Empresa de superlativos, Oi sobe 25% em três dias; alta continua?

Forte queda levou ação PN da companhia ao patamar mais baixo desde 2001, quando as ações ainda representavam a Brasil Telecom

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SÃO PAULO – Acostumadas a ficar próxima da ponta negativa do Ibovespa neste ano, as ações da Oi (OIBR3; OIBR4) têm se destacado muito positivamente nas últimas sessões – com ambas apresentando ganhos entre 28% e 31% no acumulado dos últimos três pregões. A alta da última segunda-feira (22) chamou bastante atenção: ganhos de 14,58% para as ações ordinárias e de 15,61% para as preferenciais, para R$ 4,87 e R$ 4,59, respectivamente.

Com isso, as ações se recuperam um pouco na Bovespa, mas ainda apresentam perdas de 42,53% para OIBR3 e 39,68% para OIBR4 no ano. A queda em 2013, que chegou a superar os 60% na semana anterior, levaram as ações da companhia de telecomunicações para o patamar mais baixo desde 2001 – quando as ações ainda representavam a Brasil Telecom, cuja fusão com a Telemar acabou criando a Oi. 

Formada através da política de “campeões nacionais” da última década, a Oi é uma empresa acostumada a superlativos: é a operadora da rede fixa de 26 dos 27 estados brasileiros, tem 74 milhões de unidades – telefonia fixa, móvel, orelhões, internet – que geram receita de cerca de R$ 7 bilhões por trimestre. Além disso, gasta por ano R$ 6 bilhões em investimentos e viu a dívida líquida bater R$ 27,4 bilhões nos primeiros três meses do ano.

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A dívida da companhia, aliás, é o que mais tem preocupado o mercado, principalmente pelo fato da nova gestão da empresa prometer gordos dividendos aos acionistas e também necessistar de grandes investimentos. De acordo com Alex Bardellas, analista da CGD Securities, não é uma coincidência que as cotações da companhia começaram a subir depois da venda de dois ativos considerados não estratégicos na semana passada, pelo valor de R$ 2,4 bilhões. Isso reduz o endividamento total e aumenta a confiança do mercado no futuro da empresa de telecomunicações.

Aluga-se ações
É possível que a alta das últimas sessões seja um reflexo de como está o mercado de aluguéis da companhia. A taxa média para tomar ações preferenciais da Oi emprestado saltou de 5% no começo do mês para 14,7% na última segunda-feira, segundo informações do site Dados da Bolsa. O crescimento das taxas de aluguel tipicamente ocorrem quanto faltam papéis para serem alugados. 

Isso geralmente causa um efeito chamado “short squeeze”, provocando uma forte alta nas ações em questão. Pela falta de ações a serem alugadas, investidores que querem operar na ponta vendedora precisam recomprar as ações em três para fecharem suas operações, ou serão taxados como inadimplentes pela BM&FBovespa.

Além disso, se algum investidor comprado quiser vender suas ações alugadas, as receberá novamente, tirando-as de quem as alugou. Esse investidor, que estava operando vendido, também terá de comprar a qualquer preço no mercado, para fechar sua operação vendida, esteja lucrando ou não. Há contratos de aluguel que não permitem que o investidor retome suas ações quando quiser, mas estes são minoria.

A quantidade de OIBR4 alugadas, porém, não mudou muito. Entre o final de junho e o começo de julho, houve um salto de R$ 86 milhões para R$ 96, mas o número praticamente se manteve estável desde então – a despeito da elevação das taxas. Como efeito de comparação, mais de R$ 120 milhões de ações OIBR4 no final de março. Vale mencionar que a BM&FBovespa estipula um limite máximo de até 137,9 milhões de ações PN da Oi a serem alugadas.

Menos dividendos?
Além disso, uma de suas questões centrais é o pagamento de dividendos – que, se realmente pagos, deverão ser os maiores dentre as ações do Ibovespa em termos de “dividend yield” (dividendo pago por ação/cotação da ação). A companhia é bastante criticada por, na prática, endividar-se para pagar dividendos, já que paga mais do que lucra. Tendo lucrado R$ 758 milhões em 2012, a expectativa para este ano era o pagamento de R$ 2 bilhões – os quais R$ 1 bilhão já foram pagos em março e R$ 1 bilhão deve ser pago em setembro.

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A política de dividendos da Oi, segundo ela mesmo descreve em seu site de relações com investidores, é uma “antecipação de resultados futuros”. Mas a dívida líquida está se aproximando do que a Oi considerou ser o “teto”, cerca de 3 vezes a geração de caixa medida pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Caso isso ocorra, terá de cancelar o pagamento dos proventos. 

