Destaque de alta do mês no Ibovespa, rali da Marfrig pode estar só começando

MRFG3 já subiu 10,69% no mês, mas analistas ainda veem a ação descontada em relação ao seu verdadeiro valor de mercado

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SÃO PAULO – Após um 2010 bastante conturbado – que resultou em uma desvalorização de 18,74% de suas ações – e com as projeções não muito otimistas para 2011, a Marfrig (MRFG3) viu seus papéis acompanharem o movimento instável da bolsa brasileira no primeiro trimestre do ano, chegando a amargar perdas de 12,99% do começo de janeiro até o dia 21 de março.

Contudo, nesses pouco mais de 30 dias aconteceu uma significativa recuperação da empresa no mercado acionário: até o fechamento da última quarta-feira (27), as ações MRFG3 acumulavam ganhos no mês de 10,69%, a segunda maior valorização do Ibovespa no período, ficando atrás apenas da Lojas Renner (LREN3, +11,99%). Já no acumulado dos últimos 30 dias, a alta é ainda mais impressionante (+19,19%).

Qual a explicação para tal recuperação em tão pouco tempo? Para Cauê Campos Pinheiro, analista da SLW Corretora, o movimento altista deve-se aos eventos envolvendo a empresa e a China que ocorreram durante o período, bem como os resultados de 2010 bem recebidos pelo mercado. Acreditando que a ação ainda está bem defasada do que ela realmente vale, o analista ainda vê bastante espaço para ganhos, afirmando que essa alta “foi apenas o começo”.

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Com um preço-alvo de R$ 19,71 projetado para o final de 2011 (o que garante um potencial de valorização teórico de 22,04% sobre o fechamento da última quarta-feira), Pinheiro recomenda a compra do papel.

China 1: joint ventures anunciadas
No dia 11 de abril, a Marfrig anunciou a criação de duas joint-ventures na China por meio da sua subsidiária, a Keystone Foods. Uma das joint-ventures é a Cofco Keystone Foods Supply Chain Investment Company, encarregada dos serviços de logística e distribuição de alimentos no país. Já a outra, a Keystone-Chinwhiz Poultry Vertical Integration, tem como objetivo verticalizar a operação de aves por lá, fornecendo produtos industrializados com custos competitivos e de alta qualidade. A Keystone terá participação de 55% na primeira JV e de 60% na segunda. 

Marfrig X  outras frigoríficas
Empresa Abril* 30 dias 2011*
Marfrig +10,69% +19,19% +4,87%
BR Foods +1,52% +3,81% +14,48% 
Minerva +5,89% +6,72% -1,06%
JBS -6,66% -5,36% -23,71% 
*Até o fechamento da última quarta-feira (27)

Para o analista da SLW, essas parcerias visam não apenas aproveitar o forte crescimento da economia chinesa, como também suprir o crescimento da rede do McDonalds, “cuja meta é de dobrar de tamanho entre 2010 e 2013”, diz Pinheiro, lembrando que a frigorífica brasileira tem a rede de fast food mais famosa do mundo como uma de seus principais clientes.

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China 2: visita de Dilma ao país
Na mesma data do anúncio das joint-ventures, o mercado também reagiu com otimismo às expectativas acerca da visita da presidente da República, Dilma Rousseff, ao país asiático, sobretudo por conta da possibilidade de que negociações comerciais interessantes no setor alimentício surgissem nesse encontro.

Pinheiro analisa que a visita de Dilma à China pode resultar na abertura de novas unidades frigoríficas para exportar àquele país. “Pode ser que mais 35 unidades estejam aptas a exportar pra China”, avalia o analista da SLW, que vê a notícia como muito favorável para a Marfrig pelo fato da Seara ser um dos principais players do setor em termos de exportação.

