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Sem injeções: vacina em spray desenvolvida pela USP pode ser aposta brasileira contra Covid-19

De acordo com a USP, para garantir a imunização, serão necessárias a aplicação de quatro doses – duas em cada narina, com intervalo de 15 dias

(Polina Tankilevitch/Pexel)

SÃO PAULO – Enquanto o mundo corre contra o tempo para conseguir uma vacina contra o novo coronavírus, pesquisadores da Faculdade de Medicina e Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) apostam em um projeto de uma vacina sem agulhas ou injeções, mas em spray, com aplicação nasal.

O objetivo da aplicação pelas vias nasais é induzir uma resposta mais rápida do organismo ao vírus, uma vez que a aplicação intranasal permite que a vacina chegue nas vias aéreas superiores e nos pulmões, o que faz com que o sistema imunológico atue nessas áreas que podem ser mais comprometidas pela infecção de forma mais intensa.

O modelo de imunização, que já era testado em camundongos contra hepatite B, foi redirecionado para tentar frear a disseminação do SarS-Cov-2, vírus causador da Covid-19.

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Como explicou Marco Antonio Stephano, médico e coordenador da equipe de pesquisadores da USP, o medicamento foi desenvolvido a partir de uma nanopartícula de uma substância natural. E, dentro dela, foi colocada uma proteína do vírus.

A expectativa do grupo é que o medicamento induza o corpo a produzir a IgA secretora – anticorpos presentes na saliva, na lágrima, no colostro e em superfícies do trato respiratório, intestino e útero, que podem auxiliar no combate à covid-19.

“Além de inibir a entrada do patógeno na célula, a vacina impedirá a colonização deles no local da aplicação”, explicou Stephano em entrevista ao Jornal da USP.

De acordo com a USP, para garantir a imunização, serão necessárias a aplicação de quatro doses – duas em cada narina, com intervalo de 15 dias. Os pesquisadores também estimam que o produto seja repassado ao público a um custo de R$ 100.

Também estão participando da pesquisa virologistas e imunologistas do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, especialistas em nanotecnologia do Instituto de Química da USP, pesquisadores da Plataforma Científica Pasteur-USP, e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Porém, é importante ressaltar que essa vacina brasileira ainda está na fase de testagem pré-clínica. Isso significa que os testes das fases 1 e 2 ainda não começaram.

Segundo os pesquisadores, a primeira fase de avaliações clínicas deve ser iniciada até o fim de novembro. Ou seja, ainda devemos esperar alguns meses para que os testes em seres humanos comecem efetivamente. A estimativa é que a vacina possa sair ainda em 2021, caso todos os próximos testes sejam bem sucedidos. Em uma reportagem recente, o InfoMoney explicou o caminho percorrido pelas vacinas para que elas cheguem à população.

Etapas da produção de uma vacina

Depois que uma vacina é desenvolvida, o teste de eficácia do medicamento se divide em duas grandes etapas. A primeira delas é a pré-clinica, na qual são realizados testes em animais para comprovação dos dados obtidos em experimentações in vitro. E a segunda é a etapa dos testes clínicos em seres humanos, que é subdividida em três fases.

A primeira testa o medicamento em um menor número de voluntários (entre 20 e 80). Na segunda, esse número já chega a centenas de testados. Já a última etapa do teste clínico – a fase três – testa a eficácia do medicamento em um maior contingente de pessoas, que chega na casa dos milhares. Passada essa fase, a vacina é aprovada e pode ser produzida em larga escala.

Atualmente, a OMS aponta que 139 vacinas estão em desenvolvimento. Outras 26 já estão na etapa de testes clínicos, sendo seis delas na fase três. Dessas seis vacinas em fase final, duas estão sendo testadas no Brasil, a da Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca e a da chinesa Sinovac.

Ainda que a vacina spray da USP esteja em fases incipientes, seu desenvolvimento é um passo importante para que o Brasil caminhe para uma produção autossuficiente no futuro. Em outra reportagem, o InfoMoney conversou com especialista da saúde para entender os caminhos e processos para que uma vacina seja produzida no Brasil.

Vacinas em teste no Brasil

Das quatro vacinas contra a Covid-19 testadas no país, três estão na fase três e a quarta está esperando a aprovação para entrar na última fase também.

