Pós-resultado

Vale: o motivo para os analistas seguirem otimistas com a ação, apesar da frustração com o balanço

Provisionamento no caso Brumadinho perto do valor final concentra o foco dos analistas, que veem operações da mineradora mais perto da normalização 

Navio da Vale
(Divulgação)

SÃO PAULO – Na noite da última quarta-feira (31), a Vale (VALE3) divulgou um prejuízo de US$ 133 milhões referente ao segundo trimestre de 2019, ante previsão dos investidores, de lucro entre US$ 2,5 bilhões e US$ 2,9 bilhões. As perdas aconteceram devido às novas provisões relacionadas à tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais. 

Além do lucro, outras linhas do balanço decepcionaram, como o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), a US$ 3,10 bilhões ante consenso Bloomberg de US$ 4,91 bilhões, em meio aos custos de produção mais altos do que se esperava.

Como as ações da mineradora registram uma sessão de queda, de cerca de 2%, o que poderia levar a interpretação de que a queda ocorre por conta do balanço.

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Porém, mesmo com os resultados fracos, os analistas que cobrem o papel seguem com uma visão bastante positiva e avaliam que a empresa está conseguindo progredir ao mitigar os riscos, principalmente os relacionados à tragédia do rompimento da barragem de Brumadinho (MG) em 25 de janeiro. 

Além disso, a sessão pós-balanço coincide com um dia de forte queda para o minério de ferro, com a commodity à vista negociada em Qingdao registrando baixa de 3,8% (mas ainda em um patamar bastante expressivo de US$ 113,90 a tonelada). Como as ações costumam refletir de forma bastante clara o desempenho diário do minério, a avaliação é que os papéis na sessão estejam refletindo mais a queda do preço da commodity do que propriamente o balanço. 

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Mas, afinal, por que mesmo com os resultados à primeira vista fracos, os analistas seguem otimistas com a ação da mineradora? Os analistas do Itaú BBA apontam que os dados operacionais foram fortes, com os altos preços realizados para o minério de ferro chamando a atenção.

Já o Bradesco BBI avalia que os custos no segundo trimestre ficaram acima do esperado, de US$ 17,6 a tonelada versus estimativa de US$ 15,5 a tonelada. Contudo, para o terceiro trimestre, o Bradesco espera que esses custos recuem a US$ 15 a tonelada, quando as despesas de paradas devem ser reduzidas.

Mitigando riscos

Porém, os analistas apontam que o foco do mercado se concentra na mitigação de riscos pós-Brumadinho, uma vez que a maior parte das provisões já foi feita. O total já provisionado chegou a US$ 6,036 bilhões, considerando os US$ 4,504 bilhões provisionados no primeiro trimestre deste ano e os cerca de US$ 1,4 bilhão deste segundo trimestre. 

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A Vale está confiante de que os cerca de US$ 6 bilhões provisionados representam a totalidade das despesas futuras relacionadas a Brumadinho, o que, para analistas, aumenta a visibilidade frente às obrigações financeiras e reduz de forma importante uma fonte de incerteza.

“Além disso notamos que, nos últimos meses, a Vale também alcançou importantes marcos em termos de retomada de operações, como de Brucutu e Vargem Grande, atenuando parcialmente as preocupações relacionadas ao desempenho operacional da empresa”, avalia o Itaú BBA. 

A XP aponta ainda que vê o segundo trimestre como de transição, marcado pela normalização das operações e definição da maioria das provisões, o que deve permitir que as ações da Vale voltem gradualmente a negociar com base em fundamentos.

Desta forma, os analistas possuem uma visão bastante positiva para o papel, o que guia a recomendação de compra de 10 das 12 casas de análise consultadas pela Bloomberg, enquanto 2 possuem recomendação para manter o ativo VALE3. 

Olhando mais para frente, a expectativa fica agora para os dividendos, com os analistas do Itaú BBA e do Bradesco BBI avaliando que o pagamento dos proventos poderá ser retomado em breve.

De acordo com o Itaú BBA, a Vale poderia considerar a retomada do pagamento de dividendos já no quarto trimestre, “em vista das fortes perspectivas de geração de caixa para o segundo semestre e da ineficiente estrutura de capital até o final do ano”. Os dividendos também poderão ser retomados se as negociações e acordos que envolvem os acionistas da companhia continuarem avançando, apontaram os analistas do banco. 

Sobre este assunto, a gestão da mineradora adotou um tom bastante cauteloso, ao menos no curto prazo, durante a teleconferência de resultados com analistas, segundo apontou o Bradesco BBI. “Contudo, achamos que a Vale invariavelmente pagará dividendos significativos em 2020”, destaca a equipe de análise, que mantém recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os ADRs (American Depositary Receipts) da companhia, com preço-alvo de US$ 18.

Durante a tele, os diretores voltaram a mostrar confiança de que estão perto do valor total de provisões com Brumadinho. Além disso, as operações da Vale estão gradualmente se normalizando, com uma taxa de produção anual atual de 345 milhões de toneladas de minério de ferro, provavelmente chegando a 350 milhões a 360 milhões de toneladas em 2020. Com isso, os custos também devem voltar a ficar abaixo de US$ 15 a tonelada. 

Assim, após a tragédia de Brumadinho, os analistas veem as operações da Vale perto da normalização, levando a um horizonte mais positivo para os ativos.