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Apostar nas maiores quedas do ano anterior na bolsa rende até 5.400% em 15 anos; entenda

"Ao avaliarmos o comportamento das 80 ações mais líquidas da Bolsa nos últimos quinze anos, a conclusão que podemos chegar é que comprar as maiores quedas de um ano para outro é um grande negócio", afirmou Clodoir Vieira.

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(Getty Images)

SÃO PAULO – Em um ano ruim para o mercado acionário brasileiro, com o Ibovespa, principal índice da bolsa de valores, em queda acumulada de quase 12%, algumas ações do benchmark caíram muito, colaborando com o péssimo desempenho do índice. Nesses casos, quando o ano vai chegando ao final, o investidor, de forma geral, sempre fica com uma dúvida: elas continuarão caindo no ano que vem ou irão devolver fortemente a queda expressiva?

De qualquer forma, se alguém lhe aconselha-se a investir em uma ação que caiu 70%, 80% ou 95% em um ano, você teria coragem? Provavelmente, não. Mas, estudos realizados pelo analista da Souza Barros e consultor da Compliance Comunicação, Clodoir Vieira, comprovam que essa estratégia tende a resultar em grandes ganhos aos investidores. “Ao avaliarmos o comportamento das 80 ações mais líquidas da Bolsa nos últimos quinze anos, a conclusão que podemos chegar é que comprar as maiores quedas de um ano para outro é um grande negócio”, afirmou Vieira.

Na pesquisa, o analista levou em consideração a seguinte premissa: e se todos os anos, o investidor comprar as dez ações que registraram as maiores quedas no ano anterior? Os resultados surpreendem. Se um investidor tivesse R$ 10 mil nas mãos no início de 1997 e decidisse comprar os piores desempenhos de 1996, seguindo essa estratégia ano a ano, sua carteira ao final de 2011 corresponderia a um valor de R$ 550.672,33, ou seja, uma valorização de 5.406,72%. Caso ele tivesse retirado seu dinheiro ao final de 2010, o total do resgate seria de R$ 733.266,05.

Com a mesma filosofia, se o investidor começasse o processo em 2008, os R$ 10 mil já teriam virado R$ 56.218,96, até o fechamento de quarta-feira (30), o que representa uma valorização de 462,19% no período, de acordo com o consultor. Somente neste ano, a alta das 10 ações que mais caíram no ano passado foi de 42,94% e neste mês de 3,02%.

Segundo ele, no mercado de capitais, apenas uma coisa é certa: rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. No entanto, tomar decisões apenas olhando o comportamento de uma ação no passado pode tornar-se uma estratégia interessante, quando aproveitamos as ‘ofertas do mercado’. “Todo consumidor sabe aproveitar uma liquidação em loja, mas poucos se arriscam a comprar as ‘pechinchas’ da Bolsa de Valores”, completou.

Máximas do mercado
Tal valorização da carteira comprova que a máxima do mercado de comprar na baixa e vender na alta não é apenas retórica. No entanto, em um prazo mais curto de tempo, o investidor precisa ter estômago para manter-se inabalável em momentos de perda e não colocar em xeque sua estratégia.

De acordo com Vieira, se olharmos um prazo mais curto, os R$ 10 mil alocados no início de 1997 transformam-se em R$ 7.515,60 em dezembro do mesmo ano e R$ 6.540,88 em 1998, ano do início da crise financeira internacional. Mas, no ano seguinte, 1999, o valor salta para R$ 26.201,00. “Isso comprova outra máxima do mercado: o investimento em ações deve ser de longo prazo”, afirmou.

Fundamentos
A queda exagerada das ações de uma empresa em um determinado ano não significa que ela seja ruim. Ela pode estar apenas em uma fase ruim. O que determina a qualidade de uma companhia são seus fundamentos, com análise de seus últimos resultados - fluxo de caixa, dívida, Ebitda, lucro líquido - as últimas notícias sobre a empresa e seus múltiplos, como P/L (preço da ação dividido pelo lucro por ação), VPA (valor patrimonial por ação) e P/VP (preço da ação dividido pelo valor patrimonial por ação).

