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IPO da Caixa pode repetir a euforia da BB Seguridade?

Os prós e contras da possível abertura de capital da seguradora da Caixa para os investidores  

Pedro Guimarães
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

SÃO PAULO – A possível abertura de capital da Caixa Seguridade, subsidiária de seguros da Caixa Econômica Federal, já se transformou num dos eventos mais aguardados do mercado financeiro nacional. A dúvida é se haverá uma repetição da euforia que marcou um evento similar: a oferta inicial de ações da BB Seguridade (BBSE3), a seguradora do Banco do Brasil, em 2013.

 O IPO da BB Seguridade foi o maior da bolsa brasileira até 2013: a empresa movimentou R$ 11,47 bilhões bilhões de reais com a operação. Além disso, a ação valorizou de forma expressiva: nos dois primeiros anos, a empresa dobrou de tamanho na bolsa, enquanto no acumulado até agora, subiu 61% (o Ibovespa teve uma alta de 65%). 

A favor da Caixa Seguridade, contam dois fatores principais, segundo os analistas. Um deles é a disposição dos novos executivos para melhorar a gestão do banco. Outro é o fato de haver oportunidades de negócio a ser exploradas: a seguradora tem 90 milhões de clientes, muitos dos quais utilizam apenas um produto. A expectativa é que um melhor atendimento com maior foco comercial possa aumentar as vendas de apólices.

Pé atrás

O problema é governança corporativa da Caixa, vista como nebulosa.  “Diferentemente do BB, a Caixa não tem histórico de negociação no mercado de ações”, diz Carlos Daltozo, Head de Renda Variável da Eleven Financial, que chegou a trabalhar na tentativa de IPO da empresa em 2015. 

“O mercado em si não conhece bem como funciona o banco em seus direcionamentos, e a gente sabe que sempre houve muita ingerência política por lá”, complementa. É possível que a nova gestão resolva esse problema, mas é cedo para saber.

Em 2015, segundo Daltozo, o mercado pretendia pagar na Caixa Seguridade um valor descontado se comparado ao múltiplo P/E (preço da ação em relação ao lucro da empresa) da BB Seguridade. Essa pretensão deve ser mantida agora.

Graças a isso, e ao fato de ser uma empresa totalmente estatal, investidores, principalmente estrangeiros, tendem a chegar com um pé atrás nesta estreia. “A empresa teria que endereçar alguns pontos, explicar muito bem questões de governança e possíveis trocas de gestão no médio prazo”, diz Daltozo.

Tudo isto após resolver as questões de contrato com a francesa CNP Assurances e com a corretora Wiz. Um acordo de exclusividade com a parceira europeia, vale lembrar, foi o que derreteu o preço estimado para a estreia da empresa em 2015 de R$ 10 bilhões para R$ 3 bilhões. Pedro Guimarães, presidente da Caixa empossado hoje, disse ao Valor que vai analisar a renovação do contrato iniciada em 2018.  

Voto de confiança

Daltozo não nega, porém, que o sentimento geral sobre IPOs é positivo, o que pode ajudar a operação da Caixa. Também existe confiança na experiência de Pedro Guimarães. Como analista no banco Brasil Plural, ele conduziu o IPO da BB Seguridade. No Pactual, estruturou ainda as ofertas de ações de bancos de médio porte (vale lembrar que algumas instituições passaram por problemas depois da estreia na bolsa).

André Martins, analista de setor financeiro da XP Research, acredita que o mercado acompanha o discurso de Guimarães com otimismo e está atento ao potencial de uma gigante como a Caixa no setor de seguros.

“Estamos em uma janela bem oportuna para a abertura de capital que está engavetada desde 2015”, diz o especialista. “O novo presidente [Pedro Guimarães] assumiu com uma cabeça bem aberta, um discurso bem construtivo com relação ao banco, e acho que ninguém duvida da capilaridade e do tamanho do banco”, aponta.

Se os nomes de peso da empresa seguirem demonstrando “visão sóbria”, podem ser capazes de “tirar o temor do mercado de fatores que vimos no passado, como crescimento desgovernado e níveis altos de inadimplência, complementa o analista. “Naturalmente, tudo depende de variáveis como o preço [do ativo] e o apetite dos investidores no momento [da oferta]. Pelo momento atual, acredito que o mercado daria o benefício da dúvida”.

O exemplo do IRB

Daltozo, que também trabalhou no IPO do IRB (IRBR3), resseguradora estatal, há dois anos, acredita que a Caixa pode se espelhar neste case para a venda de seus ativos. Assim como a Caixa, o Instituto de Resseguros do Brasil teve uma tentativa frustrada de abrir capital em 2015. A empresa deu um desconto no preço da ação, o IPO saiu em 2017 e, de lá para cá, o valor de mercado dobrou. 

O analista estima que a Caixa Seguridade valha atualmente entre R$ 17 bilhões e R$ 21 bilhões. Para fazer este cálculo, levou em consideração um crescimento de lucro em 2019 de 8,7% e o múltiplo Preço/Lucro atual da BB Seguridade. Comparativamente, a BB Seguridade vale atualmente R$ 56,7 bilhões, e o IRB, R$ 3,5 bilhões.

No IPO, porém, deve ser listada uma fatia entre 25% e 50% do capital da Caixa Seguridade. Com isso, a empresa deve levantar algo entre R$ 4,2 bi e R$ 10,5 bi para seu caixa.  

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