Educação

Estude primeiro, pague depois: a fórmula de dois ex-Tarpon para incluir jovens no mercado de trabalho

A Galena fornece treinamentos e conexões com empresas para estudantes de escolas públicas. Negócio recebeu investimento do Vale do Silício

Por  Mariana Fonseca -

Apenas um a cada quatro estudantes brasileiros consegue terminar o ensino médio e logo partir para um emprego formal – diante de outras opções, como ensino superior, cursos técnicos, informalidade e até mesmo entrar para geração “nem-nem” (que nem trabalha, nem estuda). Eduardo Mufarej e Guilherme Luz perceberam essa situação ao consolidarem estudos de órgãos públicos, como Abres, Caged e Inep. A descoberta desse dado foi o ponto de partida para a startup de educação Galena.

A edtech de cursos livres, na qual os estudantes pagam apenas quando são empregados, entregou certificados para sua segunda turma recentemente. Em troca, recebeu investidores de peso.

Nesta quarta-feira (13), a Galena anunciou a captação de um investimento de US$ 16,7 milhões (R$ 78 milhões na cotação atual). A rodada série A foi liderada pela Altos Ventures, uma gestora do Vale do Silício (Estados Unidos) que investiu em empresas como o jogo americano Roblox e o comércio eletrônico sul-coreano Coupang. Esse é o primeiro aporte da Altos Ventures no Brasil.

Acompanham a rodada o braço de capital de risco da Exor N.V. (acionista de Ferrari, Stellantis, Juventus e The Economist); a gestora de investimentos em edtechs Owl Ventures (BYJU’s); o Reaction, fundo de impacto de alunmnis da Universidade de Stanford; a Globo Ventures; e investidores na pessoa física como André Street (Stone), Armínio Fraga (ex-Banco Central), David Vélez (Nubank) e Romero Rodrigues (fundador do Buscapé e atualmente CEO da Headline Capital).

O estudo de oportunidades no mercado de educação não surgiu do nada. Mufarej e Luz acumularam experiências nesse setor antes de fundar a Galena. Os dois eram sócios na gestora Tarpon e coordenaram a aquisição da Abril Educação em 2015. Mufarej e Luz assumiram cargos de alta liderança na empresa, renomeada Somos Educação. A Somos foi vendida para a Kroton Educação (atual Cogna) três anos depois, e cada um dos executivos seguiu seu caminho no terceiro setor. Mufarej fundou a escola de educação política RenovaBR e a gestora de impacto Good Karma Ventures. Luz virou CEO da plataforma de formação de professores Nova Escola.

“Nunca perdemos o contato e decidimos criar algo juntos na área de educação em março de 2020. Analisamos os diversos problemas do setor no país e em qual área poderíamos contribuir mais. No meio do caminho, a pandemia chegou e vimos como ela prejudicaria ainda mais a formação do ensino médio. Então, decidimos ajudar jovens de escola pública na transição ao mercado de trabalho”, contou Luz ao Do Zero Ao Topo, marca de empreendedorismo do InfoMoney.

Poucos seguem o caminho da universidade. Cerca de 36% dos alunos que fizeram ensino médio em escolas públicas foram para o ensino superior, ante 79,2% dos estudantes em escolas privadas, segundo um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018. “Os alunos formados se dividem mais entre fazer cursos técnicos; entrar em empregos poucos qualificados; ou empreender, muitas vezes com informalidade. Queríamos criar uma inserção mais eficiente e econômica no mundo do emprego qualificado.”

A primeira turma da Galena começou a ter aulas em maio de 2021. É um curso livre online, com quatro meses de duração. São oito horas diárias de aula, totalizando 680 horas de curso – o equivalente a uma formação técnica de dois anos, segundo a startup.

Os cursos iniciais são voltados para vendas e sucesso do cliente. “Conversamos com empresas e vimos oportunidades nessas áreas, pela necessidade de contratações e abertura para profissionais com formações diversas. Como negócio, vimos também que já existem outras startups focadas em formação para a área de tecnologia”, afirmou Luz.

