Informação privilegiada?

Marfrig disparou 27% nos 7 pregões antes da venda; fundamento ou insider?

Analistas e gestores mostram que suspeita é grande, mas que os fundamentos da empresa já indicavam que a alta recente poderia ocorrer

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SÃO PAULO – A Marfrig (MRFG3) surpreendeu o mercado e anunciou no domingo que venderá a sua subsidiária europeia, a Moy Park para a JBS (JBSS3). Mas surpreendeu mesmo? A alta no último mês levou algumas pessoas do mercado financeiro a pensar que a informação não foi novidade. Pelo menos não para algumas pessoas que já viriam comprando o papel desde o começo do mês. Em vista do histórico do mercado brasileiro, nunca é descabido falar em insider trading, porém analistas e gestores recomendam cautela antes de cravar qualquer coisa no caso Marfrig. 

Para entender o caso do frigorífico é preciso explicar por que foi um bom negócio vender a Moy Park. Operando na Bolsa desde 2007, a Marfrig teve uma política de negócios ultra-expansionista envolvendo a aquisição do grupo norte-americano Keystone, o qual, até um ano antes da compra, atendia à demanda de 28 mil restaurantes e possuía um faturamento de US$ 6,4 bilhões. 

De 2010 a 2013, contudo a situação se inverteu. A companhia aumentou muito a sua dívida e não conseguiu superar o seu alto grau de alavancagem por meio das suas operações. Consequentemente, o preço da ação despencou de seu patamar de R$ 20, chegando perto dos R$ 3, época na qual o frigorífico foi resgatado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) por meio da compra de debêntures pelo banco.

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A situação melhorou com o choque de gestão trazido pelo ex-CEO da empresa, Sérgio Rial, que implementou a famosa política de “focar para ganhar”. Apesar disso, hoje o nível de endividamento do frigorífico continua alto, perto dos 6,2 vezes no múltiplo dívida líquida dividida pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações). 

Precisando reduzir o sua dívida, qualquer aumento no caixa da companhia é visto como boa notícia pelos investidores. Venda de ativos sendo algo que se enquandra neste cenário. Segundo a Bloomberg, a operação envolvendo a Moy Park, avaliada em US$ 1,5 bilhão dos quais 21,1% é dívida reduzirá o endividamento da Marfrig em R$ 5 bilhões. Com isso, o múltiplo citado anteriormente passará a 4,7 vezes do potencial de geração de caixa para pagar a dívida. “Ainda desconfortável”, como lembra a equipe de análise do Besi em relatório, mas bem melhor do que o nível anterior. 

Já a Planner explica em relatório que a Marfrig continua com atuação globalizada após a alienação, com 75% do faturamento do grupo atrelado a outras moedas e 59% do faturamento consolidado vindo das operações internacionais. 

Insider: notícia comum
Desde o final de maio, as ações da Marfrig sobem mais de 30%, enquanto as outras do setor têm altas bem mais modestas: de 6% para a JBS, 12% para a Minerva e 2% do Ibovespa. Esse forte movimento antes da divulgação de notícias relevantes para a empresa poderia ser visto como uma operação por traders com informação privilegiada, o famoso “insider information”. 

“Acho bem provável que tenha tido um insider, do dia 9 de junho quando começou a reversão de tendência de baixa até sexta foram 24% de alta”, afirma o analista da Walpires Corretora, Angelo Larozi. “Houve até um período com 10 pregões de valorização consecutivos”, lembra. 

O histórico do mercado brasileiro nos mostra que a prática de “insider trading” não só é algo recorrente como também dificilmente sofre duras sanções pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), órgão regulador do nosso mercado.

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O uso de informações privilegiadas em companhias abertas é vedado desde 1976 quando por ocasião da publicação da Lei das Sociedades Anônimas (Lei nº 6.404). Mais específica é a instrução CVM nº 31, de 8 de fevereiro de 1984, que no artigo 9º traz o seguinte texto: “É vedado aos administradores e acionistas controladores de companhia aberta valerem-se de informação à qual tenham acesso privilegiado, relativa a ato ou fato relevante ainda não divulgado ao mercado, nos termos dos artigos 2º e 7º desta Instrução, para obter, para si ou para outrem, vantagem mediante negociação com valores mobiliários”.

Apesar da legislação não deixar margem para dúvidas, de 2002 a 2013, de acordo com pesquisa pelo Núcleo de Estudos em Mercados e Investimentos da FGV, a CVM julgou apenas 34 casos de suspeita de insider. O número não é mais que uma fração dos 677 procedimentos analisados pela autarquia no período. Dos 34 casos julgados, em 16 nenhum dos réus indiciados sofreu condenação. 

Recentemente, sugiram suspeitas acerca da Abril Educação (ABRE3). Ndia 2 de fevereiro – sete dias antes de anunciar uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) -, as ações da Abril Educação atingiram R$ 9,43, seu menor patamar em Bolsa desde maio de 2014, tendo movimentado quase R$ 14 milhões na Bovespa – o dobro da média diária dos últimos 21 pregões. No dia seguinte, os papéis subiram 1,35% – nada anormal para quem já havia caído 16% em 2 meses -, mas o giro financeiro desta vez chegou a R$ 25,5 milhões, mais de 4 vezes a média. No dia 5, as ações tiveram um salto de quase 5%, desta vez com um volume mais “comportado”.

Muita calma nessa hora
No entanto, o caso da Marfrig gera mais cautela. O volume das ações da companhia não ficou acima da média no período, ao contrário do que ocorreu com a Abril Educação. Além disso, o papel estava “descontado” em relação a seus pares no setor antes da alta. “Acho que a Marfrig subiu muito porque ela estava excessivamente descontada em relação à JBS. Elas subirem tanto hoje mostra que as pessoas não sabiam de nada”, afirma categoricamente o analista do blog WhatsCall, Flavio Conde.

“Ela está altamente alavancada, então qualquer coisa notícia no sentido de mudar isso acaba gerando uma forte alta em equities”, diz o gestor da Humaitá, Frederico Mesnik. Vale lembrar que era esperado um IPO da Moy Park, que também deveria reduzir o endividamento da companhia. 

Junta-se a isso, o fato de que os investidores estão otimistas com a Marfrig desde o anúncio da abertura do mercado chinês à carne brasileira. Ficam as expectativas ainda quanto à abertura dos Estados Undios, que segundo o diretor-presidente da companhia, Martin Secco Arias, já está a caminho de ocorrer, com uma cota já liberada para exportação sem tarifas. Ou seja, notícia boa não falta. 

Assim, o caso do frigorífico fica na região cinzenta em que muito se suspeita, mas pouco se sabe de concreto.