Momento delicado

A complicada volta dos esportes nos EUA em meio à pandemia e seus impactos financeiros

Por enquanto, há muito mais dúvidas do que certezas. A única garantia até aqui são os prejuízos, que devem se contar aos bilhões de dólares

(Getty Images)

Nova York – Se fosse necessário escolher a data exata em que a pandemia do coronavírus virou realidade para os americanos, o dia 11 de março seria um ótimo candidato. Na noite daquela quarta-feira, três notícias surpreenderam o país.

O ator Tom Hanks e sua mulher, Rita Wilson, disseram que tinham contraído o vírus durante filmagens na Austrália.

Donald Trump anunciou que dali dois dias europeus estariam proibidos de entrar no país por causa da explosão de casos na Itália e na Espanha.

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E a NBA anunciou a suspensão de todas as partidas depois que um teste realizado por Rudy Gobert, um francês que joga no Utah Jazz, confirmou que o jogador estava com Covid-19.

Hanks e a mulher se curaram, e os europeus só podem entrar nos Estados Unidos caso passem duas semanas em algum país livre de restrições.

Os esportes continuam parados (com a exceção de alguns torneios de golfe). As três principais ligas profissionais – NBA (basquete), NFL (futebol americano) e MLB (beisebol) – já divulgaram seus planos voltar. Por enquanto, há muito mais dúvidas do que certezas. A única garantia até aqui são os prejuízos, que devem se contar aos bilhões de dólares.

Considere o caso do beisebol. O esporte, também chamado de passatempo nacional americano, é sinônimo de dias ensolarados, hot dogs e cervejas geladas no estádio. O ritmo lento da partida é ideal para reunir amigos e parentes num evento esportivo.

A temporada costuma começar no final de março, e se estende até outubro. Cada time joga 162 vezes, sem contar as finais. Metade dos jogos são em casa, a outra metade viajando pelo país.

Por causa da pandemia, o início do campeonato deste ano foi adiado. Depois de meses de um tenso vaivém entre os donos das equipes e o sindicato dos jogadores, chegou-se a um formato com apenas 60 partidas por time, começando com quase quatro meses de atraso.

Os portões estarão fechados, pelo menos até segunda ordem. Não haverá receitas de ingressos, de venda de comida, bebida e merchandising nas lojas dos estádios, não haverá cobrança do estacionamento.

Meses atrás, os donos dos times de beisebol afirmaram que uma temporada com a metade da duração normal (81 jogos) representaria perdas de US$ 4 bilhões.

Os observadores do esporte dizem que o número foi exagerado por causa das negociações, mas ninguém tem dúvidas de que o prejuízo será grande.

Bill DeWitt Jr., dono do St. Louis Cardinals, um time avaliado em US$ 2,2 bilhões pela revista Forbes, afirmou numa entrevista recente que o beisebol “nem é tão lucrativo, para falar a verdade”. O comentário pegou mal. O vírus já deixou um rastro de meio milhão de mortos e devastação econômica no mundo todo e segue fora de controle — teria sido melhor que o bilionário ficasse calado.

Enquanto os executivos se ocupam das planilhas, os jogadores, técnicos, juízes e funcionários têm de se preocupar com os riscos de saúde envolvidos nas partidas.

A NBA, que vai retomar a temporada a partir de 30 de julho, divulgou um documento de 113 páginas detalhando as normas de segurança para o restante da temporada.

Todas as partidas serão realizadas na “bolha” do Walt Disney World, em Orlando, na Flórida. Dos 30 times, os 22 que ainda tinham chance de classificação para as finais vão jogar o restante da temporada regular e os subsequentes playoffs em completo isolamento.

As medidas são extremamente minuciosas. Os jogos vão acontecer em três quadras do complexo esportivo ESPN Wide World of Sports, da emissora de TV paga. Há também mais de dez quadras para treinos.

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Os jogadores ficarão hospedados em hotéis, numa espécie de concentração permanente. Parentes e convidados só poderão entrar no resort depois de concluída a primeira fase dos playoffs. A ideia é garantir que a bolha seja impermeável até a sétima semana, quando metade dos times terá sido eliminada.

E, claro, não haverá torcida nenhuma nos ginásios.

As regras também exigem o uso de máscaras por todos os que estiverem dentro da bolha – a única exceção serão os treinos e partidas. Até mesmo assistentes que ficam no banco terão de vesti-la.

