “As pessoas confundem complexidade com eficiência”, diz.

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Leonardo Guimarães
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