Sócio de consultoria explica por que não comprar a “boa notícia” que fez a JBS disparar hoje

Head de consultoria diz que problemas da companhia não se limitam à governança
(Bloomberg)
(Bloomberg)

Publicidade

SÃO PAULO – As ações da JBS (JBSS3) chegaram a disparar até 6% na Bovespa nesta segunda-feira (8), fechando com alta de 2,45% a R$ 11,31. E a notícia que foi o gatilho para uma disparada tão relevante é inequívoca: a empresa informou na sexta-feira (5) que protocolou na SEC (Securities and Exchange Commission, a CVM dos Estados Unidos) o pedido para listar a JBS Foods International Designated Activity Company (JBSFI) na Nyse, a Bolsa da Valores de Nova York. Segundo o BTG Pactual, esse é o primeiro passo para completar a reestruturação global da companhia.

A ideia é segregar todo o negócio internacional e a Seara (cerca de 85% da receita estimada de 2016), criando uma nova entidade que será listada na NYSE com BDRs (Brazilian Depositary Receipts) no Brasil. A JBSS3 continuaria listada, mas somente com o negócio de bovinos Brasil nesta estrutura. Assim, os atuais acionistas de JBSS3 receberiam ações JBS Foods International numa base pro-rata. Os atuais controladores da JBS irão trocar (parte ou toda) a posição que hoje tem na JBS Brasil em ações da JBS Internacional em um ratio que será determinado depois de 20 dias de negócios da JBSFI.

Segundo o head de mercado de capitais da Eleven Financial Research, Adeodato Volpi Neto, essa mudança, junto com algumas notícias positivas para o setor frigorífico em geral, é o grande vetor da valorização das JBSS3 hoje, mas isso não tem nada a ver com a operação da empresa em si. “Grande parte dos riscos relacionados à JBS estão vinculados a política. O que o mercado compreende é que ao expor-se às regras internacionais de governança, que são mais rígidas, a companhia prova que está menos vulnerável a esse tipo de risco”, avalia. 

Continua depois da publicidade

Ou seja, não faria sentido para uma empresa debilitada por um escândalo de corrupção se abrir para um mercado muito mais rigoroso como o dos EUA se não houvesse certeza por parte dos administradores de que ela não terá problemas com as regras de lá. 

Por outro lado…
Contudo, isso não significa que é hora de comprar os papéis da empresa e que todos os problemas acabaram. Segundo Volpi Neto, a JBS parece uma ação cara atualmente, com um múltiplo preço da ação dividido por lucro por ação (P/L) em 75 vezes. “É uma demonstração de confiança, mas o mercado não deveria precificar isso já. Eu esperaria um pouco para ver como essa questão se desenvolve”, diz o head da Eleven. 

Para ele, o movimento feito pelo frigorífico não é rápido e nem simples, e governança não é o único problema da companhia. “O resultado mais positivo que ela teve nos últimos trimestres foi com uma série de derivativos que ela usou para operar contra o real. A alavancagem da JBS [atualmente na casa de 3,7 vezes o múltiplo dívida líquida dividido pelo Ebitda] me preocupa e os múltiplos me preocupam”, explica.

Além disso, ele lembra que a marca Seara tem ganhado participação no mercado com uma política de preços bem agressiva. Na prática: ganhando no giro e não na margem. Nesse caso, expandir a produção exigiria um grande investimento, em novas fábricas, por exemplo, algo que não é fácil quando se tem o perfil de endividamento que a companhia tem, nem com a situação em que o Brasil está. “Eles estão fazendo uma expansão de negócio sem ter uma capacidade instalada para se apoiar”, conclui Volpi Neto.