Todos os atletas e funcionários das equipes passarão por dois testes ao entrar na bolha, e exames regulares serão feitos durante a temporada.

Os restaurantes do resort terão sempre os mesmos funcionários, para reduzir o risco de que a rotatividade abra um flanco para a entrada do coronavírus. A NBA sugere até mesmo que os baralhos usados pelos jogadores nos horários de folga sejam jogados fora depois de usados.

Até agora, pelo menos 25 jogadores de um total de 351 testados apresentaram resultados positivos para o coronavírus. Alguns já cumpriram a quarentena e foram liberados para entra na bolha.

Mas nem todos os atletas sentem segurança suficiente para voltar às quadras. DeAndre Jordan e Spencer Dinwiddie, dois jogadores do Brooklyn Nets, de Nova York, foram diagnosticados com Covid-19 e não vão se unir ao time em Orlando. Wilson Chandler, companheiro dos dois, decidiu não jogar por medo de transmitir o coronavírus para sua família.

Beisebol e basquete são populares, mas nada se compara ao tamanho da NFL, a liga de futebol americano. O esporte é de longe o mais popular do país, tanto em termos de audiência na TV quanto em faturamento.

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Até agora, os planos anunciados pela NFL sugerem uma temporada bastante diferente – mas as restrições serão bem menos severas que as das outras ligas.

Ainda não houve uma determinação definitiva sobre a presença de torcedores nas arquibancadas, mas os três times do estado de Nova York, por exemplo, não poderão receber os fãs porque eventos esportivos seguem proibidos.

O Baltimore Ravens foi a primeira equipe a anunciar uma redução voluntária. Dos 71 000 lugares do M&T Bank Stadium, apenas 14 000 poderão ser ocupados.

Uma das alternativas sendo estudadas é cobrir as cadeiras vazias com faixas de patrocinadores, para tentar recuperar pelo menos parte das receitas perdidas. Outra possibilidade é diminuir o teto salarial dos atletas, para compensar a diferença na folha de pagamento.

A questão dos ingressos é particularmente espinhosa no futebol americano. Como cada time joga apenas oito vezes em sua cidade, a maioria das franquias vende pacotes que cobrem todas as partidas em casa.

Os Ravens já tinham vendido 62 000 pacotes. Ou seja, dezenas de milhares de torcedores não poderão usar os bilhetes que têm em mãos. O plano é dar preferência a esses clientes para a temporada de 2021.

Com a exceção da transferência para os Estados Unidos de cinco partidas que seriam realizadas no exterior (quatro em Londres e uma na Cidade do México), a tabela foi mantida.

Isso significa viagens constantes com suas equipes enormes. Cada time tem 53 jogadores, sem contar dezenas de técnicos, assistentes e funcionários responsáveis pela logística.

Uma das ideias é que os times viajem no mesmo dia da partida e voltem imediatamente depois para suas cidades-sede – algo que nunca acontecia. O objetivo é evitar a exposição ao vírus em hotéis.

As normas anunciadas para o campo também são no mínimo curiosas. O futebol americano é um esporte de contato extremo – mas depois das partidas os jogadores terão de manter uma distância de dois metros dos adversários e serão proibidos de trocar camisas.

“Isso é MUITA BOBAGEM, mano”, postou no Twitter Deshaun Jackson, quarterback do Houston Texans e uma das estrelas ascendentes da liga. “Não estou tentando ser engraçadinho, mas isso só pode ser piada”, disse Stefon Diggs, do Minnesota Vikings, também no Twitter.

A principal fonte dos US$ 15 bilhões de receitas anuais da NFL vem da venda dos direitos de transmissão. Com a crise do coronavírus longe de estar sob controle – e com boa parte da temporada realizada em meses frios –, pelo menos a audiência televisiva deve estar garantida.

O dinheiro que os torcedores gastam com comida, camisas e suítes de luxo, entretanto, vai ter de esperar.

Quem mais vai sofrer com essas restrições são as duas equipes de Los Angeles, os Rams e Chargers. A previsão é que elas comecem a usar seu novo estádio nesta temporada.

Construído a um custo de US$ 5 bilhões – o valor mais alto jamais investido numa instalação esportiva –, tudo indica que o SoFi Stadium terá uma inauguração melancólica: sem torcida, sem barulho, sem animação.

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