Com inflação em alta, é hora da Caixa e do Banco do Brasil pisarem no freio?

Ordenados pelo governo a estimular o crédito para manter a economia funcional em um cenário de crise, bancos reduziram os spreads e aumentaram de forma agressiva suas carteiras de crédito
Guido Mantega (Fotos Públicas)
Guido Mantega (Fotos Públicas)

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SÃO PAULO – A inflação voltou a incomodar as autoridades, fazendo com que o ministro Guido Mantega afirmasse que “faria de tudo” para controlar a escalada de preços no Brasil. Estima-se que o Banco Central pudesse elevar os juros para conter a gastança, mas o Ministério da Fazenda tem uma outra ferramenta para controlar o crédito no País, os bancos públicos, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil (BBAS3). 

Ordenados a estimular o crédito para manter a economia funcional em um cenário de crise, eles reduziram os spreads e aumentaram de forma agressiva suas carteiras de crédito, só a Caixa aumentou a quantia emprestada em mais de 40% em 2012. Ao contrário do que seria saudável para a inflação, é possível que os bancos privados corram atrás – jogando ainda mais dinheiro na economia. “Acreditamos que a distância entre o crescimento dos bancos públicos e privados deve diminuir neste ano”, acreditam os analistas Marcelo Henriques e Eduardo Rosman, do BTG Pactual. 

Helvídio Prisco, professor de mercado financeiro e de capitais da Trevisan Escola de Negócios, concorda que os grandes bancos privados devem estar interessados em diminuir essa distância. “Os bancos privados também vão ampliar o crédito pessoal, que não foi propriamente dito o foco deles nos últimos anos, já que optaram, por exemplo, em financiamento de carros, com margens menores e inadimplência maior”, destaca o professor. 

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Freio não deve ser acionado
Mesmo com a inflação preocupante, Henriques e Rosman não acreditam que o governo deverá pressionar para as empresas pisarem no freio – sobretudo pelo fato de que as duas companhias reduziram bastante o spread (diferença entre o custo de captação para o banco e do empréstimo para o tomador) e precisaram aumentar a quantia emprestada para compensar as margens menores. 

Eles também não devem optar por aumentar os spreads. “As reduções tem sido usadas constantemente como um banner político para o governo, e o Brasil terá eleição em breve”, acreditam os analistas do BTG. Além disso, como o crescimento do crédito agora é altamente dependente das estatais, é capaz que o governo o mantenha – já que um fraco crescimento também é bastante impopular entre os eleitores. 

Democratizar o crédito é necessário?
Para Prisco, o que a Caixa Econômica tem feito é democratizado o crédito, elevando a quantidade de pessoas atingidas por ele – o que, acredita, é extremamente saudável para a economia. “Não vejo perigos de contaminação, o que a Caixa está fazendo é ganhar market-share, mas o nível de endividamento ainda é muito baixo no Brasil”, diz o professor. 

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Para ele, o aumento do crédito é extremamente benéfico para a economia brasileira, e não tem efeitos tão drásticos na inflação – que o governo acredita que deverá perder força em breve. “Você controlar a inflação somente através dos juros é extremamente falacioso, isso é quase um mito na ciência econômica”, argumenta. 

Há efeitos indesejados de um aumento de juros?
Além disso, há um efeito nefasto e indesejado da elevação dos juros nos bancos públicos: aumenta-se o custo para as empresas, sobretudo em relação ao capital de giro das companhias tomadoras de empréstimo. E isso, para Prisco, precisa ser repassado ao consumidor através de uma elevação de preço, gerando a inflação indesejada. 

Um outro fator é a redução dos investimentos em expansão de produção, muitas vezes custeado através do farto crédito das empresas estatais. E é esse investimento que permite elevar a oferta de produtos e impossibilitar a escassez de produtos, que por sua vez também seria um sinal para elevação de preços, através da inflação. 

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Na visão de Prisco, esses investimentos em produção, financiados pelo crédito mais barato, também ajudam a controlar a elevação de preços por outro fator: a concorrência potencial. “Se eu amplio o crédito e o disponibilizo, é possível que eu financia a concorrência para diversas marcas, jogando o preço para baixo. Só o medo de que essa concorrência apareça já ajuda a manter os preços em cheque, justificando a existência de juros baratos”, finaliza o professor.