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Minoritários da Eletrobras questionam “fim” dos dividendos e chegam até a falar em roubo

Durante evento realizado em São Paulo, acionistas da estatal, incluindo o megainvestidor Luiz Barsi, se mostraram bastante descontentes com a companhia e tentaram entender os números do ano passado

Por  Rodrigo Tolotti

SÃO PAULO – Descontentamento. Esta é a palavra que resume bem o sentimento dos acionistas minoritários da Eletrobras (ELET3; ELET6), ou pelos menos foi o que foi demonstrado durante a realização de reunião entre a diretoria da estatal, representada pelo diretor de Relação com Investidores Armando Casado, e seus acionistas na segunda-feira (6). Antes mesmo do evento começar, era possível ver algumas pessoas discutindo sobre a atual gestão da companhia, que no ano passado reportou um prejuízo líquido de R$ 3 bilhões.

Durante o evento realizado pela Apimec SP (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais), o ponto que mais pareceu desanimar os acionistas envolve o não pagamento dos dividendos referentes ao ano de 2014. Segundo Casado, este é o terceiro ano seguido que a Eletrobras tem prejuízo, mas que nos anos anteriores havia uma reserva, o que permitiu o pagamento da remuneração. Porém, neste ano não há mais dinheiro, o que não permitiu os dividendos.

A Eletrobras fechou 2014 com prejuízo de R$ 3 bilhões, o que mesmo assim representou um resultado 51% melhor que o registrado em 2013, quando a companhia teve prejuízo de R$ 6,1 bilhões. Segundo a estatal, as principais causas do prejuízo foram o custo da energia comprada para revenda (R$ 9,9 bilhões), a provisão para contingências judiciais (R$ 3,2 bilhões) e a baixa de crédito fiscal (R$ 1,7 bilhão).

Após uma breve demonstração dos números da companhia (disponíveis no site da Eletrobras), foi aberto o espaço para questionamentos dos acionistas que estavam presentes – entre eles o megainvestidor Luiz Barsi Filho, um dos maiores investidores pessoa física da Bovespa – o que deixou evidente a desconfiança deles com a empresa. O primeiro a se pronunciar afirmou que “sempre tive dificuldades em entender a Eletrobras, e hoje eu entendi menos ainda”. O acionista questionou a empresa pelo fato de não ter lucro, não pagar dividendos e mesmo assim realizar investimentos em outros países.

Atualmente a Eletrobras tem participação de 50% na Centrales Hidroeléctricas de Nicaragua, outros 50% na Rouar, do Uruguai, e mais 29,40% na Inambari de Energia, do Peru. De acordo com Casado, isso faz parte de um projeto de integrações com o resto da América Latina, o que, segundo ele, dará grandes retornos para a Eletrobras. O diretor lembrou outros acordos, como Itaipu e os projetos com a Argentina para mostrar o valor das “interligações energéticas”. Casado ainda garantiu que os projetos têm todos os seguros possíveis.

Dividendos, JCP e “roubo”
O segundo a se pronunciar foi Barsi, que se mostrava um dos mais descontentes com a companhia. Ele aproveitou para mostrar que não há como explicar os resultados por uma crise no setor, ressaltando um levantamento feito pela consultoria Economatica, que mostrou que das 22 empresas de energia listadas na Bolsa, apenas 3 deram prejuízo em 2014, sendo a Eletrobras uma delas.

“Não vejo honra na hora de falar esses números […] O valor de mercado da companhia está ficando insignificante”, afirmou. Barsi ainda questionou a remuneração aos acionistas feita pela estatal, afirmando que “a Eletrobras não paga dividendos faz alguns anos”. Ele ainda complementou, e disse que, na verdade, a estatal está pagando juros sobre capital próprio. 

Sobre o prejuízo, Casado respondeu que neste primeiro momento a Eletrobras está sofrendo com a renovação de suas concessões, mas que a companhia está mostrando forte reação. Além disso, ele também destacou que o pagamento de JCP realmente é mais vantajoso para a estatal, e que “portanto, para o acionista também”. O diretor da companhia disse ainda que “os dividendos são mínimos [sobre o valor a ser pago], e não obrigatório”.

O pagamento de JCP é mais vantajoso para a empresa do ponto de vista fiscal. Desde sua criação, o pagamento de JCP permite que a empresa remunere seus acionistas até o valor da TJLP, com o valor sendo considerado como despesa financeira. Com isso, ele reduz o lucro tributável, diminuindo o IR a ser pago pela empresa. A grande vantagem é que a empresa pagaria impostos maiores sobre o lucro, na faixa de 25%, do que os acionistas, que pagam 15% sobre os JCP. Assim, ela pode oferecer JCP, que mesmo após o pagamento de IR, podem ser maiores do que seriam na forma de dividendos, em função da diferença nas alíquotas de tributação.

Um terceiro acionista questionou o fato da Eletrobras ter conseguido elevar suas receitas no último ano – passando de R$ 23,8 bilhões em 2013 para R$ 30,3 ano passado – e mesmo assim reportar prejuízo tão grande. “A empresa elevou a receita, ou seja, ela ganhou alguma coisa a mais, teve lucro”, afirmou o acionista. “Pegar dinheiro que é do minoritário para pagar programa do governo é roubo”, completou.

Casado comparou os dados de 2013 e 2014 da estatal e destacou a evolução dos números, e destacou mais uma vez que o fato da empresa ter renovado suas concessões acabou pesando. Porém, ele quis deixar bem claro que todos os números apresentados no resultado não tem nenhuma ligação com o governo – acionista controlador da companhia. Segundo o diretor, qualquer ganho ou gasto que o governo tenha com a Eletrobras não está nos números divulgados, ou seja, não há ligação entre os programas sociais e o resultado da companhia.

Riscos à crise hídrica
Por fim, Casado afirmou que as projeções são que ocorra um déficit de geração hídrica em torno de 15% neste ano. Em 2014, a diferença entre a garantia física das usinas e o volume efetivamente despachado ficou pouco acima dos 9%. Pela regulação do setor, essa diferença é rateada entre todos os agentes que fazem parte do Mecanismo de Realocação de Energia (MRE), uma espécie de “equipe” para dividir o risco hidrológico do sistema, via compras no mercado de curto prazo.

Ele destacou ainda que a Eletrobras tem pouca exposição ao déficit hídrico, já que a maior parte de suas concessões de geração foram renovadas nos moldes da Medida Provisória 579. “Praticamente não temos exposição via Furnas e Chesf. Nossa exposição é menor e praticamente toda concentrada em Eletronorte”, afirmou o diretor durante a apresentação.

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