Entrevista

CSN revela as prioridades da empresa após disputa pela Corus

Diretor da siderúrgica diz que a empresa analisa lançar ações da mina Casa de Pedra como alternativa para captar recursos

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SÃO PAULO – Em evidência no noticiário nacional e internacional neste início de ano, devido ao processo de disputa pela siderúrgica anglo-holandesa Corus com a indiana Tata Steel, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) tem atraído as atenções de muitos investidores.

O diretor de Relações com Investidores, José Marcos Treiger, falou à InfoMoney sobre as novas prioridades da empresa, investimentos, a possível oferta de ações da mina Casa de Pedra, câmbio e outros assuntos. Confira os principais pontos da entrevista:

InfoMoney – Após as recentes tentativas de aquisição no exterior (Wheeling e Corus), quais são os planos da empresa no que diz respeito à expansão no mercado internacional. Há espaço para aquisições no mercado internacional, ou o foco pode ser direcionado ao mercado nacional?

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José Marcos Treiger – A maior prioridade neste momento é dar prosseguimento ao nosso próprio plano de investimentos e realizar uma série de compromissos que assumimos com o mercado, com o público em geral. Dentro disso, iremos inaugurar o nosso terminal de exportação de minério de ferro nos primeiros dias de março (Itaguaí RJ), como parte da realização do investimento do nosso complexo de mineração, logística e exportação do minério de ferro de Casa de Pedra.

Este empreendimento, que finalizaremos até 2010 com investimentos da ordem de US$ 1,5 bilhão, compreende passar a nossa capacidade de produção de minério de ferro dos 16 milhões de toneladas anuais para mais de 50 milhões de toneladas. Além disso, planejamos exportar este mesmo volume a partir do novo terminal, que, na primeira fase estará capacitado a exportar 7 milhões de toneladas por ano.

Até o final de 2007 nós atingiremos uma capacidade de exportar algo como 40 milhões de toneladas, que é o término da segunda fase e, mais adiante, vamos instalar novos equipamentos que vão nos permitir ultrapassar a barreira das 50 milhões de toneladas.

“A maior prioridade é dar prosseguimento ao plano de investimentos e realizar uma série de compromissos que assumimos com o mercado, com o público em geral”

IM – Que segmento de produção será beneficiado pelos investimentos?

Treiger – O outro grande investimento, complementar ao aumento da produção de minério de ferro, é o incremento de nossa capacidade de produção de aço bruto, por um processo que se dará em dois módulos de 4,5 milhões de toneladas de aço bruto adicionais. O primeiro grande bloco será junto ao porto de Itaguaí (RJ), possivelmente com a parceria da Baosteel da China, que está desenvolvendo um estudo de viabilidade econômica junto a CSN, que nós terminaremos em breve.

O Conselho de Administração da CSN já aprovou o aumento de capacidade de até 9 milhões de toneladas, ou seja, você teria um primeiro grande módulo de 4,5 milhões de toneladas em Itaguaí e o segundo a localização ainda está sendo estudada, eventualmente pode ser no Rio de Janeiro, eventualmente pode ser em Minas Gerais, adjacente à nossa própria mina de Casa de Pedra, isso nós estamos avaliando.

“De alguma forma, o processo de consolidação do setor siderúrgico está no seu início e a gente acredita que outras oportunidades surgirão”

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Os primeiros 4,5 milhões de toneladas podem estar disponíveis sob a forma de placas de aço. Hoje a CSN é a empresa que tem a capacidade de produzir as placas de aço ao custo mais baixo do mundo, apenas ligeiramente superior a US$ 200 por tonelada, se desconsiderarmos a depreciação. Isso nos torna extremamente competitivos.

Acreditamos que essa capacidade competitiva que temos no minério de ferro e na placa agregaria muito valor a uma capacidade que poderia ser encontrada, quem sabe, na Europa ou nos EUA e já com uma rede de distribuição disponível. É neste sentido que nós rumamos, muito aceleradamente e é o que nós tentamos obter através da Corus. De alguma forma, o processo de consolidação do setor siderúrgico está no seu início e a gente acredita que outras oportunidades surgirão.

IM – Existiu sinalização de que a empresa pode realizar uma oferta pública de ações da mina Casa de Pedra. Já existe algo mais concreto quanto a isso, ou a companhia também considera a venda para um investidor institucional?

Treiger – Como empresa de capital aberto, listada no Brasil e nos EUA, não podemos parecer às autoridades brasileiras ou internacionais de estarmos fazendo propaganda do lançamento de ações. Então, no momento adequado, voltaremos ao mercado com uma informação mais completa a respeito do que eventualmente poderia ser o lançamento de ações de uma nova empresa, que seria a empresa de mineração da CSN.

