Análise

Em meio a ruído político, Murilo Ferreira deixará o comando da Vale: há o que temer?

Murilo Ferreira deixará o comando da empresa em seu melhor momento e analistas questionam motivações para a saída

SÃO PAULO – A agitada semana para a Vale (VALE3;VALE5), que passou pelo acordo de acionistas e o resultado forte do quarto trimestre, encerrou-se com o fim de uma novela para a mineradora. Trata-se da saída do CEO da mineradora, Murilo Ferreira, após quase cinco anos no comando. 

Os rumores de Murilo Ferreira fora do comando da companhia agitaram o mercado nos últimos meses, entre notícias de que haveria pressão política para a saída do executivo e também em meio às dúvidas sobre se o novo comandante seria um nome de mercado. 

Desde que Michel Temer assumiu, partidos da base aliada como o PSDB e o PMDB vinham trabalhando pela saída de Ferreira que, em conferência hoje, fez questão de reiterar que nunca agiu politicamente para garantir o seu posto na mineradora: “desafio encontrarem ato a favor de um grupo político”. Por outro, ele apontou que receber pressões faz parte do trabalho. 

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Ferreira deixa o comando da companhia em seu melhor momento desde que assumiu, em meio à alta do minério, o novo acordo de acionistas, além de um grande resultado do quarto trimestre.

Pressionado pela queda do valor do minério, Ferreira comandou nos últimos anos um poderoso enxugamento de custos na Vale, o que se traduziu em bons resultados mesmo em momentos complicados para companhia.

Por isso mesmo, a sua saída, mesmo já esperada, leva a alguns questionamentos por parte de analistas. Em relatório, o Bank of America Merrill Lynch ressalta que Ferreira foi parte importante no processo para encerrar a estrutura dupla
acionária. Os analistas questionam ainda questionam as razões que estão por trás da partida do executivo. Porém, eles apontam que o acordo de acionistas é importante para manter a companhia no caminho de melhores práticas de governança corporativa.  

“Apesar da mudança, esperamos alterações limitadas na estratégia da Vale nos próximos anos. O foco seguirá na redução de custos, redução da alavancagem, venda de ativos não essenciais e aumento do pagamento de dividendos, que deve continuar. Isso tem sido totalmente apoiado pelo conselho e é improvável que vai mudar. A Vale já anunciou dividendos maiores do que o esperado para 2016 (a pagar em maio) e poderia surpreender novamente em 2017, devido ao aumento nos preços do minério de ferro”, ressaltam os analistas do BofA.

Além disso, o BofA aponta que, de acordo com o acordo de acionistas, o CEO será selecionado pelo conselho de administração a partir de uma lista de três candidatos nomeados por uma empresa internacional de “head-hunters”. Com isso, os analistas seguem com recomendação de compra para os ativos.

Quem será o novo CEO?

O analista de investimento da consultoria independente Upside Investor, Pedro Galdi, demonstrou cautela em entrevista para a Bloomberg.  “A decisão de trocar Murilo é claramente política. Temer vai ter a palavra final na indicação do novo presidente. Vamos ver se ele escolhe alguém técnico que agrade o mercado”, diz Pedro Galdi, analista de investimento da consultoria independente Upside Investor. Galdi afirmou que a Vale atingiu um dos melhores resultados da história sob sua gestão e que o mercado gostava dele.

Por outro lado, Vitor Suzaki,  analista da Lerosa Investimentos, tem leitura
diferente e vê como baixo o risco de um teor político na substituição, já que acordo de acionistas assinado dias atrás aponta maior profissionalização do quadro diretivo. 

Neste sentido, Ferreira afirmou que não sabe quem será o seu sucessor, algo que será acompanhado atentamente pelos mercados nos próximos dias ou meses, até o anúncio oficial de quem irá substituí-lo. De acordo com a Reuters,  alguns integrantes do bloco de controle da Vale se inclinam a escolher um dos principais executivos atuais da Vale e assim facilitar a transição para uma empresa com controle pulverizado, conforme acordo de acionistas. 

Segundo as fontes da agência, nomes atualmente fora da empresa estão sendo avaliados, citando que experiência anterior na Vale seria uma pré-condição.  Entre os candidatos potenciais estão o atual diretor financeiro da Vale, Luciano Siani; o diretor de ferrosos, Peter Poppinga; e Clovis Torres, braço direito de Ferreira e atualmente vice-presidente de recursos humanos.

Nelson Silva, um ex-executivo da Vale que agora é diretor de estratégia da Petrobras, está na lista, disseram as fontes.   Outros candidatos incluem os ex-executivos da Vale José Carlos Martins e Tito Martins, acrescentou uma das fontes.

(Com Reuters e Bloomberg)