Pandemia mostrou que companhias precisam de propósito. Veja como criar e gerir uma empresa nesse cenário

Crise acelerou exigência entre funcionários, fornecedores e clientes para que companhias se posicionem. Veja como empresas podem encontrar propósito

Letícia Toledo

Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos
Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos

Publicidade

SÃO PAULO – Esvaziar escritórios, garantir infraestrutura para o trabalho remoto, estruturar o caixa para um cenário incerto. A crise do coronavírus trouxe demandas que muitos empreendedores nem sonhavam em ter de lidar em 2020. Entre elas, uma bastante intangível e complexa permanece sendo um desafio para 2021: a necessidade de ter um propósito.

Ao contrário das outras demandas, essa não pegou a todos desprevinidos. O que a pandemia fez foi acelerar uma crescente exigência — já observada por grandes marcas — entre funcionários, fornecedores e, principalmente, clientes para que companhias se posicionem e executem seus valores dentro e fora da organização.

“O propósito vinha cada vez mais sendo discutido nas empresas e o coronavírus acelerou esse processo. Hoje, para a empresa crescer, é preciso atrelar seus serviços e produtos a um proposito”, afirmou Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos, maior empresa de recrutamento e seleção da América Latina, em live do Do Zero ao Topo — marca de empreendedorismo do InfoMoney.

Continua depois da publicidade

Mas como empresas podem encontrar e definir seu propósito em um cenário de constantes mudanças? Para Sofia Esteves, tudo começa na figura do empreendedor.

“Se a empresa é nova e está sendo lançada, o empreendedor tem que olhar para o seu propósito de vida. É a partir do seu propósito particular que ele vai conseguir gerar as premissas do seu produto ou serviço”, disse.

“Se seu propósito é a qualidade, por exemplo, pode optar por desenvolver um atendimento mais humanizado na sua empresa. Se o propósito é entrega rápida e eficiente, o caminho pode ser um atendimento automatizado”, afirmou.

A implementação do propósito

Depois de definir e alinhar o propósito de acordo com a visão do(s) fundador(es), a implementação passa por buscar profissionais com aderência à cultura e ao propósito da companhia. “Mais importante do que o currículo profissional é olhar a história de vida dos indivíduos e se é aderente ou não à empresa”, disse Sofia Esteves.

A visão é compartilhada por Guilherme Benchimol, fundador da XP Inc. Em live recente do Do Zero ao Topo, o empreendedor ressaltou que, nas entrevistas que faz, busca entender as experiências que a pessoa teve em sua vida e se ela tem a obstinação que o propósito da XP Inc. requer. “O currículo às vezes pouco importa, o que conta nas entrevistas que faço até hoje é se a pessoa é obstinada”, afirmou.

Segundo Sofia Esteves, os profissionais também estão cada vez mais atentos ao propósito da empresa na hora de escolher um emprego.

Continua depois da publicidade

A Cia de Talentos faz uma pesquisa anual há quase duas décadas para entender os principais motivos que levam as pessoas a decidirem onde vão trabalhar. “Nos últimos quatro ou cinco anos o propósito sempre aparece entre os cinco principais motivos de escolha de uma empresa pra trabalhar”, afirmou.

“Por causa disso, a gente tem trabalhado com as empresas o que chamamos de “employee value proposition”, que é definir a proposta de valor que as empresas têm para seus colaboradores atuais, futuros colaboradores e também para toda a cadeia de stakeholders, como fornecedores, prestadores de serviços, acionistas e outros grupos.”

Além de buscar indivíduos que se identifiquem com o propósito, outro passo fundamental na implementação é transmitir nas ações e decisões da liderança o valores da companhia. Para isso, é ideal também que a comunicação da liderança seja clara e transparente.  “Quanto mais transparente eu for, menos ruído a cultura da empresa vai ter e mais eu vou engajar as pessoas no propósito”, disse Sofia.

Continua depois da publicidade

Segundo a empreendedora, um ganho que o coronavírus trouxe na cultura organizacional das empresas foi a comunicação direta de presidentes e diretores com 100% dos colaboradores, por meio de lives e videoconferências.

“É uma mudança que não vai voltar atrás. A hierarquia e a era do comando e controle acabou. Hoje, as empresas que estão prosperando são as que cocriam, que trabalham juntas. Isso faz toda a diferença. Você usa o potencial de todo mundo”, afirmou Sofia.

Como encontrar um propósito em uma empresa já em funcionamento?

Um estudo da consultoria Bain & Company sugere quatro passos para quem quer pensar ou repensar o propósito de sua companhia que já está em pleno funcionamento. O primeiro passo é estudar o que a organização aprendeu sobre si mesma durante a atual crise — destacando o que uniu os funcionários e os deixou orgulhosos da empresa.

Continua depois da publicidade

O segundo passo é formular uma declaração de propósito englobando o que a empresa, seus funcionários, seus clientes e sua comunidade em geral desejam apoiar e alcançar nos próximos anos.

Com a declaração bem formulada, é preciso comunicar e envolver os funcionários na concepção desse novo propósito. Adaptá-lo à realidade do negócio — incluindo os processos da empresa — é o quarto e último passo.

O grande erro na construção de um propósito

Segundo a Sofia Esteves, um dos maiores erros cometido por empreendedores na hora de definir um propósito é atrelá-lo apenas ao que outras pessoas querem ouvir. Neste caso, o propósito perde sua genuinidade e efeito — se transformando apenas em uma frase.

Continua depois da publicidade

“O que muitos não entendem é que o propósito é um processo lento. No curto prazo, o proposito é apenas um sonho. No médio prazo é o que eu olho e falo: ‘eu construí”, destacou Sofia. Confira a entrevista completa na live.

Letícia Toledo

Repórter especial do InfoMoney, cobre grandes empresas de capital aberto e fechado. É apresentadora e roteirista do podcast Do Zero ao Topo.