Essa decisão ainda não foi tomada pela empresa, nem aprovada pelo seu conselho diretor. O que há de fato, são estudos de diferentes naturezas, inclusive este, de eventualmente emitirmos ações da empresa de mineração, por dois objetivos. Um é a captação de recursos no mercado de ações e não via dívida, o que é interessante.

“Por que a Casa de Pedra não poderia ter uma valorização assemelhada àquela já conseguida pela CAEMI?”

O outro ponto a ser lembrado e, talvez o mais importante, é conseguir o valuation correto de um ativo que hoje é aceito no mundo inteiro: a melhor mina de minério de ferro a nível internacional se você considerar a distância de 300 km do litoral, com logística, com energia elétrica, com pureza de 63% e com o nível de reservas comprovadas, que é provavelmente um dos maiores do mundo, de 1,6 bilhão de toneladas.

Vale a pena usar como referência empresas de mineração no Brasil, como por exemplo, a CAEMI, que foi incorporada pela Vale. A CAEMI tinha um valor de mercado bastante significativo, em torno de US$ 6 bilhões, de forma que não faz sentido que a CSN tenha um valor de mercado em torno de apenas US$ 8,5 bilhões.

Existe a possibilidade de conseguirmos fazer o mercado ver o valor intrínseco da mina. A CAEMI é um exemplo, já que também tem capacidade de 50 milhões de toneladas por ano, vizinha da nossa empresa futura e usa uma logística igual a nossa. Por que a Casa de Pedra não poderia ter uma valorização assemelhada àquela já conseguida pela CAEMI?

“O que há de fato, são estudos de diferentes naturezas, inclusive este, de eventualmente emitirmos ações da empresa de mineração”

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Isso poderia, no futuro, afetar positivamente a avaliação das ações da CSN. E, nesse sentido, uma venda de uma pequena parcela a um comprador estratégico, ou um lançamento de ações, ou ainda uma estratégia assemelhada a ambas, poderia muito bem ser um grande promotor do nosso valor de mercado. Esse é um de nossos grandes objetivos. Os estudos prosseguem, as alternativas estão sendo estudadas aqui dentro, mas é importante frisar que ainda não temos nada aprovado.

IM – A forte valorização do real frente ao dólar é apontada por muitas empresas como um importante obstáculo ao crescimento, principalmente no que diz respeito ás exportações. Qual a percepção da CSN e qual seria um patamar adequado da cotação do dólar para as atividades da empresa?

Treiger – Recentemente, o Deutsche Bank escolheu a CSN, a Usiminas e a russa Novolipetsk Steel como as três mais competitivas empresas de aço do mundo. Então, o nível adequado do dólar acaba sendo menos relevante para uma empresa como a nossa.

Agora, falando do setor, independente de onde esta o dólar hoje, e mesmo que o Brasil volte a repetir o crescimento de apenas 2,5%, que não é o que desejaríamos, a elasticidade do setor siderúrgico é grande em relação ao crescimento do PIB, cerca de duas vezes e meia.

O Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) prevê o crescimento do mercado brasileiro como um todo em torno de 8%, o que é amplamente satisfatório, até porque o Brasil produz 32 milhões de toneladas de aço por ano. Como só conseguimos consumir uma parte disso, precisamos exportar um percentual muito elevado desse montante.

Isso mostra que o setor está forte como um todo. Nós gostaríamos de ver a economia brasileira crescendo a mais de 2,5% por uma série de razões, para ocupar um espaço mais forte e equilibrado dentre as economias do famoso grupo BRIC.

IM – Qual a perspectiva da empresa para o preço do aço nos próximos anos? Poderá haver um aumento na demanda interna dos produtos que a CSN produz?

Treiger – Segundo as projeções do analista Rodrigo Barros do Unibanco, os preços do aço estão melhorando no mundo. Ele apresenta também a questão de que a interferência das exportações chinesas no futuro do mercado de aço, com eventuais pressões que baixariam os preços do produto, não devem se concretizar já que o governo chinês não está incentivando as exportações do produto.

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Para ele, já é possível notar o aumento do custo da matéria-prima para os produtores de aço, que felizmente não atinge a CSN, porque somos independentes na produção de minério de ferro.

Neste sentido, o que está parecendo se tornar mais evidente, é que a partir do primeiro semestre possa acontecer alguma recuperação dos preços, melhorando os números das produtoras de aço das mais diferentes especialidades, no mundo inteiro, o que também deve nos atingir.

Localmente, nós esperamos um ano forte baseado nas premissas do próprio IBS, que indicam um crescimento do mercado por volta de 8%. Para 2007 desejamos novamente bons números e, quem sabe, mais fortes para a CSN e seus investidores.