Penny stock

Ação que caiu quase 100% nos últimos anos deve fazer grupamento para sair dos centavos

Companhia pode sair dos centavos; porém, sofrendo com a Operação Lava Jato, situação não vai melhorar tão cedo

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SÃO PAULO – Dona de uma ação que já vale 4 centavos, a Lupatech (LUPA3) divulgou na última quinta-feira (7) o edital de convocação para Assembleia Geral Extraordinária que ocorreu nesta sexta-feira (15) às 11h. A pauta: deliberar sobre um grupamento de 500 ações para 1 que fará com que cada um de seus papéis custe R$ 25. Bom negócio? Gestores veem sérios motivos para pensar que não. 

Em primeiro lugar é interessante olhar para o histórico das ações da companhia na Bolsa. A empresa que fabrica equipamentos para a indústria de óleo e gás fez seu IPO (Oferta Pública Inicial, na sigla em inglês) em 2006 e, com o dinheiro, começou uma série de 15 aquisições, no valor de R$ 400 milhões, culminando em uma valorização da ordem de 170% para cada um dos seus papéis em nada mais do que 18 meses. Seria uma perfeita história de sucesso não fosse o estouro da crise econômica mundial em 2008. 

Com 64% das suas receitas dependentes de encomendas da Petrobras (PETR3; PETR4), a Lupatech sofreu pesadas perdas quando a petroleira optou por um maior rigor nos gastos e por refazer todas as suas grandes licitações por conta da situação da economia. A gigante estatal até conseguiu se recuperar, sendo depois acometida por um sério escândalo de corrupção, mas a Lupatech jamais conseguiu superar o baque inicial. 

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Das suas cotações em setembro de 2008, as ações da companhia despencaram impressionantes 99,82%, saindo de R$ 22,30 para R$ 0,04. 

Aumento de capital
Em 2014, a Lupatech conseguiu, pelo menos, lidar com uma parte do seu enorme endividamento, ao realizar um aumento de capital que transformou R$ 1,1 bilhão de suas dívidas em ações. No entanto, ainda é cedo para comemorar quando a dívida líquida da empresa continua a girar em torno de R$ 400 milhões. Isso fora que logo depois do aumento de capital, cada ação caiu mais 50% em 1º de outubro, apenas um dia depois do provento. 

Em julho do ano passado, os gestores da Ujay Capital, uma asset que administra cerca de R$ 80 milhões em ativos, explicaram em entrevista ao InfoMoney porque estavam apostando na queda de Lupatech em LUPA3. Em meio à forte diluição que o aumento de capital traria e à ausência de expectativa de que o dinheiro que entrasse mudasse as perspectivas para a empresa em termos de sua geração de resultado havia grandes chances de que os credores que receberiam essas ações as venderiam no mercado como única forma de reaver uma pequena parte da dívida que a empresa os devia. Dito e feito, as ações já caíram 64,29% daquela data até hoje. 

Ao mesmo tempo, a companhia ainda sofre, junto com todo o setor de Óleo e Gás, o impacto de escândalo da Operação Lava Jato. O prejuízo da Lupatech em 2014 foi de R$ 631 milhões, 67% a mais do que em 2013, sendo que a receita total da companhia neste período somou R$ 384,3 milhões, uma redução de 13%. Mas o que realmente incomoda no último balanço divulgado, é que os custos (avaliados em R$ 347,6 milhões) e as despesas (R$ 261,4 milhões) somados já são maiores do que as receitas da empresa. 

O problema dos grupamentos
Em uma resposta à “ameaça” da BM&FBovespa de banir ações que valem menos de R$ 1,00 na Bolsa de Valores, muitas “penny stocks” têm anunciado grupamentos de ações, com o intuito de aumentar o valor de face de cada papel através da diminuição da quantidade de ativos negociados na Bovespa. A operação, em um primeiro momento, é vista como positiva no sentido de trazer maior liquidez para ativos que eram negociados próximos de R$ 0,01. Mas o que temos visto na prática é que os grupamentos têm aberto espaço para que aquelas ações que não tinham mais como cair simplesmente… voltassem a cair.

Para explicar isso melhor é só pensar em como funciona um grupamento. O preço da ação nestas situações não foi elevado porque mais pessoas decidiram comprar e ela se valorizou; o que ocorre, na verdade, é que o número de papéis disponíveis no mercado diminuiu. No caso da Lupatech, por exemplo, para cada 500 ações que circulam hoje, haverá apenas uma em caso de aprovação. No caso, com 4,697 bilhões de ações de capital social, a companhia passará a ter 9,393 milhões. Então, o valor que cada acionista da companhia terá em mãos após a operação será igual ao que ele tinha antes, apenas o número de ações em sua carteira será menor. 

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Isso significa que o mercado pode olhar para os fundamentos daquela empresa como endividamento, fluxo de caixa, Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), etc. e enxergá-la como “cara” no patamar pós-grupamento. Portanto, é possível que surja uma pressão vendedora, já que o investidor não vai querer ter em suas mãos um papel sobrevalorizado. A consequência direta deste cenário é que os papéis que quase não tinham mais para onde cair quando a ação valia perto de 1 centavo, abriram um espaço enorme para desvalorização. 

Procurada, a Lupatech não havia enviado uma resposta ao InfoMoney até a publicação desta matéria.