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SÃO PAULO – A segunda semana de março começou com uma possível grande surpresa vinda do setor de alimentos para o mercado na Bovespa. Juntamente com a divulgação do resultado de 2013, a Marfrig (MRFG3) sinalizou que pode realizar a abertura de capital de uma de suas subsidiárias no exterior. Apesar do projeto ainda ser embrionário e o CEO do grupo, Sergio Rial, fazer questão de deixar claro que não há certeza se o IPO (Oferta Pública Inicial, na sigla em inglês) de fato ocorrerá, especialistas do mercado financeiro já começaram a estudar a mudança do cenário e fazer suas apostas sobre as possibilidades das subsidiárias Moy Park (voltada para o mercado europeu) e Keystone (mais focada nos mercados dos EUA e Ásia) terem ações negociadas em bolsa, com base na atual contexto e na fala da diretoria da companhia.
Para o analista da XP Investimentos, William Alves, que acompanhou a teleconferência de analistas companhia, há sinais claros que o interesse da Marfrig em IPO seria com relação à sua subsidiária europeia Moy Park, que atualmente conta com grande penetração no mercado do Reino Unido e prestígio no continente. “Houve um foco maior em destacar a Moy Park [durante o evento]. Eles aproveitaram comercialmente a aproximação com o mercado, em um momento em que a principal concorrente da Moy Park fez uma aquisição importante”, destaca Alves. Segundo ele, a esmagadora maioria dos exemplos que os diretores da Marfrig usaram para responder as perguntas dos analistas durante o “call” se referiam à filial europeia, deixando a Keystone em segundo plano.
Entre as justificativas para os estudos de IPO de uma de suas subsidiárias, Rial ressalta o descompasso entre os múltiplos da Marfrig em relação aos de seus concorrentes. Com a abertura de capital, a companhia espera uma valorização que ainda não está embutida atualmente na ação. Atualmente, o segundo maior frigorífico brasileiro é negociado na bolsa com um múltiplo EV/Ebitda (Valor da firma/Ebitda, sendo valor da firma o valor de mercado somado com a dívida líquida e o Ebitda o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) entre 5,5x e 5,7x. Seus pares domésticos atualmente possuem um EV/Ebitda na faixa de 6,0x e 6,5x, ao passo que os concorrentes da Moy Park – que possui maciça participação no mercado europeu, em especial na Inglaterra – são negociados na bolsa com múltiplos na faixa de 8,0x e 10,0x.
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No processo de IPO, a empresa que vai entrar no mercado é precificada com base nos seus pares; como as bolsas na Europa e nos EUA estão em um momento muito melhor do que a Bovespa, o preço das empresas negociadas por lá naturalmente estão em um melhor momento do que as de cá. Logo, a abertura de capital da Moy Park ou da Keystone – ou das duas, como nada foi especificado pela empresa, apesar das apostas do mercado de que é mais provável que o processo aconteça com a filial europeia – pode resultar em uma forte captação, impactando positivamente o grupo.
Efeitos podem ser positivos, mas ainda é cedo
A abertura de capital é vista por William Alves como mais um passo da companhia em direção à resolução de seu momento delicado, repleto de grandes desafios. “Falar que mudou o case ainda é cedo, porque eles têm muitos desafios no ano e ainda precisam gerar muito mais caixa. As medidas tomadas estão no sentido de melhora de fluxo de caixa, ganho de margem e capex”, mas ainda há muito a melhorar, segundo Alves.
A negociação das ações da Moy Park na bolsa de Londres poderia funcionar como um catalisador da companhia neste sentido, uma vez que as vendas de novos ativos – ferramenta antes utilizada para a melhora da situação do caixa da Marfrig, como ocorreu com a venda da Seara para a JBS (JBSS3) – já foi descartada pelo presidente Sergio Rial. “Acreditamos que o valor da subsidiária esteja na casa de R$ 2,4 bi a R$ 2,7 bi (27% a 30% do EV total atual da empresa e mais que os R$ 2 bi de Market cap da Marfrig)”, calcula o analista da XP Investimentos.
Os efeitos esperados para a companhia são positivos, ao menos no curto prazo. A abertura de capital de sua prestigiada subsidiária europeia ajudaria a elevar as margens da companhia como um todo, além de reforçar sua posição de caixa e aumentar a liquidez de suas ações na bolsa, o que pode gerar maior tranquilidade para o mercado. No entanto, o efeito colateral disso tudo seria uma diluição do investidor no capital da Marfrig, fator que deve ser deixado em segundo plano na relação custo/benefício da operação, segundo Alves.
“Ainda assim, visualizamos como riscos o desafio dessa busca por racionalização e eficiência operacional, e a seca que tende a impactar preços de grãos e boi no Brasil”, conclui o analista William Alves, em tom de alerta. O fato da companhia estar inserida em um segmento altamente cíclico e dependente de variáveis de maior risco aumentam o conselho para o investidor ter cautela ao se expor à empresa.