Moedor de carne

JBS: filé mignon para os acionistas, carne de 2ª para os empregados

Enquanto as ações da maior processadora de carnes do mundo beiram as máximas históricas, seus colaboradores seguem vítimas do descumprimento de direitos trabalhistas básicos

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SÃO PAULO – Com suas ações beirando as máximas históricas na Bovespa, a JBS (JBSS3) pode ser vista como uma empresa bastante generosa com seus investidores e também com políticos e partidos. Além dos ganhos registrados por seus papéis de quase 75% entre o fundo da primeira metade de janeiro deste ano e a máxima histórica de R$ 17,23, atingida no intraday do pregão de 20 de maio, a maior processadora de carnes do mundo também foi a companhia que mais doou para campanhas de candidatos nas eleições de 2014, em investimentos que somam o montante de R$ 366,8 milhões. De acordo com dados apurados pela Contac (Confederação Brasileira Democrática dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação), a companhia contribuiu no sucesso de 163 candidaturas de deputados.

No entanto, quando se trata de seus próprios colaboradores, a benevolência simplesmente parece não existir. Em vez disso, observa-se um comportamento um tanto quanto descuidadoso com a integridade física dos funcionários e frequentes casos de descumprimento a direitos básicos trabalhistas. O descaso da JBS já é conhecido há bastante tempo. Em janeiro do ano passado, a revista InfoMoney fez uma reportagem especial sobre a companhia e conversou com o procurador do Ministério Público do Trabalho e gerente do projeto de adequação das condições de trabalho em frigoríficos Sandro Sardá.

Durante a conversa, ele se disse alarmado com a situação quando começou a investigar o setor. “JBS e BRF (BRFS3) deveriam ter um padrão maior de qualidade nas condições de trabalho para seus colaboradores. No entanto, vemos exatamente o contrário: políticas inadequadas em relação ao cumprimento de questões de saúde e trabalho”, observou. Há cerca de cinco anos, um documentário intitulado “Carne osso – o trabalho em frigoríficos“, da ONG Repórter Brasil, do jornalista Leonardo Sakamoto, deu origem ao trabalho Moendo Gente, que mostra o destoamento presente entre os danos à saúde gerados no abate e processamento de carnes com a média de outros segmentos da economia nacional. Nele, os três maiores frigoríficos nacionais – JBS, BRF e Marfrig (MRFG3) – são investigados.

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Na semana passada, a agência Pública de jornalismo veiculou reportagem mostrando que a empresa cujo garoto-propaganda é ninguém menos que o ator Tony Ramos – a quem eles mesmos se referem como “embaixador da marca” -, foi a campeã em comunicados de acidentes de trabalho de 2011 a 2014. “Irregularidades e violações de direitos trabalhistas são tão frequentes que deixaram 7.822 funcionários da empresa doentes ou incapacitados para o trabalho nos últimos quatro anos” – o que corresponde a uma média de cinco acidentes por dia durante todo o período, escreveu o repórter Maurício Moraes. Em resposta à reportagem, a JBS rejeitou o título de campeã em acidentes, alegando ser “equivocado “considerar apenas números absolutos” já que pode causar distorções no comparativo com companhias menores.

O maior frigorífico nacional, que chegou a receber aportes de R$ 8,1 bilhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) reiterou que seus dados sobre segurança são públicos e que conta com mecanismos internos que valorizam a prática da saúde e segurança no trabalho. “Os indicadores de Saúde e Segurança do trabalho são monitorados diariamente e analisados periodicamente para avaliar o desempenho de cada unidade em relação à saúde ocupacional e segurança de seus colaboradores e seu sistema de gestão”, disse a empresa em nota (o esclarecimento pode ser visto na íntegra clicando aqui).

Novos problemas
Como se as dores de cabeça já não fossem suficientes – não apenas para a JBS, como principalmente aos seus próprios colaboradores -, a companhia se envolveu em outra situação delicada com seus colaboradores no começo do ano, problema que se arrastou até poucas semanas atrás. Em vídeo que começou a circular nas redes sociais, a Contac, ligada à CUT (Central Única dos Trabalhadores), denunciava que a companhia estaria renegociando o plano de saúde de seus funcionários, que passaria a custar R$ 111 por dependente – R$ 7 a mais que dizia o próprio vídeo. Em termos práticos, a alteração amarraria boa parte dos orçamentos dos trabalhadores, uma vez que o salário médio, de acordo com o material audiovisual, é de cerca de R$ 1.000,00.

Com legendas em inglês, o vídeo tinha como objetivo sensibilizar os consumidores nacionais e internacionais dos produtos da JBS e levar a empresa ao diálogo com seus colaboradores sobre o assunto. E deu certo. Em entrevista ao jornal O Globo, Sinderlei de Oliveira, presidente da Contac, conta que o valor foi renegociado há cerca de 20 dias, para R$ 45 por dependente. As estimativas são de que 50 mil trabalhadores foram beneficiados pela conquista. Apesar do sucesso com a iniciativa, Oliveira diz que não pretende usar o recurso do vídeo para pressionar a empresa, tendo em vista os potenciais danos que a ferramenta pode causar ao grupo. A entidade já removeu a peça do YouTube, mas ela segue circulando por replicações de outros usuários.

Embora este tenha sido um recuo importante por parte da JBS, o retrospecto negativo da companhia com relação ao bem estar de seus funcionários ainda mostra que muito precisa ser feito. Em uma face da moeda, seus acionistas gozam do bom desempenho das ações na Bolsa. Quem comprou os papéis JBSS3 em março de 2014, comemoram a valorização de 127% até a abertura do pregão desta sexta-feira (12). No mesmo período, o Ibovespa registra alta de cerca de 18%. Certamente, em termos financeiros, foi um excelente negócio abrir posição na companhia. Enquanto isso, do lado de fora da Bolsa, uma realidade oposta é vista no dia a dia das unidades do frigorífico. Aparentemente, seus colaboradores ainda não foram convidados a participar da festa. Resta saber se um dia serão.

Confira o vídeo na íntegra:

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