Especulação? Ações da Haga recuam mais de 30% após fim de concordata

Empresa já havia sinalizado término das dificuldades judiciais, permitindo que especulador se posicionasse no papel

Por  Felipe Moreno

SÃO PAULO – Uma mensagem anônima postada dez dias atrás em um forúm de internet resume o que muitos investidores pensavam sobre o término da concordata da Haga (HAGA4), que durou 22 anos. Extremamente otimista, a mensagem apostava que a ação, cotada a R$ 5,01 na terça-feira (19), chegaria à região dos R$ 30,00. Pouco mais de uma semana depois, ela já acumula queda de 33,53%, negociada por R$ 3,33. O que motivou a desvalorização?

A resposta é: quase nada. Em si, o término do processo de concordata é uma notícia positiva para a fabricante de maçanetas, mas isso não significa que os investidores não haviam precificado esse cenário nas ações. “É movimento de especulador. Sair de concordata ajuda a empresa a regularizar seus negócios, mas o mercado pode ter antecipado esse movimento”, afirma Ivanor Torres, diretor técnico da Geral Investimentos.

E de fato, o pedido para deixar o período de concordata já tinha sido feito, permitindo que o especulador se posicionasse. “Ela apresenta muita baixa liquidez, o que a torna muito sensível a esse tipo de movimento”, diz Torres. Ele lembra que os papéis já haviam subido bastante nos meses anteriores – e de fato, somente da mínima registrada no ano passado até o fim do término da concordata, o papel chegou a acumular avanço de 94,94%, pulando de R$ 2,57 para R$ 5,01.

No fim do processo judicial, os papéis iniciaram a sessão posterior com forte pressão compradora, chegando a alcançar uma máxima de R$ 5,87, quando a alta acumulada era de 128,40%. Depois disso, as ações perderam essa pressão, com o início da realização de lucros, em um movimento que contou com um volume muito acima do normal. 

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Empresa ainda apresenta dificuldade
Além de entender que às vezes as notícias já estão precificadas em um papel na hora do anúncio, se o investidor quer compreender o que se passa com uma empresa, o importante é fugir do senso comum. Ter saído da concordata não é garantia, por exemplo, de que uma empresa virá a ser saudável financeiramente – apenas que a situação não é tão negativa quanto era outrora. Para se garantir disso, precisa ser realizada uma análise no balanço da empresa.

O investidor que recorresse a esse tipo de estudo, a chamada análise fundamentalista, poderia perceber que a Haga apresentou lucro nos últimos três anos, o que por si só não mostra se a companhia representa um bom investimento ou não. “No meu entendimento, ainda é uma empresa com dificuldades, tem patrimônio líquido negativo de R$ 101 milhões. Ela deve continuar enfrentando grandes desafios”, afirma Torres.

Se os processos que a fizeram sair da concordata não foram invisíveis para o mercado, muito menos o foram para a empresa – a Haga se mostrava otimista na resolução deste problema há mais de um ano. No balanço patrimonial divulgado em 2010, a companhia já sinalizava o término do processo. “Utilizando exclusivamente recursos próprios, a companhia continua amortizando as dívidas contraídas à época do requerimento da concordata”, afirmou a administração da empresa.

No balanço de 2011, divulgado no mesmo dia do fim da concordata, razões de sobra para otimismo. “Entendemos que a partir do encerramento da concordata novos horizontes poderão ser traçados, parcerias, novos negócios e outros interesses aparecerão”, destacou a direção da empresa. Para o investidor, resta uma ação que despencou na última semana, mas de uma companhia que conseguiu registrar um avanço de 196,93% no lucro líquido nos últimos três anos. Será que vale a pena investir?

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