Outro insider?

Volume das ações da Petrobras disparou horas antes do reajuste no combustível

Papéis da petrolífera movimentaram quatro vezes mais do que o giro visto no pregão anterior; nova suspeita de "insider trading" ou simples coincidência?

SÃO PAULO – O reajuste nos preços da gasolina e do diesel anunciado na noite da última terça-feira (29) pela Petrobras (PETR3, PETR4) parece ter pego muita gente de surpresa, já que muitas autoridades do governo sinalizavam que um aumento nos preços dos combustíveis só deveria acontecer a partir de março. No entanto, uma movimentação atípica das ações da petrolífera no último minuto de negociação da BM&FBovespa dá indícios de que alguns investidores já apostassem em um anúncio ainda neste final de mês.

O comunicado ao mercado da estatal foi publicado na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) às 19h29 (horário de Brasília), ou seja, duas horas depois do fechamento da bolsa brasileira. No entanto, durante o leilão de fechamento da Bovespa – que ocorre nos últimos minutos de negociação -, os papéis preferenciais da estatal movimentaram R$ 142,3 milhões, quatro vezes maior do que foi visto no leilão do pregão anterior. Trata-se do maior giro financeiro de PETR4 em um call de fechamento desde o dia 4 de janeiro, quando ela girou R$ 189,8 milhões.

Junto ao forte volume financeiro, impressiona também o fato de que as três corretoras que mais intermediaram as operações de compra nesse leilão de fechamento pertencem a bancos internacionais – que geralmente têm como clientes investidores qualificados ou fundos de investimentos, que naturalemnte movimentam uma forte quantia de dinheiro em suas operações. O HSBC, por exemplo, intermediou 70,6% das compras de PETR4 no call de fechamento. Bem mais atrás, aparecem Morgan Stanley e Goldman Sachs, responsáveis por 10,6% e 6,1% das compras, respectivamente.

ADR indica que ação subirá nesta quarta-feira
No pregão regular de terça-feira, as ações PN da Petrobras terminaram o dia com queda de 1,34%, cotadas a R$ 19,11 – menor fechamento desde 7 de dezembro de 2012. Contudo, espera-se que os papéis da estatal tenham uma boa resposta nesta quarta-feira, tendo em vista a reação positiva dos ADRs (American Depositary Receipts) da companhia na bolsa de Nova York após a notícia.

Embora a Bovespa já estivesse fechada no momento da publicação do comunicado, o after hours – período de negociações que acontece após o fechamento da bolsa – do mercado norte-americano estava ativo. Dessa forma, os recibos de ações da Petro, que haviam fechado o pregão regular com queda de 0,10%, registraram alta de 2,00% no after hours, indo para US$ 19,88.

Insider trading ou coincidência?
É prematuro afirmar que uma ação com volume financeiro acima da média horas antes de um comunicado extremamente importante significa que alguém ficou sabendo desse anúncio antes que o restante do mercado e usou essa informação para lucrar de forma ilícita – o que é comumemente chamado de “insider trading”. No entanto, esse giro financeiro acima da média de PETR4 no último instante de negociação e o fato de que corretoras estrangeiras estavam entre as que mais intermediaram essas operações são fatores suficientes para que essa oscilação seja averiguada pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), explica um operador que pediu para não ser identificado.

Procurada pelo Portal InfoMoney, a assessoria de imprensa da CVM ainda não respondeu ao questionamento sobre se irá investigar ou não esse volume acima da média das ações PN da Petrobras no último pregão.

Não é a primeira suspeita de insider trading na bolsa neste mês. Na semana passada, as ações da CCX (CCXC3), mineradora de carvão do Grupo EBX, subiram mais de 60% nos três dias que antecederam o anúncio de que Eike Batista, acionista controlador do grupo, pretende fazer uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) para fechar o capital da empresa. O próprio Eike Batista disse que a investigação sobre vazamento de informações precisa ser feita pela CVM.

O reajuste
A Petrobras anunciou um reajuste na gasolina em 6,6% nas refinarias, a ser válido a partir desta quarta-feira (30). Já o diesel será reajustado em 5,4%. 
Os preços de gasolina e diesel ainda não incluem os tributos CIDE (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico), PIS/Cofins (Programa de Integração Social e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) além do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). 

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De acordo com a companhia, o reajuste foi definido levando em consideração a política de preços da estatal, tentando alinhar o preço dos derivados de petróleo aos valores do mercado internacional, de uma maneira a obter equilíbrio no médio e longo prazo. O reajuste já era esperado, já que sem ele, a rentabilidade da estatal estava ameaçada.

O mercado, porém, esperava patamares diferentes para o reajuste da gasolina – cuja disparidade com o preço internacional pode ter sido um motivo para que o governo elevasse a quantia de Etanol presente no combustível. O Copom (Comitê de Política Monetária) estimava 5% em sua última reunião, mas o JPMorgan usou 10% em suas projeções, enquanto o BES estimava alta de 6% para ambos produtos.