A vacina da Oxford, em parceria com a AstraZeneza, a vacina da chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, também chamada de CoronaVac, e a vacina da americana Pfizer em parceria com a alemã BioNTech são as que estão na fase três. Já a vacina da chinesa Sinopharm, em parceria com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), deve realizar a solicitação para iniciar os estudos de imunização na próxima semana.

Segundo o Ministério da Saúde, o acordo de transferência de tecnologia entre a Fiocruz e a vacina da Oxford e AstraZeneca prevê a disponibilização de 15 milhões de doses para o Brasil até dezembro, e a expectativa é que esse primeiro lote seja liberado em janeiro do ano que vem.

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Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, afirmou que o acordo de transferência de tecnologia da chinesa Sinovac para o instituto prevê um envio de 30 milhões de doses da vacina contra a Covid-19. O diretor acredita que a vacina pode estar pronta para o registro ainda em outubro, com a disponibilização ocorrendo em janeiro de 2021.

“Todos os processos de controle de qualidade e validação já se iniciaram. A grande pergunta é se estará registrada e aprovada pelo estudo clínico e poderá ser utilizada. Sou muito otimista. Acho que um prazo razoável seria janeiro de 2021, dado o desempenho até o presente momento”, afirmou o diretor em audiência pública virtual.

Sobre a CoronaVac, Covas disse que o Estado de São Paulo também receberá 15 milhões de doses de vacina chinesa. “A vacina estará disponível aqui no Butantan já em outubro. Nesse mês, receberemos cinco milhões de doses. Em novembro, mais cinco milhões e, em dezembro, mais cinco milhões. Essas doses já estão sendo produzidas lá na China, então no fim deste ano teremos 15 milhões de doses disponíveis aqui”, declarou o diretor em entrevista à Globo News.

Seguindo a linha de otimismo do diretor, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que é possível que a população brasileira esteja totalmente vacinada contra o novo coronavírus até fevereiro de 2021. Segundo ele, caso necessário, o Instituto Butantan pode ajudar na produção de outras vacinas que se comprovarem seguras, além da chinesa, como a de Oxford. “Se tiver alguma dificuldade da Fiocruz [com a vacina da Oxford e AstraZeneca], poderemos ajudar na produção da de Oxford [com o Instituto Butantan]”, afirmou o governador.

A vacina desenvolvida pela americana Pfizer em parceria com a BioNtech começou a realizar sua etapa de testes clínicos no Brasil no começo de agosto. De acordo com Márjori Dulcine, diretora médica da Pfizer no Brasil, a expectativa é que em outubro, já com os resultados da fase três em mãos, a vacina possa ser apresentada às autoridades.

A meta da Pfizer – que já mobilizou suas cinco plantas fabris para se preparar para produção do medicamento – é produzir 100 milhões de doses ainda este ano e um adicional de 1,3 bilhão em 2021.

Já sobre a vacina chinesa da Sinopharm, falta ainda os responsáveis pelos ensaios clínicos enviarem um pedido à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para realizar os estudos de imunização no país. De acordo com Jorge Callado, diretor do Tecpar, o acordo da Sinopharm com o governo do Paraná também prevê a transferência de tecnologia para produção própria, caso a vacina seja aprovada para uso.

“Nesse estágio da parceria estamos focados na realização dos estudos clínicos em fase três e aguardando os resultados da testagem no Brasil. Vencida a etapa da fase três, iniciaremos um novo protocolo com a empresa Sinopharm, para tratarmos da questão da produção”, afirmou Callado, em entrevista à agência de notícias Reuters.

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Ainda no Paraná, o governo de Ratinho Jr. (PSD) se reuniu nesta quarta-feira (12) com representantes de Moscou para fechar uma parceria para obter a vacina russa.

Segundo informou o governo paranaense, o acordo é uma espécie de “protocolo de intenções” para que a vacina eventualmente seja testada no estado e, quem sabe, produzida também. Entretanto, tudo precisa ser referendado pela Anvisa, que também compartilha das dúvidas da OMS sobre o agente imunizador anunciado por Putin.

(Com Agência Brasil)

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