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Por que o balanço positivo da Petrobras não deve se repetir nos próximos trimestres

Os destaques positivos no resultado da estatal, como o bom resultado operacional, não deve se repetir; preço dos combustíveis é um dos motivos

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SÃO PAULO – Apesar da Petrobras (PETR3;PETR4) ter entregue números que bateram as expectativas do mercado com relação ao Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) e sobre o lucro líquido da companhia. Contudo, após abrirem em alta na última segunda-feira (18), as ações da estatal fecharam com queda, sendo que um dos motivos apontados foi o menor otimismo com o futuro da estatal e a percepção de que o resultado foi apenas sazonal. Mas por que foi essa a percepção do mercado?

Conforme destaca a XP Investimentos, durante a teleconferência, a companhia destacou que o segmento abastecimento (diesel e gasolina) foi responsável pela maior parte do resultado operacional positivo. Isso porque entre janeiro e fevereiro os preços de combustíveis no Brasil chegaram a ter um prêmio de até 33%. “E isso, não acreditamos que se repita. Hoje a companhia vende combustíveis pelo mesmo preço do mercado internacional, sem prêmio”, destaca a equipe de análise da corretora.

Eles destacam que a Petrobras pode voltar a vender os combustíveis com prêmio em relação aos preços internacionais só se elevarem novamente os preços de combustíveis. A XP reforça, contudo, que esta perspectiva era difícil, pois cada 10% de elevação na gasolina, impacta o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 0,37 ponto percentual.

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Um dos destaques positivos foi o bom resultado operacional da estatal, mas que também não deve ser repetido nos próximos trimestres, aponta a XP. O Ebitda veio em R$ 19,7 bilhões ante expectativa de R$ 17,5 bilhões decorrente, principalmente, dos maiores preços de combustíveis no primeiro trimestre. No dia 4 de novembro de 2014 houve aumento de gasolina e diesel. Esse segmento (abastecimento) saiu de um prejuízo de R$ 4,8 Bi no primeiro trimestre de 2014 para um lucro líquido de R$ 6,18 bilhões no mesmo período do ano passado. Assim, o resultado tão bom no segmento de abastecimento não irá se repetir se a companhia não aumentar o preço dos combustíveis, afirma a XP.

Salta aos olhos ainda a queda da relação entre a dívida líquida e o Ebitda de 4,77 vezes nos últimos três meses do ano passado para 3,86 vezes no primeiro trimestre. A dívida líquida da companhia saltou de R$ 282 bilhões no quarto trimestre de 2014 para R$ 332,4 bilhões no primeiro trimestre de 2015, enquanto o Ebitda foi anualizado e multiplicado por quatro vezes. 

A equipe de análise da XP destaca que discorda dessa conta, uma vez que é como se a companhia garantisse que o Ebitda do primeiro trimestre fosse o recorrente e o “mínimo garantido”. Porém, o Ebitda recorrente, sem a reversão de provisão e sem a venda de ativos, atingiu R$ 19,7 bilhões. Assim, mesmo que se utilizasse o Ebitda recorrente anualizado, a relação entre a dívida líquida e o Ebitda seria de 4,22 vezes, bem maior do que os 3,86 vezes apresentado.

Além disso, outro ponto a se destacar sobre o endividamento é de que a companhia não deve reportar um novo bom resultado operacional, também decorrente da alta de preços de combustíveis no período. 

Pontos principais da teleconferência
A XP Investimentos destaca três pontos principais da teleconferência de ontem da Petrobras, que seguem abaixo:

(a) Preços competitivos: segundo o diretor financeiro, Ivan Monteiro, diante da maior autonomia garantida pela equipe econômica, diferentemente do primeiro mandato, a empresa praticará preços competitivos, alinhados à variação externa. Porém, há ceticismo no mercado. “Será que teremos novos reajustes de preços, mesmo com o IPCA projetado em 8,3%? Cada 10% de aumento na gasolina impacta o IPCA em 0,37 ponto percentual. Outro ponto é que a presidente Dilma afirmou, quando da greve dos caminhoneiros, que não reajustaria o diesel por 6 meses”, destaca a equipe de análise da XP.

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(b) Endividamento: segue bastante elevado e consequentemente a empresa segue tendo fluxo de caixa negativo. Uma das questões é de até onde pode ir a redução de capex.

(c) Documento à SEC (CVM norte-americana): a companhia reconheceu que as dificuldades financeiras podem atrapalhar a continuidade do trabalho de exploração e produção no pré-sal, admitindo que poderá ter trabalho para garantir o investimento mínimo de 30% nos blocos pelo modelo de partilha. “A presidente Dilma aceitará modificar o modelo de partilha? Na semana passada ela admitiu que não haverá modificação e manteve também o discurso sobre o conteúdo local. O ideal é que fosse modificado, ou não teremos novas licitações no pré-sal, pois a companhia não tem caixa para isso”.

Em suma, o resultado foi acima do esperado, mesmo com eventos não recorrentes, como reversão de provisão no montante de R$ 1,295 bilhões de perdas do setor elétrico e também da venda de ativos. Porém, a relação entre dívida líquida e o Ebitda é ainda muito elevada. “A dívida líquida segue sendo um problema e não acreditamos que a companhia reporte bom resultado operacional, principalmente, na linha abastecimento, só e somente só, se elevar os preços de combustíveis novamente, pois os preços estão no mesmo patamar dos preços internacionais. Ou seja, não existe prêmio como o que ocorreu no primeiro trimestre de 2015”, conclui a corretora. E a dívida segue sendo o maior problema.