Para analistas

Gerdau paga “caro” pela simplificação: reestruturação veio na hora errada

Ações da Metalúrgica Gerdau desabam 11,3%, enquanto os papéis da Gerdau caem 7,5%, figurando como as maiores quedas do Ibovespa nesta tarde

Aprenda a investir na bolsa

SÃO PAULO – A Gerdau (GGBR4) anunciou nesta terça-feira (14) uma reestruturação de suas operações, com a aquisição de fatias minoritárias na Gerdau Aços Longos, Gerdau Açominas, Gerdau Aços Especiais e Gerdau América Latina Participações, por um total de R$ 1,986 bilhão. A operação, que, em um primeiro momento parecia positiva, pois vai simplificar e unificar as participações societárias nas companhias operacionais fechadas do Brasil na Gerdau S.A., não foi tão bem vista assim por grandes bancos do mercado. Analistas do Bank of America Merrill Lynch, Credit Suisse e BTG Pactual acreditam que a reestruturação veio no momento errado. 

Em meio ao anúncio de reestruturação e perspectivas ruins para o setor de siderurgia, as ações da companhia desabaram nesta sessão, liderando as perdas do Ibovespa. Os papéis da Metalúrgica Gerdau caíram 10,52%, a R$ 4,68, enquanto as ações da Gerdau recuaram 7,25%, a R$ 6,52. As demais siderúrgicas – Usiminas (USIM5, R$ 4,27, -1,39%) e CSN (CSNA3, R$ 4,77, -1,85) – listadas na Bovespa também caíram mas com menor intensidade, assim como a mineradora Vale (VALE3, R$ 17,82, -3,68%; VALE5, R$ 14,86, -3,26%).

Segundo a equipe de análise do BofA, liderada por Thiago Lofiego, embora a iniciativa de simplificação na estrutura do negócio seja positiva, a transação é negativa, não somente devido ao prêmio que vai implicar a operação, mas também por conta do ambiente operacional desafiador e atual alavancagem da Gerdau. 

Aprenda a investir na bolsa

Analistas do BTG Pactual seguiram a mesma linha e comentaram que o momento da operação foi errado e que a companhia está “pagando caro pela simplificação”. A companhia vai pagar R$ 1,986 bilhão para deter mais de 99% do capital total de cada uma das suas controladas. Pelos cálculos do banco, isso implica que a siderúrgica está “queimando” R$ 550 milhões de caixa, ou 5% da sua capitalização de mercado. 

A equipe de análise do BTG, chefiada por Leonardo Correa, argumenta que há falta de informações sobre o endividamento das controladas para maior precisão do cálculo, mas eles veem a companhia pagando um múltiplo de 9 vezes o Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) previsto para 2016 pela simplificação das operações. Da perspectiva do P/B (price-to-book, ou o valor de mercado pelo valor contábil da empresa), a companhia estaria pagando na operação 1,1 vez, comparado com suas ações que são negociadas a 0,4 vez, o que implica na “queima de caixa” de R$ 550 milhões. 

Conforme a empresa informou ao mercado, as condições de pagamento são as seguintes: R$ 339 milhões à vista, com recursos imediatamente disponíveis; cessão e transferência de 30 milhões de ações preferenciais da Gerdau S.A. mantidas em tesouraria, no valor de R$ 206 milhões; e permuta de ações de cota de um fundo de investimentos em direitos creditórios não padronizados (FIDC NP Barzel) de R$ 802 milhões; e R$ 639 milhões em pagamentos com vencimentos em 2016, 2017, 2019, 2021 e 2022.

Para o Credit Suisse, a combinação de reestruturação inesperada, que não vai criar valor para a empresa, e os baixos preços do aço esse ano devem seguir pressionando as ações da Gerdau. “Esperamos mais revisões para baixo no lucro esperado para a empresa em 2015 e 2016 e não vemos nenhuma razão para comprar GGBR4 no atual patamar”, comentou o analista Ivano Westin, do banco suíço. 

Da mesma forma, o BofA ressaltou que mantém com recomendação neutra para o papel e reiterou uma visão cautelosa para o setor. “Nós vemos margens pressionadas no Brasil no segundo semestre do ano em meio à fraca demanda e preços baixos, enquanto a visibilidade de um ponto de inflexão é bem limitada”, comentaram os analistas. 

Segundo eles, o anúncio de hoje veio em um momento ruim de ambiente de contínua deterioração no Brasil, enquanto a alavancagem da empresa está aumentando. “O desempenho de caixa não será significativo no curto prazo, mas o negócio não parece estar alinhado com o foco da gestão em preservação de caixa”, disseram. Para o banco, a alavancagem da companhia, medida pela dívida líquida/Ebitda, que mensura em quantos anos a dívida líquida será paga pela geração de caixa da empresa, deverá chegar a 3,7 vezes este ano, elevado, na visão do banco, e acima do nível ótimo de 2,5 vezes. 

PUBLICIDADE

Incorporando os valores da operação, o BTG Pactual cortou o preço-alvo hoje dos papéis da companhia para R$ 9,00, mas manteve “compra”, apesar de ressaltar uma “baixa convicção” na recomendação para a ação.