"Corrida" pela Lupatech

Como uma empresa em recuperação judicial registrou lucro líquido de quase meio bilhão de reais no 4° tri?

Para quem só lê a última linha dos balanços, a Lupatech saltou aos olhos hoje: um lucro de R$ 485 milhões no 4° trimestre; mas um detalhe no resultado mostra que ele pode não ter sido tão bom assim; a ação disparou até 40% nesta sessão

SÃO PAULO – Para quem está acostumado a ler apenas a última linha dos balanços, pode ter tido uma grande surpresa nesta quarta-feira (29) com o resultado da Lupatech (LUPA3). A empresa, que está em recuperação judicial, conseguiu reverter um prejuízo líquido de R$ 51,6 milhões no 3° trimestre em lucro líquido de R$ 484,6 milhões no 4° trimestre deste ano – uma cifra que poucas empresas listadas na Bolsa conseguiram obter em um ano de retração econômica. 

Na Bolsa, as ações da companhia dispararam até 38,93% no melhor momento do dia, indo para R$ 3,89. Os papéis, no entanto, fecharam em alta de 25,71%, a R$ 3,52, com volume financeiro de R$ 10,7 milhões, contra média diária de R$ 523 mil nos últimos 21 pregões. 

Um detalhe, no entanto, pode ter passado batido por quem seguiu toda essa euforia: embora a cifra seja expressiva, a empresa só conseguiu obter esse resultado por conta de um evento extraordinário. Como parte do seu plano de recuperação judicial, a companhia transformou parte de sua dívida em bônus de subscrição, que foi registrado – a valor justo – no balanço como receita financeira, no montante de R$ 292,152 milhões; e mais o registro de R$ 157,062 milhões – a valor presente – da receita de ajuste a valor presente dos fornecedores, empréstimos, multas, debêntures e de bonds.

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Ou seja, o lucro refere-se ao resultado financeiro da empresa e não ao operacional, que na verdade deu prejuízo, explica o João Paulo Reis, gestor da Venture Investimentos. 

Segundo ele, a empresa, na realidade, piorou em relação a 2015: “A operação da empresa deu prejuízo de R$ 52,8 milhões neste ano, contra resultado positivo de R$ 41,5 milhões um ano antes”, aponta. Ela ainda vendeu um ativo, o que reforçou o seu caixa em R$ 28,599 milhões no período, mas ainda assim encerrou o ano com uma redução de “caixa e equivalentes de caixa” de R$ 29,8 milhões, frente ao saldo positivo de R$ 27,431 milhões um ano antes.