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SÃO PAULO – Mais uma empresa anunciou renúncia de CEO (Chief Executive Officer) na última terça-feira e vê seus papéis desabarem na Bolsa, a terceira em 15 dias. Dessa vez, é a ação da Natura que é penalizada; a anterior, foi a Cielo, que viveu uma verdadeira turbulência no pregão do dia 14 de outubro, após o seu diretor-presidente, Rômulo Dias, pedir renúncia do cargo que ocupava desde 2008. Foi nas suas mãos que a adquirente de cartões mais do que dobrou seu lucro nos últimos sete anos – fase que compreende o início da sua abertura de capital na Bovespa. De 2009 para cá, os papéis saltaram 335%. Por isso, muitos já antecipavam naquela manhã o susto que os investidores teriam com o inesperado comunicado. Os papéis caíram naquele pregão 3,5%, fechando a R$ 32,00; e, depois de oito sessões, eles ainda não voltaram ao patamar registrado no último dia 13, quando fecharam a R$ 33,17.
Mas enquanto as ações da Cielo tentam se recuperar na Bolsa, um outro ponto começa a chamar atenção do mercado: os próximos de Dias, que aceitou o convite para se juntar ao quadro de diretores-executivos do Bradesco. Dias fica na Cielo até janeiro de 2017.
O retorno de Dias ao Bradesco foi visto como mais um passo dentro do processo de renovação do perfil de diretoria executiva do banco. O recente adiamento da aposentadoria de Trabuco, de 2017 para 2019, aliado ao movimento de renovação da diretoria, indica que o Bradesco se prepara para ter novos nomes aptos a ocupar a presidência do banco dentro de dois anos. Para o BTG, esse executivo pode ser claramente Dias.
Por sua vez, um gestor familiarizado com assunto, mas que pediu anonimato, disse ao InfoMoney que Dias como potencial sucessor de Trabuco pode fazer sentido, mas a probabilidade disso ocorrer é muito baixa. Isso porque Dias segue para o Bradesco para ser responsável pela área de cartões do banco e vai se reportar ao vice-presidente Marcelo Noronha, esse sim pode ser um potencial sucessor, comentou. “Em um banco tradicional como o Bradesco, ver Dias pular o Noronha dessa forma me surpreenderia muito, mas não dá para dizer que é impossível”, disse.
A renovação da diretoria do banco foi um passo importante em um momento que a diretoria do Bradesco reconheceu que o processo sucessório não estava maduro para acontecer ano que vem, em boa parte por conta da morte há um ano de Marco Antonio Rossi, um dos candidatos ao posto de presidente, e pelo fato de o vice-presidente Domingos Figueiredo Abreu, outro candidato, ter se tornado réu em processo da Operação Zelotes, da Polícia Federal, disse uma pessoa com conhecimento ao assunto ao Valor. Além de Dias e Noronha, fazem parte dessa nova fase de executivos do Bradesco nomes como o atual vice-presidente de tecnologia de informação, Maurício Minas, o presidente da Bradesco Seguros, Randal Zanetti, o diretor do Bradesco BBI, Renato Ejnisman e a diretora Denise Pavarina.
E o que será da Cielo?
Embora as ações da companhia ainda não tenham retomado ao patamar de preço que eram negociadas antes do anúncio, o mercado recebeu bem o nome do executivo que entrará no lugar de Dias. Eduardo Gouveia passará a comandar a Cielo a partir de janeiro de 2017, após um longo percurso na indústria, mais recentemente como CEO da Alelo Brasil, outra subsidiária do Banco do Brasil e Bradesco. Anteriormente, ele atuou como CEO da Multiplus de 2010 a 2013 e como vice-presidente executivo de marketing e vendas da Cielo, de 2006 a 2010. Ele também tem uma vasta experiência na Hipercard e ajudou na popularização da marca com as classes sociais mais altas no Brasil.
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Para o Deutsche Bank, a nomeação de Gouveia deve assegurar a continuidade da estratégia da empresa. Além disso, sua vasta experiência em marketing pode beneficiar a estratégia da companhia para melhorar a imagem de sua marca. “No entanto, dado o sucesso de Dias, achamos que ele terá que se superar”, comentou o analista Tito Labarta, que assina o relatório do banco.
Da mesma forma comentou o BTG Pactual, que viu a notícia como claramente negativa para a Cielo, mas com a ponderação de que Gouveia é um executivo muito bem respeitado pelo mercado. Além disso, a ida de Dias para o Bradesco foi vista pelos analistas do banco como “o melhor dos mundos”. “Ele não está se mudando para um concorrente, ele está retornando às suas raízes, onde poderá até atingir metas mais elevadas”. Fatos que contribuíram para que o banco mantivesse recomendação de compra para a ação e indicasse que qualquer reação exagerada naquele pregão seria uma oportunidade para se expor ao case.
Por outro lado, os analistas Henrique Navarro, Bruno Mendonça e Olavo Arthuzo, do Santander, alertaram para o risco da mudança afetar a governança corporativa da companhia, dado que a Cielo é controlada pelo Bradesco e Banco do Brasil. “A Cielo carrega um alto grau de conflito de conflito de interesse, em nossa opinião. Prevemos que no futuro a Cielo poderia se tornar mais agressiva na aquisição de clientes, o que poderia resultar em uma guerra de preços em MDRs (Merchant Discount Rate) – taxa cobrada dos estabelecimentos comerciais por cada operação realizada – e preços de aluguel de POS (Point of Sale)”, comentaram. Eles reiteraram visão negativa para a ação, que carrega recomendação underperform (desempenho abaixo da média) e preço-alvo de R$ 34,00 pelo banco.