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SÃO PAULO – Após um final de 2014/começo de 2015 extremamente conturbado, a Petrobras (PETR3; PETR4) está tentando resolver seus problemas. Reconheceu na quinta-feira (22) que pode incluir perdas com corrupção no seu balanço do terceiro trimestre (que deve ser revelado dia 27 de janeiro), mas que ainda não é o tão esperado balanço auditado pela PwC – esse sim reconhecido pelos bancos. Ainda assim, é importante não perder esses números de vista, principalmente porque alguma baixa contábil virá.
O rombo causado pelos desvios não deve ser pequeno, mesmo porque se forem podem causar descrédito no mercado, que agora começa a ver a empresa menos como “marionete” do governo e mais independente. “Se vier perdas contábeis de R$ 10 bilhões, conforme fontes do governo disseram à imprensa, seria plausível e, ao mesmo tempo, palatável pelo mercado. Já R$ 3 bilhões seria pouco e causaria descrédito enquanto R$ 20 bilhões ou mais precisaria de estudos mais profundos”, disse o analista Flávio Conde.
No domingo, a Folha de S. Paulo revelou, com base na auditoria interna da própria empresa, que a refinaria pernambucana vai gerar uma perda de US$ 3,2 bilhões para a Petrobras, em um projeto que só deve dar prejuízos após explosão de custos, estimada em US$ 18,5 bilhões, contra os iniciais US$ 2,4 bilhões.
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O risco principal agora está que um reconhecimento de perdas que vai gerar uma consequente revisão de seu ativo imobilizado atual, disse o estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Plácido. “Os desvios podem comprimir, e muito, o patrimônio da companhia. Como boa parte dos bancos usa o patrimônio como garantia, uma baixa nesse sentido pode afetar o quanto a companhia pode pegar em dívida”. Ou seja, se o patromônio dela for de R$ 100 bilhões e cair para R$ 50 bilhões, o banco, que antes permitia a companhia se endividar em três vezes (chegando a R$ 300 bilhões), por exemplo, agora vai aceitar um endividamento de, no máximo, R$ 150 bilhões, explica. Isso reduziria a capacidade de investimento da empresa e, consequentemente, seu plano de negócio.
Mais endividada do mundo
A Petrobras já disse que está revisando seu planejamento de investimentos para 2015, com a implementação de uma série de ações voltadas para a preservação de caixa, mas ainda assim é importante ver de quanto será esse corte – o que viabilizaria ainda seus investimentos sem a necessidade de efetuar novas captações, o que seria estremamente doloroso para a companhia neste momento.
Isto porque a Petrobras é hoje dona da maior dívida corporativa do mundo, de mais de R$ 240 bilhões (já deduzido o caixa), com seus índices de alavancagem bastante acima do teto estipulado em seu Plano de Negócios – 40% dívida líquida sobre patrimônio (contra o limite de 35% do PN – e 3,9 vezes a dívida líquida/Ebitda (contra 2,5 vezes o estipulado no PN) e com a possibilidade de captar dinheiro via emissão de dívidas mais cara no caso de rebaixamento de rating, avaliou a casa de research Empiricus, em relatório divulgado ao mercado. E, caso ela faça uma emissão, essa precisará ser agressiva para que reduza sua alavancagem (medida pela dívida líquida/Ebitda) em até 3 vezes, um patamar confortável para uma petroleira, disse Plácido.
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Ou seja, nem a produção, que foi recorde em 2014, ou até uma mudança na direção (como vem sendo levantada pela imprensa) deve salvar a companhia neste momento. O que o mercado quer ver agora é o financeiro da empresa para avaliar qual o tamanho do problema. Por isso, a divulgação do resultado na terça-feira e o posterior balanço auditado são tão importantes neste momento.
Por ora, o que resta é ter esse números na cabeça:
Petrobras em números
| – Caixa: R$ 66 bilhões e deve durar até o fim de abril e começo de maio | |||
| – Endividamento: R$ 307 bilhões, ou R$ 241 bilhões deduzindo o caixa – o que corresponde a maior dívida corporativa do mundo. Desse total, R$ 212 bilhões estão atrelados ao dólar, lembrando que a moeda saiu de R$ 2,20 para R$ 2,70 entre 2014 e 2015. | |||
| – Dívidas de curto prazo: R$ 25 bilhões vencem até o meio do ano. Há motivo para se preocupar? A empresa precisa divulgar seu balanço auditado para poder rolar a dívida. Mas o caixa não é de R$ 60 bilhões? Sim, mas olha o tamanho dos investimentos. | |||
| – Investimentos: de R$ 20 bilhões, em média, por trimestre. Para onde vai esse investimento? 70%, ou R$ 14 bilhões, são para exploração e produção (principalmente pré-sal) | |||
| – Qual alternativa para a empresa? 1°) Venda de ativos; 2°) aumento de preços da gasolina; e 3°) redução de capex (investimentos em bens de capital)Daria para fazer isso?Difícil. Primeiro, porque o preço do petróleo está despencando e não compensaria. Segundo, um aumento da gasolina agora seria improvável. O preço praticado no mercado interno está 60% acima do externo além do aumento de impostos sobre combustíveis anunciados essa semana. E, por fim, um corte brusco no capex pode ser inviável já que tem muitos investimentos que não podem parar no meio do caminho, como plataformas. | |||
| – Como o petróleo afeta? O segmento de abastecimento ganha, mas como o principal é exploração e produção, com o petróleo ao preço que está a empresa não tem ganho. Por que?A Petrobras tem custo médio por extração, que é o lifting cost de US$ 14,50 por barril, somado a participação do governo de US$ 18, o que chega a um custo de US$ 33 por barril. Mas como grande parte do petróleo extraído pela empresa é pesado, ou de má qualidade (tirando a parte pré-sal), a empresa vende a commodity com um desconto de US$ 10 por barril em relação ao Brent, ou seja, como ele está na casa de US$ 48, a Petrobras está vendendo um petróleo na casa de US$ 36 o barril, muito próximo ao custo de extração + participação do governo de US$ 33 por barril. | |||
| – O que a empresa diz? A Petrobras afirma que poderá manter sua exploração no pré-sal sem registrar prejuízos mesmo com a queda do petróleo. Como? A estatal diz que seu ponto de equilíbrio (“break-even”) é de US$ 45; ela fala ainda que poderia manter algum lucro mesmo com o petróleo a US$ 32 por barril, promovendo alguma redução de custosO que o mercado acha? Recentemente, vários bancos já emitiram alertas revisando para baixo recomendações e preço-alvo para as ações da companhia, citando, principalmente, a derrocada do preço do petróleo. Foi o caso de instituições como Barclays, Goldman Sachs, Deutsche Bank, Santander e UBS. | |||
| – E a produção? Neste momento, analistas comentam que a produção é o que menos importa. Em 2014, a Petrobras bateu recorde e teve alta de 5,3% na sua produção de petróleo, mas ainda assim frustou o mercado O problema? A meta da companhia era entre 5,5% e 6% na comparação com 2013 – meta que havia sido revisada no ano passado. A inicial era de um crescimento de 7%, bem longe do atingido. Ou seja, mesmo com a infinidade de novas plataformas e o advento do pré-sal, a companhia acumula 10 anos sem conseguir cumprir sequer sua meta de produção anual. |