A companhia corre para vender ativos não-estratégicos, como cabos submarinos e torres. Mas mesmo com essas vendas, a política de dividendos está ameaçada – já que a contabilização dessa venda ainda depende de autorização da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). “Cremos haver um risco significativo de que a distribuição de dividendos programada para o terceiro trimestre possa ser substancialmente reduzida ou até mesmo cancelada”, alertaram os analistas Richard Dineen e Sean Glickenhaus e Luigi Minerva do HSBC em relatório.

Presidente “tetracampeão”
Garantir os dividendos, ou cancelá-los, pode ser uma das tarefas do novo CEO (Chief Executive Officer) da companhia, Zeinal Bava, que assumiu no início de junho. O atual presidente também ocupa a presidência da Portugal Telecom, grande parceira e acionista da Oi. Foi o próprio Bava que costurou o acordo para que a PT entrasse no capital da Oi, depois que a multinacional portuguesa vendeu a sua participação na Vivo para a Telefônica Brasil (VIVT4). 

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Formada com a compra de 26 estatais de telecomunicações, a Oi possui uma das mais antigas redes de telecomunicações no Brasil, de cobre, que precisa ser trocada por fibra. Foi Bava quem transformou a fibra no padrão da PT, fortalecendo também os serviços de internet e TV que a companhia portuguesa oferecem em seu país, justamente o caminho que a Oi vem tomando no Brasil – para o qual o novo CEO pode contribuir com grande experiência.

A presença de Bava na Oi foi muito bem recebida, mas não sustentou o desempenho da empresa na Bovespa. No dia do anúncio – 4 de junho – as ações preferenciais da companhia subiram 16,79%, mas logo devolveram toda esta valorização nos 8 pregões seguintes. Junto à entrada de Bava, noticiava-se na época que a PT e a Oi poderiam se fundir – mas nada foi divulgado sobre o assunto até agora. Uma das primeiras medidas visíveis de Bava no comando foi afastar o antigo diretor de relações com investidores e financeiro da companhia e cancelar uma oferta de debêntures de R$ 800 milhões. 

Eleito quatro vezes como o melhor CEO de telecomunicações na Europa, Bava é tido como um dos poucos homens capazes de tirar a Oi da draga que se encontra – tendo realizado algo similar com a PT na década passada, embora em menor escala. Mas não é o primeiro nome badalado a assumir a companhia: seu antecessor, Francisco Valim, veio como uma grande promessa após boa gestão à frente da NET.

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Valim, porém, saiu pela portas dos fundos da companhia, supostamente por brigar com o conselho para que se reduzisse os dividendos justamente para que se elevasse os investimentos. Foi a sua saída que desencadeou a atual crise que a Oi vive atualmente – o pregão imediatamente antes de sua saída marca a cotação máxima de 2013.

Gráfico de OIBR4 em 2013:

OI 2013
 

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Fonte: Nelógica

Capitalização da Oi?
A entrada de Bava, porém, significou uma coisa: a Portugal Telecom realmente se importa com o que acontece com sua parceira brasileira. Além das conversas de fusão, há a perspectiva de que a PT venha a capitalizar a Oi, justamente para acelerar os investimentos necessários – e fortalecer sua presença no grupo.

Mas de acordo com analistas do banco Sanford C. Bernstein, a Portugal Telecom não teria a quantia necessária para essa capitalização no momento e estar de braços amarrados cria uma crise entre as duas companhias. Pode, porém, vender um de seus mais valiosos ativos, a angolana Africatel, de acordo com o jornal África 21. Mesmo com essa venda, a PT ainda teria de reduzir os próprios dividendos pela metade.

Ação “descontada”
Mesmo ganhando praticamente um quarto de valor de mercado em três dias, o papel da Oi ainda é um dos mais “descontados” do mercado – graças à sua forte queda no ano. A valorização fez com que a Oi passasse a valer em bolsa apenas 76% de seu patrimônio no mundo físico – ou seja, se a companhia vendesse todos os seus ativos, o investidor receberia mais dinheiro por ação do que o preço atual. 

Esse valor é visto através de outros fundamentos da companhia, como o P/L (Preço Sobre Lucro), que está em apenas 5,14 vezes mesmo com a forte alta. “Acho que essa alta é uma recuperação das perdas fortes, as ações caíram muito nesse ano”, finaliza Pardellas. 

Comparação dos principais fundamentos da Oi contra seus rivais:

Empresa P/L* P/VP** ROE*** Desempenho
no ano
Oi (OIBR4) 5,14 0,76 14,9% -43,54%
Telefônica Brasil (VIVT4) 12,86 1,26 9,8% +6,22%
TIM (TIMP3) 14,29 1,49 10,5% +10,63%
*Preço sobre lucro
**Preço sobre valor patrimonial
***ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido)