Open Care 5G: a aposta do Itaú, Deloitte e HC na medicina remota

O projeto Open Care 5G foi criado por um grupo de empresas para atacar o problema da falta de médicos e exames em regiões remotas do país.

Wesley Santana

Na primeira etapa, Open Care 5G viabiliza exames de ultrassonografia. Foto: Divulgação

Publicidade

Embora as grandes cidades brasileiras sejam cobertas por uma ampla rede de saúde, regiões mais remotas sofrem com a falta de médicos e exames. Visando atacar esse problema, em setembro, surgiu o projeto Open Care 5G, criado por um grupo de empresas de diferentes setores, encabeçado pela Deloitte e Hospital das Clínicas da USP.

A proposta é realizar exames, como de ultrassonografia, por meio de transmissão de som e imagem. Assim, uma mulher grávida na Amazônia, por exemplo, não precisaria viajar centenas de quilômetros para encontrar um médico. Outro profissional de saúde, como enfermeiro, poderia realizar o exame com a máquina portátil sob a orientação em tempo real de um profissional especialista.

Essa solução nasceu a partir de um seminário entre médicos do HC, em São Paulo, que discutia a adoção da tecnologia na rotina de diagnósticos. Em ocasião do leilão da frequência do 5G, alguns especialistas sugeriram cenários clínicos em que essa conexão de rede poderia ser útil.

Continua depois da publicidade

O 5G foi indicado neste contexto, porque ele atua em uma frequência onde a latência de rede é menor, ou seja, diminui o tempo de resposta em chamadas de voz e transmissões de vídeo. Um médico, então, consegue conduzir o profissional de saúde in loco com pouquíssimo tempo de atraso na comunicação.

“No primeiro momento, chegamos à conclusão de que o exame de ultrassom seria uma boa opção, porque tem um impacto grande ao mesmo tempo em que não é uma aplicação sofisticada”, detalha Marco Bergo, gerente do Núcleo de Inovação Tecnológica do HC.

O passo seguinte foi encontrar outros parceiros que pudessem contribuir na concepção da iniciativa, inclusive empresas mais especializadas, e que assumissem responsabilidades nesse processo.

Formou-se, portanto, um consórcio pelo Open Care 5G, agregando Itaú Unibanco, Siemens Healthineers, Positivo Servers & Solutions, NEC Corporatiom, Telecom Infra Project (TIP), Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

“Nós vínhamos trabalhando em projetos da saúde desde o início da pandemia. Quando a Deloitte começou a falar sobre o 5G e como ele poderia ajudar nessa área, nós entramos, pensando em contribuir com tecnologia e expertise”, lembra Augusto Nellessen, superintendente de TI do Itaú.

Novo modelo de comunicação

O projeto recebeu o nome de Open Care 5G porque atua através do chamado Open-RAN, um conceito de inovação aberta que unifica padrões de comunicação. Tomando como exemplo uma antena de rede, normalmente é preciso comprar um software do mesmo fornecedor para o funcionamento pleno, mas o ecossistema aberto permite que a fonte seja outra, o que pode reduzir o custo.

“Temos protocolos definidos e abertos, em que não se fica dependente de um único fornecedor, mas é possível pegar pedaços de vários para compor a rede”, explica Leandro Galante, diretor de 5G e Mobile da NEC. “Temos partes dos softwares fornecidos por uma empresa e no data center temos servidores de outra. São elementos que operam entre si”.

O projeto está em sua primeira fase, com os exames pela internet sendo realizados dentro do Hospital das Clínicas. No entanto, entre a captação pela máquina e a reprodução na tela do médico, as imagens saem para um servidor externo e retornam para a unidade de saúde em um link de comunicação.

“Foram feitos exames de ultrassom aqui no HC para avaliar questões como a velocidade e latência, e verificar se eram adequadas para que um médico realizasse o diagnóstico por imagem em tempo real”, pontua Bergo. “Além da parte tecnológica, validamos também a parte médica, com os profissionais que vão manejar os equipamentos do exame”.

Agora, o grupo planeja a etapa seguinte, marcada para as próximas semanas, que vai levar o sistema para o interior de São Paulo para testar a tecnologia em um ambiente urbano, com interferências. O próximo passo será a expansão nacional, com a chegada efetiva ao interior do Amazonas, em locais com pouca infraestrutura de rede.

“Nós temos uma linha de servidores preparada para trabalhar nesses ambientes hostis. Estamos usando um modelo que dá para colocar em um poste e é possível trabalhar em baixa ou alta temperatura. Isso facilita a operação, diminuindo a latência no local instalado”, diz Silvio Ferraz, presidente da Positivo Servers & Solutions.

De onde vem o financiamento do Open Care 5G

Mesmo estando na fase de testes, o plano é ambicioso e tem um alto custo. Até agora, as marcas envolvidas nesse processo estão alocando recursos próprios no desenvolvimento, por meios financeiros ou de mão de obra qualificada. Com o avanço da solução, a ideia é levantar recursos de terceiros, conforme adianta Marcia Ogawa, líder de tecnologia da Deloitte no Brasil.

“Todas as empresas tiveram um grande proveito nessa primeira fase. Para continuar, estamos buscando recursos externos, especialmente de organismos multilaterais, como BID. O governo brasileiro, através do Ministério da Economia e da ABDI, também já demonstrou interesse em nos apoiar”, assegura Ogawa.

“À medida em que vamos mais longe e incluímos mais pacientes, o projeto vai aumentando seu custo. Então temos a ideia de usar esses órgãos de fomento e também, em um determinado momento, buscar quem realmente vai usufruir, seja o governo, ONGs ou startups que tenham capilaridade para conectar o paciente que precisa”, diz Marco, do HC.