Mineradoras

Por que o minério está despencando 10% e a Vale cai “só” 3%?

Notadamente, os papéis da Vale apresentam forte correlação com o desempenho do minério de ferro na bolsa chinesa. Porém, nem sempre esse casamento é marcado por estrita fidelidade

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* Atualização: às 15h57 (horário de Brasília), as ações da Vale acumulavam perdas de 4,68% para as ordinárias (cotadas a R$ 17,09 na Bovespa) e 3,96% para as preferenciais classe A (cotadas a R$ 14,55 na Bovespa).

SÃO PAULO – Um dia de fortes incertezas no mercado global e desconfiança sobre o futuro nível de demanda chinesa por matérias-primas derruba a cotação do minério de ferro pelo décimo dia seguido. A queda de 10% nos preços da commodity entregue no porto de Qingdao, na China, a fez atingir seu menor patamar desde 2009. O pessimismo gerado pela iminente desaceleração do gigante asiático e os efeitos imprevisíveis da crise na Grécia é acompanhado pelas ações da Vale (VALE3; VALE5) nesta quarta-feira (8). A intensidade, porém, não é a mesma. Conforme cotação das 12h15, a mineradora acumulava perdas de 3,74% e 3,17% respectivamente para suas ações ordinárias e preferenciais classe A, cotadas a R$ 17,26 e R$ 14,67, na mesma ordem.

Notadamente, os papéis da Vale apresentam forte correlação com o desempenho do minério de ferro na bolsa chinesa. Porém, nem sempre esse casamento é marcado por estrita fidelidade. Em estudo publicado no InfoMoney, o analista independente Pedro Galdi, dono do blog WhatsCall, montou uma regressão linear com dados históricos, ao longo de três anos e meio, das duas variáveis – a cotação do minério de ferro e o preço do ADR da ação PNA da mineradora em Nova York – para avaliar as especificidades da relação. Na pesquisa, Galdi mostra que, por diversas vezes, descompassos ocorrem, mas o nível de correlação não pode ser desconsiderado.

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Do começo do ano para cá, o preço do minério de ferro apresenta queda acumulada na casa dos 37%, enquanto os papéis ordinários da Vale, 16%, e os preferenciais classe A, 19%. No entanto, de 5 de maio para cá, enquanto a commodity somou desvalorização de 24%, as ações VALE3 recuaram 34%, contra 26% da VALE5.

Esse pregão pode ser um desses casos. Em conversa com esta reportagem, o analista Pedro Brugger, da Leme Investimentos, que confessa ter esperado por uma desvalorização mais forte dos ativos mineradora nesta sessão, afirmou que não é aconselhável achar que os papéis VALE3 e VALE5 sempre cairão na mesma proporção que a commodity, também pelo fato de o papel carregar outra série de variáveis que influem nas expectativas futuras do mercado.

Já Ricardo Kim, analista-chefe da XP Investimentos, vê mais espaço para novos mergulhos. “A Vale está sendo negociada a 7x EV/Ebitda (Valor de mercado da companhia/Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), é mais ou menos o que suas peers globais estão sendo negociadas (ela sempre teve um desconto). O investidor está pagando mais pelo mesmo tipo de lucro ou caixa operacional”, argumentou durante o programa XP Connection, transmitido no InfoMoney. Sua recomendação a clientes que ainda têm os papéis em carteira é de que se desfaça posição ou, caso se opte pela manutenção no longo prazo, algumas medidas preventivas sejam tomadas, como a de uma “fence” de derivativos para proteger a operação.

Uma das hipóteses levantadas por Brugger para explicar o descasamento das ações da mineradora e cotações do minério desta sessão é o retrospecto recente das ações da Vale na Bovespa. “A companhia vem em uma dinâmica ruim nos últimos meses. Caiu muito. Boa parte da queda recente foi por conta da desaceleração na China e os impactos sobre os preços do minério”, explica. Pontualmente, o aumento dos estoques da commodity na China tem pressionado as cotações para baixo, já que mostra uma oferta crescente para uma demanda que caminha mais devagar. Porém, mais que isso, as preocupações sobre a formação de uma bolha no sistema financeiro local também alimentam a cautela dos investidores, que temem mais impactos sobre o setor de mineração.

A China, entretanto, não é a única a reduzir o apetite por riscos do mercado neste segmento. Como tem sido para a maioria das outras commodities, as incertezas geradas pela crise grega motivam movimentos de maior cautela. Depois de o país não honrar com seus pagamentos ao FMI, a vitória do “não” em plebiscito sobre uma nova rodada de estímulos em troca de mais austeridade torna a permanência da Grécia na Zona do Euro. O mercado tem se precavido enquanto o desfecho da novela não se desenha de maneira mais clara. Para o minério, os efeitos são muito negativos, tendo em vista todo o cenário em que o segmento está inserido.