Cortar ou produzir?

Próxima do ‘break even’, a gigante do minério Vale enfrenta dilema da produção

Recuperação dos últimos dias do minério de ferro não apagam queda de 30% sobre os preços praticados no fim de 2014 e começa a acender sinal amarelo para as mineradoras

Mineração da Vale
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SÃO PAULO – As mineradoras mundiais têm pela frente um dos seus maiores dilemas de 2015: o que fazer com suas produções em um ambiente de excesso de oferta e queda nos preços do minério de ferro, cuja perspectiva segue cada vez pior? Olhando pelo ponto de vista do equilíbrio entre o preço e o custo, o mais sensato seria adotar um corte na produção para mitigar efeitos mais acentuados sobre os preços. Pois bem, essa seria a resposta que o mercado queria, mas não é bem a linha que vem sendo adotada pelas gigantes do setor.

Ontem, a Vale parecia que ia dar uma passo nesse sentido. A companhia anunciou que iria retirar 25 milhões de toneladas de sua oferta de minério a partir deste mês, segundo o diretor da empresa do negócio de ferrosos, Peter Poppinga. Um alívio depois que suas principais concorrentes australianas – as gigantes Rio Tinto e BHP Billiton – anunciaram aumento de suas produções de minério de baixo custo, mesmo que a demanda fique estagnada na China, estimulando um excesso de oferta. A notícia fez as ações ordinárias da Vale dispararem 8% ontem, enquanto as preferenciais subiram 6,6%. 

Mas parece que a leitura do mercado foi equivocada. Pouco depois, a própria mineradora afirmou que manterá sua oferta de 340 milhões de toneladas de ferro esse ano. O que a Vale fez foi substituir o minério de alta custo/baixa qualidade por de menor custo/maior qualidade, explicou o Morgan Stanley. A decisão pode ter até um impacto positivo sobre o Ebitda/tonelada, mas terá um efeito nulo ou até negativo sobre os preços do minério, comentou o banco. 

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A expectativa da mineradora para o ano é que seu “break even” (equilibrio entre o custo com a produção e receita) caía para faixa entre US$ 37 e US$ 41 a tonelada esse ano, mas ainda assim pode não ser razão para trazer grande animação ao mercado. No primeiro trimestre, o “break even” da mineradora foi de US$ 43 a tonelada, ou apenas 3,7% acima da mínima recente, quando a commodity bateu na última quarta-feira US$ 44,59 a tonelada, , segundo cotação da commodity entregue no porto de Qingdao, na China

O minério até apresentou leve recuperação nos últimos dias, mas não suficiente para apagar a queda de 9,34% na semana passada e tão pouco para varrer a queda de 30% sobre os preços praticados no fim de 2014. E, aliado a isso, a corrente daqueles pessimistas sobre a commodity não é pequena. Os principais bancos mundiais, como o Citigroup, seguem “bearish” com o minério, prevendo que os preços vão cair para baixo de US$ 40 a tonelada neste ano devido a oferta aquecida. O HSBC, enquanto isso, espera que os preços fiquem em torno de US$ 45 a tonelada durante o terceiro trimestre.

Na quarta-feira, o BTG Pactual disse que o mercado de minério de ferro entrou em “modo pânico”. “Não conseguimos nos lembrar de uma semana mais desastrosa para a negociação de minério de ferro”, diz BTG Pactual em relatório. Preços à vista do minério estão sob pressão com excesso de oferta. Segundo os analistas, há “muito” minério de ferro à caminho da China, o que pode pressionar ainda mais os preços, enquanto as tentativas de estímulo da China têm se mostrado “ineficientes”. Já um economista independente. A queda do minério de ferro vista nas últimas semanas é só o começo, seu declínio se prolongará para a casa dos US$ 30 a tonelada neste ano, disse Andy Xie, que previu um colapso dos preços em fevereiro. 

Como maior produtora da commodity do mundo, a Vale é uma das responsáveis pelo excesso global de oferta existente hoje e que, consequentemente, ajuda a puxar os preços para baixo. E ela não está sozinha nessa. Rio Tinto e BHP Billiton seguem o mesmo caminho. “A BHP, a Rio Tinto e a Vale não vão diminuir a produção porque não faz sentido. Porque você iria querer diminuir a produção e deixar que os produtores de alto custo se integrassem à cadeia?”, disse o economista independente Andy Xie. “No longo prazo precisamos apenas de produtores de baixo custo”, disse. “Todos os produtores marginais que apareceram por causa dos preços altos deverão desaparecer”.