A Galena fornece funcionários para si própria e para empresas como Alelo, Arco Educação, iFood, Quinto Andar, Unilever, Stone, Petlove e XP Inc. Alguns exemplos de escolas de tecnologia que trabalham com o mesmo modelo de que o aluno só paga depois de empregado são Trybe, Blue e Tera.

O currículo do curso da Galena se divide em três partes. A primeira parte é de habilidades socioemocionais, como aprendizado por conta própria, comunicação, feedbacks, trabalho em grupo, resiliência e responsabilidade. “Essas habilidades são prioridade para entrar no mercado de trabalho, segundo as 30 empresas com que fizemos pesquisas antes de fundar a Galena”, disse Luz.

A segunda parte são habilidades técnicas em vendas corporativas. A terceira parte são habilidades do mundo do trabalho. Por exemplo, agendas, apresentações, planilhas e entendimento do código de trabalho de uma empresa.

A Galena não tem apostilas. As aulas simulam a rotina de uma empresa, inclusive na carga horária de oito horas diárias. Os estudantes são divididos em grupos de seis pessoas para realizar debates e atividades diárias, com o objetivo de concluir um projeto a cada duas semanas. As aulas são acompanhadas por um monitor. Existem tanto avaliações rápidas duas vezes na semana, com duas ou três perguntas, quanto avaliações profundas feitas por uma banca ao final de cada projeto.

O objetivo é que os alunos saiam empregados até três meses depois da formatura. Depois da contratação, a startup acompanha o estudante por mais seis meses. A primeira turma se formou em agosto de 2021, com 60 alunos. Todos os estudantes foram contratados em dois meses. A média salarial foi de R$ 2.300, sem contar benefícios. A segunda turma se formou em março de 2022, com 170 alunos. Em um mês, 45% dos estudantes foram empregados. “Projetamos novamente que todos estejam contratados em dois meses”, afirmou Luz.

A startup se monetiza por meio de modelos de sucesso para as empresas contratantes e para os alunos. As empresas pagam uma taxa de sucesso a cada contratação derivada da Galena.

Já os estudantes pagam o curso apenas quando conseguirem um emprego que pague R$ 2 mil mensais, no modelo CLT. O valor total do curso varia entre R$ 3,5 mil e R$ 6,5 mil, dependendo do prazo de pagamento escolhido.

Existe uma aposta arriscada nesse modelo de negócios: se o aluno não conseguir um emprego em três meses, não precisa pagar o curso. “Nosso modelo prevê uma taxa altíssima de empregabilidade. O negócio não para em pé sem essa taxa, até porque não cumprimos nossa proposta de valor”, reconheceu Luz.

A Galena usará os US$ 16,7 milhões captados para melhorar a tecnologia por trás das aulas. Cada avaliação que os alunos fazem gera informações sobre os estudantes, que depois são cruzadas com as preferências de cada companhia contratante. “A escala virá da maior quantidade e qualidade de dados capturados, que permite mais ciência no matching com as empresas e menos evasão de candidatos. Saberemos, por exemplo, quais competências a Unilever valoriza, os requisitos das suas vagas e quais jovens seriam os melhores candidatos”, afirmou Luz.

Outro investimento em tecnologia será automatizar as tarefas mecânicas dos monitores, como registro de presença, divisão de turmas e calcular resultados de avaliações. “A ideia não é acabar com a relação humana, mas permitir que esses monitores atendam mais alunos.”

A Galena projeta matricular 1,5 mil estudantes ao longo de 2022. O plano de cinco anos é alcançar entre 30 mil e 50 mil estudantes matriculados anualmente. “Nesse momento poderemos dizer que temos um impacto relevante na formação dos jovens brasileiros”, afirmou Luz.

Para o cofundador, o costume de estudar pela internet criado pela pandemia foi fundamental para o nascimento e crescimento da startup de educação. “A Galena talvez não tivesse florescido antes da pandemia. As ferramentas de educação digital até existiam, mas criou-se uma cultura de uso durante o isolamento social.”

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