Bond centenário

Os investidores ficaram “loucos” ao comprar um título de 100 anos da Petrobras?

Sim, a Petrobras e o Brasil têm problemas, mas os investidores não agiram loucamente, conforme destaca o jornal britânico Financial Times

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SÃO PAULO – Na última semana, ganhou destaque a captação de US$ 2,5 bilhões da Petrobras (PETR3;PETR4), apesar do cenário de crise da companhia, com a Operação Lava Jato. E, mais ainda: os títulos têm vencimento de 100 anos. Sim, isso mesmo, vencimento em 2115.

Mas, porque será que os investidores globais fizeram a opção de investir nos títulos com vencimento em 100 anos, ainda mais se tratando de uma empresa que vem sendo manchete por conta dos escândalos de corrupção?

O jornal britânico Financial Times fez essa pergunta e destacou que muitos investidores estiveram interessados nos títulos da companhia, uma vez que a demanda foi maior que a oferta.

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E ressalta, títulos de um século não são algo sem precedentes: empresas da França e o governo do México já emitiram títulos com esse vencimento. A Petrobras, no entanto, ampliou ainda mais os limites dos mercados, que têm se expandindo rapidamente, permitindo que o conturbado grupo petrolífero conseguisse este financiamento.

Sem dúvida, essa operação também deixou muitos intrigados sobre o que essa operação nos diz sobre o sistema financeiro pós crise de 2007-2008.

“Uma conclusão errada seria que os investidores agiram loucamente. É verdade que a Petrobras tem problemas, assim como a economia do Brasil. Os títulos, entretanto, tiveram bons rendimentos de 8,45%. A operação se destaca em meio a um cenário de baixas taxas de juros globais e flexibilização monetária remodelando o mercado de dívida corporativa, quebrando o papel tradicional de que os títulos são alternativas supostamente mais seguras em relação às ações”, afirma o FT.

Segundo o jornal, investir em um título que não será resgatado até muito além do tempo de vida de um ser humano normal pode parecer implicar em pressupostos imprudentes sobre as chances de sobrevivência do emitente. A beleza da matemática do mercado obrigacionista, no entanto, significa que tais questões existenciais são irrelevantes quando devidamente considerados os pagamentos a serem feitos desde agora até o futuro, afirma o jornal.

Se, na última semana, um investidor comprou títulos da Petrobras com valor nominal de US$ 1.000 e com 8,45% de “taxa de desconto”, o valor presente do pagamento final em 2115 sobre o título – o retorno dos US$ 1.000 mais um cupom – seria de apenas 26 centavos. Então, se o título é resgatado eventualmente, não faz grande diferença.

Cálculos similares explicam porque o México poderia emitir títulos no valor de € 1,5 bilhão com vencimento em cem anos (embora alguns se questionem se a moeda única europeia continuará nesta década e quem dirá daqui a um século).

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O que importa para o desempenho dos títulos da Petrobras no curto prazo como negociáveis são as percepções de sua capacidade de crédito e as taxas de juros globais. Estas últimas poderiam elevar os rendimentos dos bonds – colocando os preços para baixo – mas a melhora nas “fortunas” da Petrobras trabalhariam na direção oposta, justificando rendimentos mais baixos e os preços dos títulos mais elevados.

Alerta para os papéis
E os títulos da Petrobras de um século podem ainda estar enviando sinais de alerta. Não ajudou a acalmar os temores sobre o aumento do endividamento das empresas dos mercados emergentes – e o risco de uma correção perturbadora se o Federal Reserve começar a aumentar as taxas de juros ainda este ano. “É um sinal de euforia”, adverte ao FT Alberto Gallo, diretor de pesquisa de crédito do Royal Bank of Scotland. “É um sinal claro de que o mercado se desconectou dos fundamentos macro e micro.”

Os títulos com vencimentos mais longos permitem às companhias de pensão e seguros a corresponder de forma mais adequada às suas responsabilidades futuras. Mas eles podem amplificar as oscilações do mercado; a matemática dos títulos mostra que pequenas mudanças nas taxas de juros produzem movimentos proporcionalmente maiores de preços dos títulos de prazo mais longo.

Os títulos de cem anos reforçam uma tendência: a proporção de novas emissões com prazos mais longos de 10 anos é a mais altoadesde 2007, segundo o JPMorgan.

Nos sell-offs que têm pontuado a atividade recente do mercado, os títulos têm aparecido agindo mais como ações. “Nós temos que ficar mais acostumados a pensar em títulos como ativos ‘de risco'”, diz Stephanie Flanders, estrategista-chefe de mercado para a Europa do JP Morgan Asset Management. “Quando você vê um bond com um rendimento elevado, você sabe que virá um risco particular junto”. 

“Se o interesse do investidor é compreensível, uma questão mais difícil é por que a Petrobras queria emitir dívida de 100 anos. A resposta é: porque ela podia. A maciça demanda de investidores deu uma oportunidade para entrar de volta ao mercado de capitais com uma emissão de títulos, aumentando a confiança e mostrando uma referência que as próximas emissões serão fáceis. Os títulos de prazo mais curto podem não estar muito mais baratos. Estes são tempos difíceis para a Petrobras, mas as condições financeiras globais estão em seu favor”, conclui o jornal.

Em coluna, a Reuters destacou que uma questão importante é entender que o título de 100 anos da Petrobras é só isso, um título, portanto expõe os compradores a um risco de grande duração. Quanto maior a duração de um título, ou maturidade, mais seu valor irá flutuar no ritmo do sobe e desce das taxas de juro. O valor de um título de dois anos irá subir ou descer 2% para cada ponto percentual de alteração nas taxas. Um título de cinco anos sofrerá uma alteração de preço de 5%.

Um título de 100 anos, portanto, é extremamente suscetível às alterações nas taxas de juro. Atualmente a matemática dos títulos atua nas duas direções, mas honestamente, mesmo com um rendimento atual de 8,45%, os riscos nos mercados globais, que determinam o preço do dinheiro no final das contas, com certeza não andam só em uma direção.

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“Teremos cem anos para ver como tudo isso transcorre, mas é provável que esta novidade um dia pareça uma relíquia de um mercado particularmente agressivo”, afirma a agência.