Publicidade
O Copom deve anunciar nesta quarta-feira (16) o quinto corte seguido da Selic, de 14% para 13,75% ao ano, a menos de três semanas do primeiro turno das eleições. Diante dos dois eventos, a TAG Investimentos recomenda cautela. Para André Leite, CIO da gestora, o investidor deve evitar antecipar o resultado da disputa, manter pelo menos 30% da carteira no exterior e deixar o reposicionamento para depois das urnas.
- Fique sabendo dessa e de outras manchetes antes de todo mundo. Assine InfoMoney Premium e não perca nada de importante no mercado.
“A única coisa que você precisa evitar agora é fazer grandes apostas”, diz Leite, em entrevista ao InfoMoney. “Isso seria jogar moedinha. É blackjack, é cassino.” Na avaliação dele, a disputa entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) não tem, hoje, um favorito. A crise no STF envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, e a investigação da Polícia Federal que atinge Flávio ajudam a aumentar as incertezas. “Com o resultado [da eleição] conhecido, aí sim você vai conseguir ter uma noção do que deve ser o Brasil nos próximos quatro anos.”
Leite tampouco vê com bons olhos o provável corte da Selic, que deve reduzir o diferencial de juros entre Brasil e EUA, já que o mercado já precifica uma elevação do juro americano no mesmo dia. Para o profissional, apesar dos dados mais fracos de inflação e atividade econômica, o corte da taxa básica é “claramente político, para agradar o governo”. A TAG calcula que o BC ficará distante da meta de inflação se promover mais cortes, o que pode levar a uma alta de juros depois das eleições.
Para o gestor, o cenário eleitoral pesa hoje mais na precificação dos ativos brasileiros do que o diferencial de juros.
Na Bolsa, “plays de renda fixa”
É o que vem acontecendo com a Bolsa. Nos últimos 30 dias, o Ibovespa acumula alta superior a 12%, no mesmo período em que pesquisas de intenção de voto mostraram uma disputa mais acirrada. O índice voltou aos 186 mil pontos, mas para Leite a retomada ainda não precifica uma vitória da oposição, que poderia levar o índice aos 200 mil. “Essa andadinha que a Bolsa deu nas últimas semanas nada mais foi do que o mercado precificando uma corrida mais apertada”, diz. “Andou muito pouco.”
Até aqui, setores ligados a commodities, energia e petróleo tiveram melhor desempenho, enquanto ações sensíveis a juros, como as de varejistas, ficaram para trás. Num cenário de mudança de governo, Leite espera a recuperação desse segundo grupo. “Todo mundo que apanhou muito, essas empresas que estão com endividamento muito alto, tem mais para andar nesse cenário benigno do que as empresas defensivas”, afirma.
Continua depois da publicidade
A preferência da gestora, porém, é por infraestrutura, utilities e saneamento, que Leite descreve como “plays de renda fixa”. “Quando você analisa uma empresa de energia elétrica, uma empresa de saneamento, no fundo você está vendo uma taxa real, um IPCA mais alguma coisa”, diz. Na visão dele, essas empresas tenderiam a subir menos que as de consumo mais alavancadas, mas com relação risco-retorno melhor.
Na renda fixa, IPCA+ de longo prazo
Leite aponta oportunidade na renda fixa em caso de vitória da oposição, que na sua visão traria uma mudança no mix de política econômica. “Hoje o Brasil tem uma política fiscal absolutamente irresponsável”, diz: “e por conta disso você é obrigado a praticar uma política monetária super apertada”.
Em cenário de alternância de poder, enxerga a Selic caindo para até 9% ou 10%, o que seria capturado por posições títulos prefixados, e de inflação longas, com vencimentos em 2050, 2055 e 2060, os mais sensíveis a guinadas fiscais.
Continua depois da publicidade
Já no caso de reeleição, Leite diz que “dá para colocar um sinal de menos em tudo”, mas não necessariamente de imediato, porque investidores estrangeiros têm a percepção de que um novo mandato seria uma continuidade, o que amorteceria a reação inicial. Mas não impediria uma deterioração posterior, diz: “uma coisa é você estar com uma política fiscal ruim quando a sua dívida/PIB é 50%. Quando está em 85% e crescendo 5, 6, 7 pontos por ano, o seu espaço de manobra é muito pequeno.”
Pelos dados do Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,5% do PIB em julho, com alta de 3,9 pontos percentuais em 2026.
Pelo menos 30% lá fora
Mesmo num cenário de alternância de poder, Leite não recomenda apostar na valorização do real. “O real talvez seja o pior instrumento para você fazer essa captura (de valor)”, diz.
Continua depois da publicidade
O argumento é que, se um novo governo aprovasse um pacote de ajuste fiscal, a primeira leitura do mercado seria de que o Banco Central conseguiria cortar juros. Sem mudança na política monetária no exterior, o diferencial de juros entre Brasil e outros países ficaria ainda menor. “A gente vê um limite para a valorização do real nesse cenário positivo eleitoral”, resume.
Por isso, para o investidor brasileiro, a recomendação da TAG é ter no mínimo 30% da carteira no exterior. “O melhor momento para investir no exterior é sempre o dia de hoje”, diz Leite, que considera irrelevante o nível do câmbio para a decisão. Ele lembra que o Brasil responde por cerca de 1% dos ativos investidos globalmente.
Na carteira offshore, a TAG deixou de lado o portfólio 60/40 porque, segundo Leite, a correlação entre renda fixa e renda variável passou a ser positiva após a pandemia. A alocação atual tem de 20% a 30% em alternativos; uma parcela em commodities; renda variável via índices, somada a temas de inteligência artificial e infraestrutura europeia; crédito high yield americano; e a parcela de títulos públicos toda em TIPS, papéis atrelados à inflação dos EUA.
Continua depois da publicidade