Publicidade
SÃO PAULO – Ao fim do dia 29 de julho de 2011, a ação ordinária da Marfrig (MRFG3) valia R$ 15,20. Atravessando um período de turbulência externa, com problemas de liquidação dos papéis por parte de um acionista com participação relevante na empresa, esse preço despencou para R$ 7,69 ao término do pregão de 31 de agosto. Trata-se de uma perda de praticamente metade do valor de mercado em um mês.
Desde então, as ações do frigorífico nunca mais voltaram para a faixa dos R$ 15. Mas, desde o início do ano, os ativos MRFG3 já acumulam um avanço de 34,54% – levando-se em conta o fechamento do último dia 20 de março. Mesmo assim, cotados a R$ 11,49, analistas acreditam que a recuperação ainda caminha a passos lentos não por causa de fatores alheios, mas relacionados à operação da companhia. Para chegar àquele topo, a valorização teria que ser de 32,29%.
Por exemplo, um grande fator que o mercado olha quando pensa no investimento em MRFG3 é a alavancagem. Compromissada com a redução desse indicador financeiro, a Marfrig tenta desinvestir em alguns ativos, e tem melhorado, também, sua eficiência, para comportar melhores margens. Mas apenas a evolução desses processos deve mostrar se o papel pode se manter no nível pré-GWI.
Continua depois da publicidade
Ação já está precificada
Para chegar ao patamar anterior à fuga do fundo GWI, provocada pela liquidação das ações em custódia da Socopa por terem sido usadas como garantia, os avanços conseguidos podem não ser suficientes. “Por conta das expectativas de melhora, o papel se valorizou, mas já está bem precificado”, afirma Cauê Pinheiro, da SLW Corretora. “Acredito na companhia, mas esperamos sinais mais evidentes de comprometimento com desalavancagem”, diz Gustavo Lomonaco, analista da XP Investimentos.
| Evolução do indicador dívida líquida/Ebitda | |||
| 4T10 | 1T11 | 2T11 | 3T11 |
| 3,56x | 3,59x | 3,90x | 4,04x |
Portanto, para que alcance aquele topo antes do início de agosto, e se mantenha lá, os próximos resultados devem mostrar novos sinais de desalavancagem, principalmente. Os dois acreditam em um retorno apenas no médio prazo. As metas da empresa são alcançar uma relação entre dívida líquida e Ebitda (geração operacional de caixa) de 2,5 vezes, sendo que atualmente passa perto das 4 vezes.
Lomonaco, por exemplo, já identifica na ação uma volatilidade por conta dessa apreensão dos investidores. Ela sobe forte em dias de noticiário positivo, e também tem quedas relevantes quando o contrário ocorre. “Todos esperam que eles entreguem os resultados, e, se isso acontecer, ela vai continuar subindo”, finaliza o analista.
Continua depois da publicidade
Impactada por aquisições
Desde 2008, a empresa começou um processo de expansão através de um grande número de aquisições. Naquele ano, fechou com a Seara. No ano seguinte, foi a vez da Keystone Foods, e da O’Kane Poultry, tentando aumentar sua presença no exterior para além da participação de mercado já detida pela CDB Foods e pela Osi, compradas em 2008.
No total, a Marfrig gastou algo em torno de R$ 5,7 bilhões, em cotação cambial atualizada, nesse período. Nessa conta, está incluso também o acordo de troca de ativos com a Brasil Foods (BRFS3), que alienou ao frigorífico parte da operação da Sadia, após exigência do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Para conseguir financiar esse processo, em meio a baixas margens que são históricas no setor, a companhia começou a se alavancar financeiramente, com emissões de papéis da dívida e outros movimentos. A relação entre o endividamento líquido e o Ebitda (geração operacional de caixa) está perto de 4 vezes, sendo que o limite de covenants é de 4,5 vezes.
Continua depois da publicidade
| Aquisições realizadas pela Marfrig | ||||
| Ano | Empresa adquirida | Valor da aquisição* | ||
| 2008 | CDB Meats | R$ 21,7 milhões | ||
| 2008 | Osi | R$ 1,2 bilhão | ||
| 2009 | Seara | R$ 1,6 bilhão | ||
| 2010 | Keystone Foods | R$ 2,3 bilhões | ||
| 2010 | Ativos da Sadia | R$ 538 milhões | ||
|
*Valores transformados levando em conta a cotação de |
||||
Percebendo que essa relação poderia se tornar insustentável, ela iniciou uma reestruturação que envolve corte de gastos para melhorar a geração de caixa e redução do endividamento, entre outras maneiras, através de venda de ativos. As aquisições na época foram tantas que Lomonaco, da XP, ressalta que a capacidade utilizada pela empresa atualmente gira em torno de apenas 60%.
Estratégia de desinvestimentos
Entre os negócios já alienados, está a divisão de logística da própria Keystone. O objetivo é focar na operação principal da companhia, que é exatamente a produção de carnes. Ela também tentou repassar à JSL (JSLG3) outros ativos de distribuição relacionados a transporte de refrigerados, mas a transação acabou não ocorrendo. Mas Pinheiro, da SLW, acredita que a Marfrig dá sinais de que vai continuar buscando outro comprador, o que é positivo.
Uma outra alternativa, já adotada por ela, é conseguir mudar sua estrutura de governança corporativa. Ela separou as operações da Seara Foods e ajustou toda a holding para focar em sinergias e potencializar o efeito de suas estratégias.
Continua depois da publicidade
Mas as medidas não parecem surtir o efeito desejado. Se no primeiro trimestre de 2011 a margem Ebitda era de 6,4%, e a dívida sobre a geração de caixa era de 3,5x, no terceiro período os indicadores ficaram em 7,8% e 4,0x, respectivamente – mas muito mais por conta do efeito cambial.
Entenda a evolução dos preços das ações da Marfrig:
(clique para ampliar)