O plano não era bom?

Gringos saem de Petrobras e derrubam ação; mas há motivo para pânico?

A estatal reduziu em 37% os investimentos, para US$ 130 bilhões, em seu plano de negócios divulgado nesta manhã para 2015 a 2019

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SÃO PAULO – As ações da Petrobras (PETR3; PETR4) tentaram desafiar o cenário externo e miraram uma forte alta nesta segunda-feira (29), impulsionadas pela divulgação do seu esperado plano de negócios de 2015 a 2019, que reduziu em 37% os investimentos da estatal. Apesar do plano ter sido bem recebido pelo mercado e empurrado as ações para uma valorização de quase 3% nesta manhã, as preocupações com a Grécia prevaleceram e os papéis seguiram ladeira abaixo neste pregão. 

Os papéis ordinários da estatal caíram 4,10%, a R$ 14,05, enquanto os preferenciais recuaram 3,48%, a R$ 12,75 – fechando próximos das mínimas do dia. O Ibovespa recuou 1,9%, mirando romper a mínima do mês. 

Segundo Flávio Conde, analista independente que mantém o blog WhatsCall, os estrangeiros lideram esse movimento de queda hoje, buscando reduzir exposição aos mercados emergentes em meio a aumento da aversão ao risco. Neste caso, “a Petrobras é a maior e mais rápida porta de saída, mas, passado a crise, em um ou dois dias tudo voltará ao normal”, comenta. 

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Pelos dados do Profit Chart, as vendas das ações ordinárias da Petrobras são lideradas pelo UBS (27%), seguido por Credit Suisse (15%), Morgan Stanley (14%) e Bank of America Merrill Lynch (11%) – bancos, normalmente, usados por estrangeiros para intermediarem suas operações. 

Tirando o cenário externo…

Tirando o peso externo, que provoca debandada de investidores, as notícias sobre a Petrobras hoje são positivas e devem afastar esse pânico gerado no mercado dentro de alguns dias. Para Conde, o plano veio melhor do que o esperado e isso deve trazer um alívio para a ação daqui para frente. “O mercado tinha medo de uma redução de apenas 25% e duvido que alguém cravasse os 37%, que praticamente são 40%. O novo plano dá sentido para a alta das ações hoje”, comentou. A estatal reduziu em 37% os investimentos, para US$ 130 bilhões. No plano anterior, de 2014 a 2018, os investimentos previstos eram de US$ 220,6 bilhões. 

Além da redução dos investimentos em si, alguns pontos e premissas que a empresa deixou claro no plano ajudaram a trazer esse sentimento positivo ao mercado, comenta Conde. “Estamos em um momento muito complicado, com a Grécia correndo o risco de sair da zona do euro e as bolsas despencando, enquanto há uma crise política interna. Mas tanto a crise interna quanto a Grécia terão um fim e quando o mercado virar, acredito que tem mais a ganhar será a Petrobras”, comentou. O analista projeta que a ação preferencial da companhia consiga bater R$ 15 por ação até o final de julho. 

Veja abaixo os 5 principais pontos destacados pelo analista no plano de negócios da estatal, além do corte de investimentos, e que ajudam a impulsionar os papéis hoje:

1°) Projeção do Brent

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A companhia trouxe uma projeção bem realista para o preço do petróleo Brent, cotado no Texas e usado como referência para estatal, comentou Conde. Os preços, em média, do Brent ficaram em US$ 60 o barril em 2015 e US$ 70 o barril no período de 2016 a 2019. “É uma projeção bem realista. Está dentro do esperado pelo mercado”, disse.

2°) Projeção do câmbio

A expectativa para o câmbio também veio em linha com o que a maioria do mercado espera. A projeção do dólar ante o real ficou em R$ 3,10 para 2015 e R$ 3,26 para 2016. Uma projeção em linha é importante pois esses preços serão usados como referência para determinar os investimentos e projetos da empresa. 

3°) Paridade de preços

Além disso, a estatal deixou claro que vai buscar a paridade de preços com a importação, deixando uma sinalização que um reajuste de preços dos combustíveis pode vir no segundo semestre, disse Conde. 

4°) Endividamento

O plano da estatal prevê que o indicador divída líquida/Ebitda (que mensura em quantos anos a empresa conseguirá pagar sua dívida líquida com endividamento) deva cair para 3 vezes até 2018 e 2,5 vezes até 2020. Atualmente, esse indicador está em torno de 5 vezes. 

“Uma indicação como essa é muito importante dado que um dos maiores problemas da companhia é sua elevada alavancagem, e a empresa sinalizando isso agora mostra que está empenhada a arrumar a casa”, comentou Conde. “O plano é muito positivo e vai na direção correta, que todo mundo esperava. O plano aumenta, e muito, a credibilidade da Petroras, que agora é liderada por Bendine e Ivan. Quando foram nomeados teve um ceticismo, mas eles estão mostrando um lado pró-mercado e atacando o que a empresa precisa, de fato, que é endividamento”.

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5°) Desinvestimentos

Por fim, o analista destaca os desinvestimentos previstos pela companhia de US$ 15 bilhões entre 2015 e 2016, sendo 30% na área de exploração e produção, 30% no abastecimento e 40% em gás e energia. O plano também prevê esforços em reestruturação de negócios, desmobilização de ativos e desinvestimentos adicionais, totalizando US$ 42,6 bilhões em 2017 e 2018.

Para Conde, na área de exploração e produção, a companhia deve trabalhar a venda de participação em poços que não estão produzindo ainda. Já na área de abastecimento, ela deve focar na venda de até 49% da BR Distribuidora, enquanto na parte de gás e energia, a estatal deve tentar vender Gaspetro, além das termelétricas.