Todos esses fatores relacionados acima podem ser sintetizados em apenas uma palavra: informação. Não basta apenas olhar altas ou baixas e centrar suas decisões de investimentos no comportamento dos papéis. Claro, o preço da ação influencia, mas é preciso ter em mente o porquê do seu valor atual. Se a forte queda registrada em um ano está relacionada ao momento do mercado, por exemplo, há grande chance de recuperação de suas ações. Tal fato fica claro quando analisamos o comportamento do mercado após a crise de 2008. O investidor que detinha R$ 90.694,92 em ações do Ibovespa ao final de 2007 viu sua carteira derreter para R$ 53.328,61. No entanto, ao manter a sua posição intacta, recuperou as perdas durante 2009 e ao final desse ano, detinha R$ 97.431,37, de acordo com o estudo de Vieira.

Cuidado
O consultor alertou, por fim, que nem sempre as ações recuperam o seu valor tão rapidamente. Se for o caso de a queda estar relacionada à má administração que leva a companhia a prejuízos, a perda do valor da ação é um movimento de correção. Como a empresa não está registrando o resultado projetado pelos analistas, suas ações estão caras e é preciso corrigir o seu preço. Nesse sentido a queda dificilmente será revertida, a não ser que a empresa retome o caminho correto.

Assim, o que precisa ser olhado é se empresa terá capacidade de se reerguer no futuro. Essa possibilidade passa por diversos fatores que vão desde uma mudança na estratégia adotada pela companhia à alienação do controle. “Ao olharmos para esses pontos, fica claro que os analistas e investidores tomam suas decisões em recomendar ou comprar uma ação todos os dias com base nas informações disponíveis no mercado. Quanto maior o nível de informação sobre determinada companhia, melhor ‘precificado’ será valor de suas ações e menos as oscilações ficam a mercê de boatos. Esse é o papel das áreas de Relações com Investidores”, disse.

O RI reduz as distorções de preços ao demonstrar as estratégias das empresas de forma a facilitar que os agentes de mercado entendam o momento da companhia. Nenhuma empresa está livre de surpresas. Sabe-se que desvios de cursos, estimativas erradas e problemas acontecem a todos. No entanto, quanto mais claro isso for aos investidores, mais facilmente suas decisões serão tomadas.

“Não estamos aqui defendendo que ao informar um erro de percurso, as ações da empresa não serão penalizadas. Ao contrário, haverá queda sim dos papéis, porém essa postura aumenta a confiança dos agentes de que a companhia já está retomando o rumo certo e facilita a recuperação da cotação de suas ações”, alertou. “A função do RI é implementar uma comunicação transparente para a melhoria da imagem da empresa e trazer de volta a confiança do investidor e o principal a valorização das ações”, completou.

O relacionamento com os investidores tem sido necessário para a redução da desconfiança em relação à empresa. Estudos demonstram que superestimar valores é um dos principais fatores que levam ao fracasso e a desvalorização e que esse desacerto decorre de falhas na avaliação do negócio ou de expectativas errôneas. Por esse motivo, os RIs das empresas precisam gerenciar corretamente todas as comunicações internas e externas. O valor econômico da empresa se baseia no cumprimento de expectativas que, por sua vez, se traduz em credibilidade.

Mesmo assim, muitas companhias abertas no mercado brasileiro ainda pecam pela falta de comunicação e omissão de informações, de acordo com o analista. “Apesar dos grandes avanços do mercado nos últimos dez anos, muito ainda precisa ser feito. Os controladores das companhias precisam e devem investir cada vez mais tempo em uma comunicação transparente, ou seja, falando a língua do investidor. Somente assim, o pequeno investidor terá como competir com igualdade e condições e podendo avaliar melhor a empresa. É hora de reavaliar a forma de comunicação com os seus acionistas”, finalizou Vieira.

 

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