Diante desses dois eventos, os papéis da companhia fecharam o pregão do dia 11 de abril com a segunda maior valorização do Ibovespa (+2,56%), enquanto o índice paulista registrou recuo de 0,81%. “Por conta desses anúncios, as ações da Marfrig, que estavam bastante defasadas, acabaram chamando atenção do mercado, o que acabou atraindo os investidores”, explica Pinheiro. 

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Resultados e guidances bem recebidos
Antes desses eventos envolvendo Marfrig e China, outro fator também mexeu positivamente com a ação da companhia. No último 31 de março, ela divulgou seus resultados do quarto trimestre de 2010, período no qual seu lucro líquido atingiu R$ 259,1 milhões, alta de 44% em relação ao mesmo período de 2009. Além disso, ela apresentou ao mercado seu guidance para 2011, dando ênfase aos ganhos de sinergia pretendidos com a compra da Seara, que devem atingir a marca de R$ 55,3 milhões no ano.

A resposta dos investidores foi positiva: os ativos MRFG3 subiram 3,99%, sendo a segunda maior valorização do Ibovespa no dia, ao passo que o benchmark da bolsa brasileira subiu 0,87% nesta data.

HSBC também recomenda compra de MRFG3
Também otimistas com a empresa, os analistas Pedro Herrera, Diego Maia e Ravi Jain, do HSBC, estipulam para um horizonte de 12 meses um preço-alvo de R$ 21 para os ativos MRFG3, com o potencial de valorização teórico de 30,03%, frente ao último fechamento, garantindo a recomendação “overweight”, o que, segundo a classificação do banco, significa que a ação terá um desempenho no mínimo 5 pontos percentuais superior ao retorno implícito esperado.

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Em relatório, a equipe de análise do banco dá ênfase à continuada integração da Seara e da Keystone Foods e à maior participação mercado de produtos processados. Eles mencionam ainda que, embora a empresa ainda mostre-se fortemente alavancada, ela espera chegar ainda neste ano a um ponto de equilíbrio no seu fluxo de caixa livre.

Além disso, eles falam sobre o preço do boi gordo no mercado financeiro, que, após atingir a sua máxima histórica em novembro de 2010 (R$ 117 por arroba), vem mostrando gradual queda, sendo negociado em torno de R$ 100 por arroba em abril. Para os analistas do banco, a tendência para o Brasil é positiva, visto que há evidências de que haverá continuidade na reconstituição dos rebanhos, o que aliviará a pressão de oferta.

Riscos de 2010 ainda estão vivos
Contudo, é importante se atentar a outras questões que tanto impactaram o desempenho das ações da Marfrig e do resto do setor em 2010. Herrera, Maia e Jain esperam que as commodities utilizadas como insumo na produção permaneçam voláteis e em patamares altos de preço, por conta da distorção ainda vista entre a oferta (leia-se condições climáticas desfavoráveis) e a demanda (leia-se China) dessas matérias-primas.

“Os índices globais de estoque/consumo em 2010 e 2011 de alguns dos principais grãos continuam apertados ante as médias históricas, depois das condições climáticas desfavoráveis em diversas partes do mundo e pela forte demanda por parte da China”, escrevem os analistas do banco. A previsão deles é que essa pressão de custos dure até o final do primeiro semestre desse ano, devendo se estabilizar a partir de agosto.

Aliado a isso, ainda há a questão cambial, com o real permanecendo bastante apreciado em relação às principais divisas do mundo. “O real forte torna as exportações brasileiras menos competitivas em termos relativos frente a outros produtores globais, especialmente os EUA”, afirmam Herrera, Maia e Jain, que estimam que a taxa de câmbio brasileira termine o ano na faixa entre R$ 1,65 e R$ 1,75 por dólar.

Pinheiro, da SLW, ressaltou ainda os riscos que estão sempre implícitos no case de investimento do setor frigorífico, que são os surtos de doenças que atacam esses animais, como é o caso da febre aftosa, por exemplo.


Idealizador e apresentador do canal Stock Pickers