Mudanças são necessárias

Salão do automóvel de SP: custo e tecnologia podem inviabilizar evento de uma vez por todas?

Organizadora do evento se posiciona sobre adiamento e garante que haverá uma edição reformulada em 2021

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SÃO PAULO – O Salão do Automóvel de São Paulo foi adiado para 2021 após cerca de 15 montadoras anunciarem que não participariam do evento neste ano.

Entre os principais motivos para a desistência de tantas empresas em um evento tão tradicional estão a falta de custo-benefício e a concorrência da Consumer Electronics Show (CES), a maior feira de tecnologia do mundo, que acontece anualmente em Las Vegas, no EUA, de acordo com Raphael Galante, economista que trabalha no setor automotivo há 15 anos e é consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.

“Sim, hoje o evento concorrente do salão do automóvel é uma feira de tecnologia. A cada ano que passa, mais montadoras querem expor seus produtos na CES. Isso porque o consumidor de hoje busca mobilidade, conectividade e experiência. O salão do automóvel não tem esse foco. Na prática, o carro fica exposto e parado. Por isso, o modelo do evento foi se degradando rapidamente. E não é exclusividade ou um erro de organização no Brasil, a tendência é mundial”, explica.

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O tradicional Salão do Automóvel de Detroit, nos EUA, também sentiu os efeitos.

“O evento acontecia geralmente em janeiro – mesmo período da CES. Mas neste ano acontecerá em junho para evitar a concorrência. E Detroit ainda tem outro agravante: o tempo. No início do ano é muito frio e tem muita neve. A organização teve que se mexer para tentar não perder o público e clientes. O resultado só saberemos mais para frente”, explica Galante.

O economista também acredita que a organizadora do salão de São Paulo, a Reed Exhibitions, demorou para enxergar as mudanças.”O formato proposto foi um sucesso nos últimos anos, mas não será o suficiente para manter o evento daqui para frente. Precisa mudar urgentemente”, afirma.

Já Em termos de custo-benefício, o economista explica que todas as montadoras fazem cálculos para avaliar a viabilidade e retorno ao participar do evento.

“Muitas vezes, apenas não compensa investir milhões de reais para não ter assertividade. E as fabricantes de luxo são ainda mais impactadas”, afirma.

“A BMW, por exemplo, faz em média um investimento de R$ 20 milhões no salão para ter cerca de 300 mil visitantes em seu estande. No entanto, a maioria dessas pessoas não são compradoras da marca são pessoas curiosas e não é o público-alvo. Ou seja, quando o comprador do BMW chega no salão, não tem um atendimento exclusivo que espera e deixa de ir. Então as montadoras estão preferindo gastar menos e acertar mais. Eventos mais intimistas focados no seu público principal estão sendo mais frequentes”, complementa.

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Até empresas com tickets médios mais baixos, como Honda, Hyundai e Toyota também fazem eventos mais intimistas com o mesmo objetivo: gastar menos dinheiro e ter mais assertividade.

Autocrítica

Luiz Carlos Moraes, Presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), reconhece que o evento precisa de uma reformulação.

“O Salão do Automóvel é um evento que precisa evoluir e refletir o momento de disrupção tecnológica que nossa indústria está vivendo. Em conjunto com a Reed, tomamos a decisão de adiar a edição do Salão de 2020 para reduzir custos e termos tempo de avaliar novos formatos. A revisão do Salão não é um movimento local, está acontecendo em todos os países do mundo e pelos mesmos motivos”, explicou durante a coletiva de imprensa realizada em São Paulo na manhã desta sexta-feira (6).

Cláudio Della Nina, Presidente da organizadora do evento, garante que haverá uma mudança para a próxima edição.

“A Reed Exhibitions possui o grande desafio de propor um novo Salão do Automóvel alinhado com as expectativas do público visitante e com a nova realidade das montadoras. Estamos focados na solução deste desafio e comprometidos com a entrega da melhor edição do Salão do Automóvel em 2021″, afirmou também durante a coletiva desta manhã.

No entanto, não há detalhes ainda sobre como será o novo projeto: tamanho, datas, preços e etc.

A expectativa do mercado, segundo Galante, é que o evento seja menor e a Reed tenha tempo para convencer mais montadoras a fazer o investimento para o ano que vem.

O InfoMoney solicitou uma entrevista com um porta-voz da Reed para entender mais detalhes sobre o adiamento do evento, mas a empresa negou o pedido.

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A Toyota, uma das desistentes deste ano, informou que a decisão de não participar é referente apenas a 2020 e está aberta a ouvir as novas propostas para o ano que vem. Como já havia informado, a montadora vai se concentrar em “ações de marketing e comunicação voltadas à mobilidade, tecnologia e experiência” neste ano.

A Volvo, que não participa do salão do automóvel de São Paulo desde 2014, deve manter seu posicionamento independentemente das novidades oferecidas para o ano que vem. “É um direcionamento global e seguimos também no Brasil. Existe a chance de avaliar uma possível participação se a organização oferecer uma proposta financeira muito boa ou alguma novidade fora do comum, se não vamos manter a posição de ausência no evento”, informou a assessoria da fabricante.

A Chevrolet e a Jaguar, fabricantes que também já tinham informado que não participariam do evento neste ano, foram contatadas para entender se a mudança de formato deixaria o salão do automóvel mais atrativo novamente. Até a publicação desta matéria, as empresas não se posicionaram.

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